Gente, esse pode ser meu último artigo. Posso estar me despedindo de vocês. Fui ver minhas contas de luz e descobri que gasto uma média de 2.000 kilowatts por mês, ou seja DEZ VEZES mais que o permitido. Para estar nos moldes do plano de racionamento do governo uma pessoa tem que ter em casa apenas uma lâmpada (de 40 watts) e uma TV de 14 polegadas. E eu tenho um pouco mais que isso. Não vou mais poder ligar o computador, o piano elétrico, o som, o microondas, hidromassagem e sauna, nem sonhar, ar-condicionado, adeus, e vocês sabem como o inverno carioca é quente. Pior, não sei o que vou fazer com a minha piscina. Não posso mais ligar a bomba para limpá-la. Tô pensando em transformá-la num ranário, criar umas rãs para amenizar o prejuízo. Ou então fazer um gato, puxar um fio do R9, o bar do Ronaldinho logo aqui do lado.
MINHAS TIAS estão furibundas.
- “Esse plano de racionamento tá parecendo o confisco da poupança do Collor, há onze anos atrás. Também pegou todo mundo de surpresa. Pedro Parente corre o risco de se tornar a Zélia do governo FHC.” Gritam diante da TV:
- “Incompetentes!!! Pedantes!!! Cínicos!!” e outros adjetivos piores. E olha que o tal plano macabro de racionamento ainda nem começou. Tia Olga desafia:
- “Quero ver o Davi Zylbersztajn (da Agência Nacional de Energia Elétrica e genro do presidente, não necessariamente nessa ordem) consumir 200 kilowatts por mês. Aliás é tão difícil pronunciar o nome dele, Zylberszrajn, quanto gastar só isso de energia.”
- “Agora, mais importante que o sigilo bancário e telefônico, é o sigilo elétrico. Todo mundo do governo devia abrir suas contas de luz. Quero ver se têm moral para falar. Quero saber se o Malan vai gastar só R$ 50,93 de conta de luz por mês. Quero ver se ele não dorme com o ar-condicionado ligado, se não vai esquentar comida no microondas, se vai parar de usar o computador...”
Tia Hilda está particularmente revoltada:
- “Fico vendo essa gente na televisão, conformada, achando que podia ser pior, uma mulher disse: “ainda bem que estamos no inverno, já pensou se fosse no verão?” e deu uma risadinha simpática, ré, ré, ré... Outro disse “cada um fazendo a sua parte a gente vai sair dessa...” e também riu, cheio de otimismo, ré, ré, ré... Deviam estar protestando e no entanto estão unidos no apagão. Me lembram os colaboracionistas de Vichy...”
TEMOS uma conhecida em Bauru, famosa ufanista, que já aderiu de corpo e alma à cruzada das trevas. Botou uma fita na cabeça, pintou o rosto (de preto, claro) e já está totalmente engajada. Sai nas ruas gritando:
- “Apaguem as luzes! Desliguem as tomadas! Vão para cama e durmam. Vamos viver o dia.”
Ela é fiscal do racionamento, as populares “luzinetes”. Vagam pelas noites procurando luz para apagar. Nem vagalume escapa. Estão querendo andar armadas, que nem a Guarda Municipal, porque sempre tem um gaiato que não quer apagar, mas ainda não aprovaram o uso de armas. Às vezes as pessoas reagem e deixam as luzinetes roxas.
Quem economizar ganhará brindes. Nada elétrico, naturalmente. Serão velas, lanternas, lamparinas, tochas... Quem não gastar NENHUM kilowatts ganha uma viagem à Paris, a Cidade Luz. FHC não poder dizer como Fidel, diante dos apagões que são constantes em Cuba: “O coração do verdadeiro revolucionário tem sua própria luz”. Iluminado, não?
TIA LOLA foi passar um vestido escondida. Tia Norma descobriu, puxou o fio da tomada e tentou estrangulá-la.
- “Traidora!! Vai amarrotada mesmo!”
O chá com torradas que elas tomam todo dia às cinco da tarde será suspenso. Fizeram a conta:
- “Sabe quanto vai sair cada torrada? Nem que estivéssemos no Waldorf Astoria...” (Sim, porque elas são do tempo do Waldorf Astoria. E das torradas.)
Tia Hilda acha que com essa crise o governo FHC acabou.
- “Quantos kilowatts será que gasta o Alvorada? Ah, quem paga a conta somos nós, mesmo.”
Tia Olga está com um problemão. É madrinha de casamento e comprou um gigantesco lustre com 52 lâmpadas dicróicas, daquelas que esquentam, para dar de presente. Agora está com receio de dar.
- “Vão achar que é sacanagem.” Quis trocar por um escovão ou por um ferro a carvão, mas não aceitaram o lustre nem com entrada.
TIA LOLA está com outro problema: o cabelo.
- “Eu e a Anadyr (a corregedora geral da união) temos cabelo de japonês, duro feito piaçava. Temos que dar banho de óleo de amêndoa e ficar pelo menos 45 minutos debaixo do secador. E 45 minutos no secador ultrapassa o limite de 200 kw. Vamos virar duas vassouras.”
A polícia agora não pode mais usar choque elétrico. Uma tortura dessas hoje em dia sai pela hora da morte. Só se valer muito a pena. O ministro Gregori baixou uma portaria que o torturador que usar eletricidade será descontado em folha.
E JÁ QUE estamos falando em trevas... Garotinho vai cantar no Canecão, lançar um CD chamado Louvor da Luz, numa época meio imprópria para se falar em luz. A propósito, a igreja do governador chama-se Luz do Mundo, as coreografias do show serão executadas pela “galera da luz”.
- “É muita luz. Não vão deixar.” - adverte tia Norma, acendendo um toquinho de vela. Tia Hilda suspira, na penumbra, e ironiza:
- “Caetano e Gil vão ter concorrência para o Grammy esse ano...”
PS: Periga de faltar energia para cassar a dupla ACM-Jader, quero dizer, Arruda. Se sobrar energia...