"Me
chama de cachorra, que eu faço au-au/
Me
chama de gatinha, que eu faço miau/
Goza
na cara, goza na boca/
goza
onde quiser".
Sei que, dizendo isso, corro o risco de ser jurado de morte por toda a
Ala B do Carandiru, mas funk é música?
Em outras palavras: o tal funk "de mercado" deveria ter tanto espaço
na mídia?
Senão vejamos.
A TV Bandeirantes prepara o lançamento de um programa de duas horas
sobre o tema. A ex-futura senhora Jagger usa 90% do tempo de seu programa
(?) para mostrar moçoilas exibindo o popozão, sarados proferindo
palavrões e até crianças cantando estribilhos de corar
estátuas.
O velho Mick deve andar preocupado com a educação do seu
pequeno
varão.
Mas que se funk o espectador.
Do jeito que vai, ninguém se assuste quando o Padre Marcelo aparecer
cantando música especialmente composta pelo Tigrão: o "Funk
da Cruzinha" ("TÁ CONSAGRADO! TÁ TUDO CONSAGRADO!").
Para mim, o ritmo gera engulhos. Lembra um daqueles órgãos
Yamaha de churrascaria programados para tocar na função aleatória.
Junte-se a isso uma loira oxigenada repetindo uma escatologia qualquer,
escoltada por um candidato a James Brown e por outras quatro ou cinco franguinhas
de bunda de fora.
Perdoem-me os fãs, mas esse funk é chato.
Por isso mesmo, o Caetano e algum outro semiótico devem estar adorando.
Assim como veneram o axé-music - aquela espécie de funk-de-raiz.
O que as pessoas não estão percebendo é o que isso
pode trazer para o futuro. Porque uma época que cultua esse tipo
de manifestação não escapará ilesa de uma hecatombe.
Há quem afirme que Sodoma começou num inocente bailinho de
harpa e acabou na base do anjo exterminador.
No nosso caso, já dá até para imaginar como será
o relatório de um arqueólogo, no ano 5001, sobre a vida no
Brasil há 3 000 anos. "As mulheres eram chamadas, em canções
populares, de cachorras. Não há dados científicos
para explicar tal denominação. Mas escavações
recentes descobriram nos destroços de uma antiga rádio FM
uma canção que diz, "um pequeno tapa (na cachorra) não
dói", configurando-se aí que o tratamento dado às
representantes do sexo feminino era o mesmo dado aos animais de estimação."
Mulheres-cachorras... Se uma declaração dessas tivesse sido
feita à época de uma Simone de Beauvoir, de uma Betty Friedan,
teríamos a Terceira Guerra Mundial deflagrada nos anos 60. As mulheres,
em vez de queimar sutiãs, iam fazer pilhas de cuecas samba-canção
e tocar fogo.
Mas estamos no Brasil do ano 2001 da Era Neoliberal Superior.
E olha: já está me dando até saudade de ouvir Oswaldo
Montenegro.
Carlos Castelo Branco é escritor
Fonte: Caros
Amigos.
Consciência.Net