imprensa paraense
O poder de ‘O Liberal’
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Por Lúcio Flávio Pinto, fevereiro de 2006. Publicado originalmente no Jornal Pessoal nº 361 (2ª quinzena de janeiro/2006).


No dia 7 de janeiro deste ano, o Grupo Liberal começou a realizar pelo menos duas façanhas. A primeira foi concluir a importação de uma das mais modernas máquinas de imprimir jornais do mundo. A segunda, foi retirar o equipamento em tempo recorde do porto de Belém. No mesmo dia em que chegou à capital paraense, a máquina foi desembaraçada, apesar de ser um sábado. Três dias depois, já estava sendo montada na sede da empresa, que fica nos fundos do Jardim Botânico de Belém, o antigo Bosque Rodrigues Alves. 

Apesar do registro propagandístico feito no próprio jornal O Liberal e na TV Liberal, o distinto público não foi obsequiado com informações suficientes para avaliar o que estava sendo anunciado. A máquina importada, uma Uniset Full Collor com forno secador, é a única do seu tipo vendida pelo fabricante alemão para toda a América Latina.

Trata-se de um pioneirismo bisado pelo grupo Liberal: em 1989 a empresa contratou a compra e três anos depois começou a instalar a primeira impressora off-set da Man Roland no continente, a Uniman 4/2-S. O mercado brasileiro sempre preferiu outros fabricantes, sobretudo o americano Goss. Por isso, houve curiosidade e interesse gerais pela inovação das Organizações Romulo Maiorana.

Em 1972 o fundador do que viria a ser o maior império de comunicações do Norte do Brasil promoveu um salto tecnológico na impressão de jornais em Belém, instalando o primeiro off-set do Pará (e um dos primeiros do Brasil) na oficina de O Liberal. O parque gráfico do jornal estava totalmente defasado quando Romulo Maiorana o adquiriu, em 1966. Ao comprar a outrora poderosa Folha do Norte, em 1972, O Liberal já liderava o setor.

Com apenas três anos no comando da empresa, seu filho e principal sucessor, Romulo Maiorana Júnior, parecia seguir nessa trilha de inovação. A Uniman 4/2-S representava outro notável avanço em relação à concorrência: é capaz de imprimir 60 mil jornais a cada hora, com capas em cores, introduzindo a policromia na imprensa paraense. Para que o serviço fosse otimizado, porém, era necessário acoplá-lo a um sistema de esteiras, classificação e empacotamento automáticos, que lhe agregariam presteza e eficiência. Embora significasse um custo adicional de menos de 300 mil dólares, enquanto a rotativa representava investimento de aproximadamente 5 milhões de dólares, essa complementação nunca foi providenciada. Por isso, a máquina nunca funcionou com sua velocidade normal. Provavelmente não ultrapassava 60% da sua potência.

Alicerces frágeis

Olhos mais experimentados podem observar essa lacuna ainda hoje. Um filmete de propaganda do jornal, repetido à exaustão na televisão do grupo, mostra o trabalho manual de recebimento dos jornais que saem da boca da máquina, um contraste brutal com a velocidade do processo industrial, o velho se chocando com o novo. Para que a ação dos funcionários no trabalho de pós-impressão seja compatibilizado, a impressora tem que funcionar a uma velocidade inferior à sua plena capacidade.

Por que, então, comprar uma máquina mais veloz ainda e pelo menos três vezes mais cara, se a tiragem média declarada do jornal é a mesma de 1989, de 50 mil exemplares? O ganho não é de velocidade, já que a mais moderna das máquinas da Man Roland imprime apenas cinco mil exemplares a mais por hora do que a rotativa ainda em uso (e subutilizada) pelo jornal. A diferença está num acréscimo tecnológico: a nova máquina conta com quatro torres de secagem, enquanto a atual dispõe de apenas duas semi-torres. 

Com o novo equipamento, o grupo Liberal não apenas vai contar com impressão em cores de mais qualidade, como poderá encartar impressos em papéis especiais, mais finos do que o melhor papel-jornal. Além de faturar publicidade de valor elevado, em segmentos de maior sofisticação, poderá atender encomendas de terceiros, inclusive para imprimir revistas. Assim, o investimento parece ser de futuro, deixando para trás concorrentes efetivos ou potenciais.

O caminho da conquista, entretanto, não está isento de problemas. As torres têm a altura de um prédio de cinco andares. Ultrapassam o teto do audacioso prédio concebido e executado entre 1992 e 1993 para abrigar a sede do jornal, transferida do seu antigo endereço, no centro de Belém. Uma espécie de chapéu terá que ser improvisado na cobertura do prédio. Provocará ainda a redução do espaço do gabinete de Romulo Júnior, no último andar, um dos maiores e mais luxuosos da imprensa – e não só no Brasil, mas em todo mundo.

Essa sede já foi o resultado da inovação de 1989, adotada, ao que parece, sem reflexão na extensão necessária. Quando a máquina chegou ao porto de Belém, seus novos donos descobriram que o velho prédio da rua Gaspar Viana não tinha altura nem alicerces para acomodar o equipamento e suportá-lo em funcionamento. A gloriosa sede da Folha do Norte, de Paulo Maranhão, envelhecera para esse fim. O equipamento ficou armazenado, no porto, durante meses, enquanto a nova sede era levantada, às pressas (os encargos portuários acabaram sendo perdoados), para recebê-lo. O gasto nas obras civis equivaleu ao valor da aquisição da impressora, somando 10 milhões de dólares, praticamente metade tomado de empréstimo.

Conseqüências pesadas

Uma década e meia depois, a situação do mercado de jornais já não é a mesma. Qualidade de impressão e vantagens adicionais influem sobre o público, antes como agora, mas seu peso já não é tão grande, até mesmo porque as melhorias são menos notadas. O conteúdo jornalístico da mídia impressa é, cada vez mais, o diferencial dela em relação às outras mídias, sobretudo as mais recentes, como a internet. Diferença capaz de conter a evasão de leitores das páginas dos jornais.

Investir na mão-de-obra nunca foi prioridade para o Grupo Liberal, nem a formação de opinião pública qualificada. Por isso, pela primeira vez em muitos anos, a liderança do grupo deixou de ser absoluta. Mesmo com um segundo jornal diário, seu domínio está muito abaixo dos 98% que apregoava nas décadas de 1980-90. O avanço tecnológico conseguirá compensar e fazer esquecer a fraqueza de conteúdo?

Esta é, mais uma vez, a dúvida que fica. Uma dúvida que não pode ser respondida apenas através da análise propriamente jornalística, industrial ou comercial do produto. Ela requer consideração pelo fator poder. E poder, o Grupo Liberal ainda tem bastante, por força de suas íntimas relações com a maioria dos governos mais recentes que se sucederam no Pará, com ênfase sem paralelo em 10 anos de mando tucano do PSDB, e pela estrutura que montou com base nessa parceria. O grupo tem o poder de fogo de dois jornais diários, nove emissoras que geram imagem de TV, 90 retransmissoras, oito emissoras de rádio, um portal de internet e uma TV a cabo, tudo isso com o selo da Rede Globo.

É por isso que as taxas devidas pela armazenagem de muitos meses no porto de Belém da primeira impressora Man Roland acabaram sendo perdoadas – por interferência política. E agora os equipamentos importados foram retirados no mesmo dia em que chegaram à cidade, como poucas empresas conseguiriam fazer em todo país, ainda que tudo feito perfeitamente dentro da lei.

Como tais façanhas são possíveis? A resposta a essa pergunta envolve uma questão de poder. Quem tenta encontrá-la e dela prestar contas ao público experimenta as conseqüências desse ato de lesa-poder. Por isso mesmo, pesadíssimas.
 

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Lúcio Flávio Pinto é jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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