Funk, sinto muito..., por Renato Kress
   Funk, sinto muito se não pretendo rescrever as paupérrimas e enfadonhas críticas sociais em textos que seguem uma padronização e um direcionamento pré-determinado em jornais condicionados por máfias.

   Foi mal se não pretendo me ater ao espaço, à expectativa reservada a quem se propõe a discorrer sobre o assunto. Não costumo ver uma parede quebrada e reclamar da tinta. Não preciso do dinheiro de nenhum empresário narcotraficante do funk e nem tenho qualquer vínculo com empresa televisiva que vive de conchavos e débitos a importantes grupos envolvidos com o tráfico de entorpecentes e de armamentos.
   Falar de "Cachorras" e "Tigrões"? O lugar-comum, por ser comum,  não é novidade. Ao contrário do que erroneamente apregoa o jornalista Luciano Trigo, do Jornal O GLOBO, o "fenômeno" funk é interessante do ponto de vista sociológico sim, mas não por engendrar qualquer interação benéfica entre o morro e o asfalto e sim por outros motivos muito mais gravosos à sociedade.
   Foi-se o tempo em que o funk possuía letras de teor social, quando ele, como estilo musical que era, ainda trazia alguns resquícios de seu pai, o RAP norte-americano. O que se salvou no processo de deterioração do primeiro "pico" do "fenômeno" funk foram poucos artistas que tiveram seu reconhecimento quando se afastaram do núcleo geográfico da manifestação artística, como "Claudinho e Buchecha" e "Pepê e Neném". O funk não interessou aos donos dos morros. Não naquela época. Não como agora.
   A constante queda no consumo de drogas alucinógenas graças à disseminação, nos grandes centros urbanos, da ideologia da "geração saúde", que de saudável em suas, às vezes, quatro horas diárias nos templos de culto ao corpo pouco tem, começou a afetar toda a estrutura do narcotráfico brasileiro. O Brasil passou a ser rota de passagem da droga para a Europa. Com um consumo em franca decadência os traficantes brasileiros, sobretudo os pequenos e médios traficantes nos morros, sentiram-se enfraquecidos em seu poder econômico e conseqüentemente na sua influência sócio-cultural.
   Iniciou-se então uma campanha de reerguimento do que pudesse reindicar à classe média carioca o caminho aos morros, o caminho às drogas. E com qualquer verificação não muito aprofundada acerca das programações televisivas direcionadas ao público jovem, verificar-se-á uma escala ascendente ao tema da sexualidade, numa mínima percentagem benéfica vista em programas como "Programa Livre", mas em sua maioria em programas de baixo calão que apenas incentivam a libido adolescente. Percebendo essa clara tendência de deseducação sexual televisiva, os pequenos narcotraficantes "funkeiros" finalmente perceberam a brecha pela qual se reergueriam.
   Colocando-se atrás de uma "empresa" do funk denominada Furacão 2000, cujo líder (ao menos o líder decorativo) está preso por envolvimento CLARO com o narcotráfico, os empresários narcotraficantes finalmente estão conseguindo fingir, com a ajuda da mídia que está levando e muito por fora, que há qualquer probidade no movimento e que há algo de cultural nele.
   Utilizando-se em suas músicas de letras dúbias que puderam "enganar" a imprensa, fazendo-a acreditar por exemplo, que o "tapinha" que "não dói" seria dado no rosto de alguém e não num cigarrinho de maconha ou numa pequena quantidade de cocaína. Será que a imprensa acreditou mesmo nisso? Acho pouco provável, mesmo porque a expressão "dar um tapinha" no sentido de experimentar maconha, não é, de forma alguma, conhecimento restrito.
   É uma pena que se passem quatro anos numa faculdade de jornalismo para sermos tão facilmente manipulados por um "fenômeno" tão simples,  não é mesmo? Prefiro acreditar na boa qualidade das faculdades em formar manipuladores. Parece-me mais realista. Parabéns aos "Jornalistas-preparados" que andam discorrendo sobre o funk. Parabéns mesmo.

Renato Kress é co-autor do Consciência.Net e autor do livro “Consciência”.


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