O brasileiro, o mazombo e o poeta da Vila
por Francis Vale, Caros Amigos, 26 de novembro, 2004
 

Uma campanha publicitária do Governo Federal repete que "O Melhor do Brasil é o Brasileiro". Há quem conteste a frase. E com todo o direito.  Optei (sem trocadilhos) por defendê-la.

Porque entendo que a melhor coisa que essa natureza exuberante produziu foi esse povo maravilhoso. Um povo que consegue sobreviver milagrosamente com um salário mínimo de duzentos e sessenta reais por mês, quando não é desempregado ou sub. Um povo que sobrevive sob o peso de dezenas de tributos e multas que beiram o confisco. Um povo que, mesmo assim, orgulha-se ao afirmar que temos o melhor carnaval e o melhor futebol do planeta. Um povo que vibra com o sucesso de nossos atletas, artistas e pensadores pelo mundo afora. Esse é o povo brasileiro. Ou simplesmente, o brasileiro.

Do meio desse povo, emerge uma camada especial, que se julga acima dos comuns mortais, a verdadeira nata social, que entende ser o Brasil um caso sem jeito."Tudo dá errado nesse país, desde Pedro Álvares Cabral. Na carta de Caminha já há indícios do que iria acontecer." Ao tipo integrante dessa camada a "molecagem" apelidou de mazombo, numa referência à designação depreciativa que os brasileiros davam aos filhos de portugueses aqui nascidos, mas educados em Portugal, lugar por eles exaltado como se fosse a verdadeira pátria. Pois bem. Os mazombos começaram a atacar a campanha de exaltação ao brasileiro. Tem até um escriba bem remunerado de uma dessas revistonas aí que afirmou ser o brasileiro uma invenção de Getúlio Vargas, razão pela qual não existiria enquanto povo. Lógico, o povo que ele queria aqui era outro: louro dos olhos claros e de elevada estatura física. Esse povinho caboclo que fala "grobo" e "framengo" ele não quer saber.

O mazombo tem como sonho maior passear em Miami, depois de adquirir um carro importado do ano, com o qual vai se exibir nas cidades interioranas e é obrigado a trazê-lo rebocado de volta para a Capital, quando quebra, por absoluta ausência de assistência técnica. Aí diz que a culpa é do governo que ainda não obrigou as montadoras a instalarem uma rede de concessionárias em todos os municípios do país. Tudo que o mazombo admira e gosta está ou vem do exterior."No Brasil, não tem museu que preste. Museu é O Louvre" O mazombo diz isso sem jamais haver visitado um museu de sua terra. "Brasileiro não sabe fazer cinema. Por isso não conquista o Oscar". O mazombo assistiu a uns dois filmes nacionais e tirou essa conclusão. Para o mazombo, o Brasil só deveria produzir matéria- prima para a exportação. "Cultura para a exportação é a de soja. Música, literatura, cinema e teatro não dá. A língua portuguesa não ajuda."

Para conhecer um mazombo é suficiente saber se ele conhece e detesta a música "O Cinema Falado", de Noel, que deixou como marca um verso de outra canção: "A vila não quer abafar ninguém/ só quer mostrar que faz samba também".
 
 

Francis Vale é advogado e diretor cinematográfico

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