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Natal: dia normal no Lixão de Babi
O lixão de Belford Roxo é uma das..
comunidades mais pobres do Rio..
Cestas do Natal Sem Fome não fazem a festa de quem vive no lixo, entre porcos e urubus. Do jornal Q!, do Rio de Janeiro, 22/12/2005. Reportagem de Jaime Gonçalves Filho, fotos de Moskow.


O odor, a sujeira e milhares de moscas ao redor não impedem que a dona de casa Maria Luiza Marques deixe as sandálias na porta, antes de entrar em seu barraco de madeira. O espaço tem pouco mais de quatro metros quadrados e o chão de barro limpo, em contraste com as toneladas de lixo produzidas pela população de Belford Roxo e jogadas à sua porta diariamente. Amanhã, Maria Luiza e sua família irão receber uma das cestas doadas pela campanha Natal Sem Fome. A chegada da comida é bem-vinda, mas não representa festa. "O Natal pra mim vai ser como um dia qualquer", resume, sem emoção.

Localizado em Belford Roxo, o Lixão Babi, onde Maria Luiza vive há cinco anos, é considerado o pior bolsão de miséria entre as comunidades atendidas pelo Natal Sem Fome no Rio. Com cinco filhos e o marido desempregado, Maria que aparenta bem mais que seus 35 anos sobrevive do que arrecada nos rejeitos. "Quando vem um pãozinho embalado e eu vejo que não está estragado, dou para as crianças", diz.

A situação é a mesma para as demais 30 famílias que moram ali e disputam com outros catadores garrafas, latas e papelão, vendidos para reciclagem. Solange da Silva Izidoro, 50, mudou-se para lá há 10 anos. Com sete filhos e grávida do oitavo, arrecada cerca de R$ 50 por semana, renda completada com o salário de motorista do marido. "A gente se mudou para cá porque não tinha como pagar aluguel. Aqui a gente também não paga água nem luz", explica.

Solange não se lembra em quem votou nas últimas eleições para presidente. Questionada se foi ou não no presidente Lula, diz: "Acho que talvez tenha sido nesse aí. Mas até agora acho que não mudou muita coisa, não é?".

O contato direto com o lixo e bichos como porcos e urubus, além das moscas, reflete-se na pele das crianças e das mães, cobertas por micoses e feridas. "Isso é normal, não é nada demais, não. O importante é que as crianças têm saúde", diz Solange, uma das moradoras que consegue manter os filhos na escola.
 

A costureira Mônica Valéria Barata, 38, é uma das voluntárias que se mobilizam anualmente para juntar as cestas na ONG Ação da Cidadania e levá-las para os moradores do lixão. "O problema é que nunca é suficiente. Eu dou prioridade aos que moram aqui. Quando acaba, as pessoas choram, mostram os filhos com fome. A gente se sente um nada", lamenta.

Amanhã ela e a tia distribuirão insuficientes 160 cestas no lixão. Ao contrário do que se poderia esperar, a notícia da entrega não gera reações entusiasmadas. "Natal não é nada demais. O importante é que minha família vai ter o que comer", diz Marinete Ferreira, 60.

Questionada se foi ou não no presidente Lula, diz: "Acho que talvez tenha sido nesse aí. Mas até agora acho que não mudou muita coisa, não é?"
.Brincadeiras no lixo

Embrenhado no interior da Baixada Fluminense e a poucos quilômetros do Rio, o Lixão Babi ocupa um espaço de 80 km² e recebe todos os dias o lixo produzido por aproximadamente 500 mil pessoas, população de um dos municípios mais pobres e violentos e do estado: Belford Roxo. O lugar é um dos 67 lixões que existem no estado, nos quais trabalham 2.762 famílias segundo pesquisa da Pastoral de Aterros Sanitários da Arquidiocese de Niterói. De acordo com o levantamento, são despejadas cerca de 200 toneladas de lixo por dia sem qualquer tratamento.
 

Em Belford Roxo, o ambiente é desolador. As pessoas catam e põem na boca qualquer alimento que encontram. Os restos de alimentos são disputados também por cachorros, porcos e bois. "É de cortar o coração, você ver crianças comendo alimentos mofados e molhados nesse lugar imundo", diz Mônica Valéria, uma das voluntárias do Natal Sem Fome.

No verão, com sol forte, o cheiro azedo do lixo se acentua; com a chuva, as valas feitas para escorrer o chorume do lixo transbordam e alagam as ruas já cheias de lama. "As crianças chegam à escola fedendo. Aí ninguém quer ir", diz a catadora Solange da Silva Izidora. Em meio à dureza do cotidiano, há espaço para brincadeiras. Cabeças de bonecas servem de brinquedos. E um rapaz saca do lixo uma máquina fotográfica velha e finge fotografar a equipe.

As pessoas catam e põem na boca qualquer alimento que encontram. Os restos de alimentos são disputados também por cachorros, porcos e bois

.Eu só preciso de paz

Em época de festas e consumo desenfreado, era de se esperar que os mais necessitados nutrissem sonhos imensos. Não é o que acontece com a população do Lixão Babi. Nenhuma das pessoas ouvidas pela reportagem do Q! disse ambicionar bens materiais. O ex-vigia Valtenci dos Santos, 63, sonha alto, mas coletivamente. "Tudo que me falta é paz. Só isso", conta, depois de dizer que há 8 anos é catador do lixão. O trabalho lhe rende uma média de R$ 300 mensais para sustentar a família.

Valtenci encontra no avanço da tecnologia a razão para que um número tão grande de pessoas viva do lixo. "Isso são as máquinas ocupando o espaço da mão-de-obra humana. Ainda mais para uma pessoa na minha idade. Hoje, uma pessoa com 35 anos já está velha."

Fotos de Moskow


 


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