Marta Salomon
Secretária de redação
da sucursal de Brasília
A Serra das Andorinhas,
no sudeste do Pará, guarda milhares de pinturas rupestres com idade
estimada em 8.300 anos. Parte desse cenário ficará submersa
pelo lago de uma das usinas hidrelétricas cuja concessão
foi licitada pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica),
sem licença ambiental prévia.
A hidrelétrica
de Santa Isabel é a maior do lote de dez usinas licitadas em 30
de novembro. O negócio foi um sucesso, comemorado pelo diretor-geral
da agência, José Mário Abdo. "São quase R$ 5
bilhões de investimentos que o Tesouro Nacional deixará de
desembolsar e ainda arrecadará R$ 4 bilhões com as usinas",
disse. Não foi dito à época que metade das usinas
enfrenta problemas de licenciamento ambiental.
A usina de Santa Isabel,
com capacidade de geração de mais de 1.000 MW – o suficiente
para iluminar uma cidade do porte de Curitiba (PR) – alcançou o
maior preço entre as concessões leiloadas. Os valores são
equivalentes ao tamanho do desastre ambiental esboçado: o lago da
usina ocupará parte de uma reserva ecológica, o Parque Estadual
da Serra dos Martírios/Andorinhas.
O desastre anunciado
não é segredo nos documentos arquivados na própria
Aneel sobre o empreendimento. Diz um relatório da empresa Engevix,
responsável pelo projeto de viabilidade da obra: "Há registros
de sítios com características únicas na Amazônia
e que serão submersos quando da formação do reservatório".
O documento cita a
existência de mais de 5.000 figuras gravadas em rochas. "A submersão
desses sítios será inevitável no momento de formação
do reservatório e determinará, fatalmente, a perda de um
dos mais importantes e ainda pouco estudados conjuntos de gravuras rupestres
do país."
O documento contesta
a capacidade de a estrutura do parque estadual manter esse patrimônio:
"A ausência de mentalidade conservacionista e a inércia na
reversão do evento de perdas bióticas são observadas
na principal unidade de conservação estabelecida na região,
denotando que mesmo a existência de áreas protegidas pouco
contribuirá para a manutenção da biodiversidade local".
Sem licença
A assessoria da Aneel
informou que a agência não cuida de eventuais riscos ambientais
das usinas. Esse é um assunto para ser resolvido entre as empresas
que ganharam as licitações e os órgãos ambientais
dos Estados ou o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis), quando há mais de um Estado envolvido.
A Aneel acredita que
o mecanismo é mais eficaz para agilizar o licenciamento ambiental
e a construção das hidrelétricas.
Pelo volume de investimentos
programados, as empresas terão todo o interesse em obter as licenças.
Mas o risco é pequeno: caso as licenças não sejam
concedidas, os empreendedores não pagarão um centavo pelas
concessões que arremataram em leilão. Faz parte da regra
do jogo que as concessões só começam a ser pagas depois
de um período de carência, após a conclusão
das obras.
Ainda segundo avaliação
colhida na Aneel, danos ambientais são inevitáveis na construção
de hidrelétricas – de longe a opção responsável
pela maior fatia de geração de energia no país.
A Constituição
exige estudo prévio de impacto ambiental para obra "potencialmente
causadora" de degradação do meio ambiente. Resolução
do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) de 1987 diz que licenças
de instalação para usinas com capacidade acima de 10 MW devem
ser obtidas antes da realização da licitação
para a construção das usinas. São três tipos
de licença: a prévia, a de instalação e, finalmente,
a licença de operação.
Das dez usinas licitadas
em 30 de novembro, cinco que envolvem territórios de mais de um
Estado não haviam conseguido nem a licença prévia
do Ibama. Ou seja, os EIA/RIMA (Estudo de Impacto Ambiental/Relatório
de Impacto Ambiental) não haviam sido aprovados pelo órgão.
A informação consta de ofício do coordenador de Licenciamento
Ambiental do Ibama, Leozildo Tabajara da Silva Beijamin, à Aneel.
Processos
A usina de Couto Magalhães,
que obteve o maior ágio no leilão de novembro (3.089,66%
sobre o preço mínimo fixado no leilão), também
representa uma ameaça ambiental. Relatório do Ibama a que
a Folha teve acesso afirma que um trecho de 8 km do rio Araguaia ficará
a maior parte do ano (76,1%) com um nível insuficiente de água.
O relatório
alerta ainda que a usina afetará o equilíbrio de "uma das
últimas áreas em bom estado de conservação
do bioma de cerrado, com características únicas no tocante
à fauna e à flora".
Os técnicos
do Ibama fazem algumas observações irônicas sobre o
empreendimento. "Embora possa não haver interesse pela madeira,
consideramos que existem outros usos mais nobres para a vegetação
do que seu simples afogamento" é uma delas. Outra: "O texto [de
impacto ambiental apresentado] relata cinco espécies de mamíferos
ameaçadas de extinção, mas nas tabelas pudemos contar
dez espécies de mamíferos mais uma espécie de ave
(arara azul) protegidas por lei".
Embora o pedido se
arraste no Ibama desde janeiro de 98, a licença prévia para
Couto Magalhães ainda não foi concedida.
O Ibama também
considerou insatisfatórias as informações que baseiam
o processo de licenciamento ambiental da usina São Salvador, outra
licitada no lote da Aneel. "Aspectos relevantes à análise
do processo não foram contemplados ou nem sequer foram abordados",
relatam os técnicos. O Ibama tampouco ratificou a análise
de viabilidade da usina de Pai Querê, com um balanço de ganhos
bem maiores que as perdas, entre elas um sítio arqueológico
histórico tombado por decreto municipal em Passo de Santa Vitória
(RS) na inundação de 61 quilômetros quadrados de terras
para a formação do lado da usina.
"A submersão
desses sítios [arqueológicos] será inevitável
no momento de formação do reservatório e determinará
a perda de um dos mais importantes e ainda pouco estudados conjuntos de
gravuras rupestres do país" [Do relatório da empresa Engevix
sobre a usina de Santa Isabel]
Crise energética determina pressa
no licenciamento ambiental para obras
Da sucursal de Brasília
A medida provisória
que criou o "ministério do apagão" para administrar o racionamento
no país impôs pressa no licenciamento ambiental das obras
de geração de energia. Segundo o diagnóstico do governo,
as licenças ambientais representavam um dos principais obstáculos
para o aumento da oferta de energia.
No caso das usinas
hidrelétricas, foi fixado prazo máximo de seis meses para
o licenciamento ambiental. Empreendimentos de impacto ambiental de pequeno
porte teriam de receber licença em no máximo 60 dias. "Os
órgãos competentes, nos processos de autorização
ou de licença dos empreendimentos necessários ao incremento
da oferta de energia elétrica do país, atenderão ao
princípio da celeridade", afirma o texto dessa medida provisória.
No papel
Seis meses depois do
início do racionamento de energia, a tal pressa não saiu
do papel. Resolução do Conama (Conselho Nacional do Meio
Ambiente) editada ainda em junho já dava conta das dificuldades
em pôr em prática a pretendida pressa do governo e indicava
a resistência dos órgãos ambientais.
As regras de licenciamento
foram detalhadas após várias considerações
feitas pela resolução. O texto da resolução
chama a atenção para a dificuldade de definir um empreendimento
com impacto ambiental de pequeno porte e para os dispositivos da Constituição
que protegem o equilíbrio ecológico.
Licitação
A resolução
do Conama não anulou as regras anteriores, baixadas em 1987, que
exigem licença prévia dos empreendimentos logo no início
do estudo de viabilidade de determinada usina hidrelétrica.
Essa resolução
diz que a licitação para construção do empreendimento,
como a realizada pela Aneel em 30 de novembro, deve ocorrer depois da obtenção
de licença de instalação.
Fonte: Folha de São Paulo
Consciência.Net