Pe. JOSÉ COMBLIN, MISSIONÁRIO-PROFETA DA JUSTIÇA E DA LIBERDADE



(Mensagem do Grupo Kairós/Nós Também Somos Igreja, reverenciando a memória profética do Pe. José Comblin, por ocasião da Sessão Especial realizada na Câmara dos Deputados, hoje, em sua homenagem)

(1) Como em tantas outras ocasiões – cada uma com seu próprio perfil – também nesta, reúne-se parte da vasta família combliniana, espalhada pelo Nordeste, pelo Brasil, pela América Latina, pela Europa e outras partes do mundo. Vasta família, da qual também nós, do Grupo Kairós/Nós Também Somos Igreja, fazemos parte, para render homenagem à sua memória, com os olhos fitos em seu denso legado de missionário-profeta, de teólogo da práxis, de pedagogo da liberdade, de sociólogo “demolidor de mitos”, e, sobretudo, para evocar o legado do Pe. José, amigo e defensor incondicional da causa libertadora dos pobres, nas pegadas da tradição evangélica.

(2) Mesmo referindo-se a outros, Pe. José mostrou-se, por gestos e palavras, ao longo de sua vida, como um fiel “missionário-profeta” (expressão por ele usada no livro A Força da Palavra). Missionário-profeta comprometido com a defesa, a promoção e a celebração da VIDA, em todas as suas dimensões, do Planeta e dos Humanos, a isto tendo-se dedicado incessantemente, e com todas as suas forças, desmascarando e denunciando as forças de morte, e anunciando sempre que outro mundo é possível e necessário! Como aceitar, calados, por exemplo, as brutais estatísticas de morte (por assassinatos de mulheres, de jovens, de crianças, de trabalhadores rurais e urbanos, de mortes por acidentes de trabalho, por acidentes de trânsito, que, somadas, superam os mais trágicos índices de vítimas de guerras?

(3) Como missionário-profeta, Pe. José Comblin sempre se revelou, por gestos e palavras, um zeloso defensor dos Direitos Humanos, dos direitos dos povos, dos direitos da Mãe-Terra. Como esquecer sua profética iracúndia contra as ditaduras militares, inclusive no Brasil e no Cone Sul, em seu aterrorizante “rumor de botas”, do que resultou sua acurada pesquisa de sociólogo sobre A Ideologia da Segurança Nacional, um clássico da literatura especializada? Foi em razão de sua atitude de missionário-profeta, que Pe. José Comblin foi expulso, primeiro, pela ditadura empresarial-militar brasileira (1972), e alguns anos depois, também expulso do Chile, pela ditadura de Pinochet…

(4) Atitude de missionário-profeta incansavelmente testemunhada, não apenas no passado. Diferentemente de reverendas figuras que tiveram, no passado, uma incisiva postura profética, e hoje apresentando-se mudos ou cautelosos, Pe. José foi incansável, para além dos seus oitenta anos. Nesse sentido, pudemos acompanhar, de perto, toda a sua indignação, por ex., com o Projeto de Transposição de águas do rio São Francisco, e toda a solidariedade prestada ao gesto profético testemunhado por Dom Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra – BA, tendo-o visitado em solidariedade, quando das greves de fome.

(5) Em vários episódios recentes, testemunhou sua fidelidade de missionário-profeta, tanto no plano macro-social quanto na esfera eclesial. Num desses momentos de grande tensão, interveio corajosamente, sem tomar posição político-partidária, diante da desvairada onda de criminalização de uma das candidaturas presidenciais, desmascarando posições hipócritas, preferindo apontar as causas do problema, chegando a reconhecer, com impactante humildade (“José Comblin, grande pecador” – foi assim que ele assinou seu texto) as omissões da sociedade e da Igreja diante de situações-limite enfrentadas por tantas mulheres, em especial as das classes populares, na maioria jovens e adolescentes, em complicada situação de gravidez.

(6) Assim era – e para nós, continua sendo, por meio do seu denso legado – o Pe. José Comblin: um missionário-profeta, sempre comprometido com a causa libertadora dos pobres – não apenas do ponto de vista econômico, também os esquecidos, os desprezados, os humilhados, os marginalizados, os sem-terra, os sem-teto, os não letrados, os sem-saúde, os espoliados, os que sofrem de baixa auto-estima –, a quem sempre tratou de encorajar a se tornarem protagonistas de sua libertação de todas as formas de opressão – de classe, de gênero, de etnia, de geração, de escolaridade, de religião, etc. Daí sua incessante e bem articulada atitude de denúncia-anúncio, por onde passava:

(7) – contra os crimes do Capital e do seu Estado (concentração de riquezas, de terras, de renda; políticas de privatização do patrimônio público; crescente degradação das fontes de vida; crescente desigualdade social; cometimento de uma justiça seletiva – para os ricos e privilegiados do sistema, as “facilidades” da Lei; para os pobres, as penas mais severas; hipertrofia do Executivo, subserviência do Legislativo, omissão cúmplice do Judiciário; a crescente cumplicidade entre os agentes do Estado e o grande Capital, em sua voracidade de extorsão do erário, por meio de diferentes táticas – aí segue ainda impune a multidão de corruptores e corruptos, envolvendo inclusive figuras das três esferas de Poder…), Pe. José Comblin anunciava, sempre por gestos e palavras, a necessidade de construção de um mundo novo, de uma nova humanidade, de justiça, de liberdade, de reconhecimento da dignidade da Mãe-Terra, dos povos, das pessoas, e cujos construtores são sobretudo as vítimas desse sistema, por meio de sua organização, de sua formação e de sua luta, desde as “correntezas subterrâneas”.

(8) É esse o Pe. José, a cuja memória e a cujo legado, ontem, hoje e amanhã, haveremos de reverenciar, por meio de nosso seguimento dessas veredas, que são as veredas do Seguimento de Jesus de Nazaré.

João Pessoa, 28 de maio de 2012.

Grupo Kairós/Nós Também Somos Igreja

Share

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>