Apagão e as ciências humanas, por Ulisses Capozoli (*)
Os feitos tucanos, é preciso reconhecer, cobrem todo o espectro do alfabeto. Literalmente de A a Z. Do apagão à zorra. Assim, pode ser divertido recorrer à ciência como tentativa de compreender os acontecimentos. Não só às "ciências duras", caso da física, para se saber da natureza da energia e as condições em que ela pode esgotar-se. Mesmo que uma das leis da termodinâmica assegure que a energia não pode ser criada nem destruída, mas apenas transformada. E para transformar energia gravitacional em eletricidade, o Brasil tem 10% do potencial do mundo. Quem duvidar dos números que leia o segundo parágrafo de "Memórias e surpresas", do insuspeito artigo que o empresário Antonio Ermírio de Moraes publicou na Folha de S.Paulo no domingo, 3/6, pág. A2.

Nesta fase dos feitos tucanos (tucanalha seria um neologismo grosseiro?) é produtivo buscar também a ajuda das ciências tidas como mais flexíveis, as "humanidades". É o caso da sociologia, história, geografia, economia, direito, antropologia, filosofia e psicanálise, ainda que, para muitos, a psicanálise não mereça essas companhias.

Em termos psicanalíticos, para começarmos pelo fim, qual o significado de um "apagão" – corte de energia já admitido mesmo se os 20% de economia forem obtidos pela solidariedade que parece estar despertando na população?

A imprensa ainda não havia se preocupado com essa abordagem até o domingo (27/5), quando Sérgio Duran e Célia Chaim trataram do assunto na Folha (págs. C4 e C5). Na abertura de seu texto, Duran escreve que "o plano de racionamento de energia confisca (...) as luzes da cidade (...) as placas, monumentos, torres de TV e edifícios". Ou seja, o "apagão", de um ponto de vista histórico, confisca a cidadania, a vida coletiva no espaço da cidade, pressuposto como forma de cooperação social. Este é um dos legados da Revolução Francesa. Os mais críticos diriam que a cidade está submetida a uma divisão social do trabalho injusta e desumana, o que é verdade, mas não está no foco deste texto.

Célia Chaim fala do centro de São Paulo, a maior cidade do Brasil e uma das cinco maiores do mundo. Em outra edição da Folha (3/6, pág. C7), retoma a história em "Medo do escuro une extremos da sociedades". O medo do escuro é ancestral, evidência que, de alguma forma, recuamos no tempo. Recorremos a lampiões e velas, como nossos avós, e retomamos os archotes, como nossos ancestrais nas cavernas. Einstein disse que a Terceira Guerra terminaria com pedradas e pauladas. Muita gente achou graça, mas a metáfora, aqui adaptada, ainda não perdeu a atualidade.

Novos pitagóricos

Nesses textos, Duran e Chaim fazem jornalismo sensível e inteligente, coisa que a própria Folha contribuiu para liquidar quando estabeleceu um padrão modulado de reportagem, entre a década passada e meados da anterior. Pouco texto, muito gráfico e imagens, como se um jornal impresso fosse a extensão da TV.

A Folha não perdeu essa marca de jornalismo preconcebido, evidência de certo narcisismo da redação. O que não impede que, do ponto de vista de tratamento da informação, esteja a meses-luz de seu concorrente direto, O Estado de S.Paulo.

O outrora respeitável, ainda que conservador, Estadão parou no tempo. Um náufrago em Tristão da Cunha, que recebesse edições diárias do jornal, sonharia com uma terra amena e um presidente modesto, dedicado e justo, quando um navio o resgatasse de volta para a casa. O Estadão parece capturado por um buraco negro cósmico. No interior de uma redação, cada vez mais comprimida, o tempo passa cada vez mais lentamente.

Exemplo mais recente disso são as manchetes dos dois jornais na edição de domingo, 3/6.

A Folha anuncia que "Conta de energia banca entidade sob investigação". Numa reportagem investigativa, o jornal mostra o que não surpreende mais ninguém: o Mercado Atacadista de Energia (MAE), onde as empresas negociariam cotas de energia (quase tudo gerado por investimentos públicos) já consumiu 90 milhões de reais desde 1999 mas até agora não entrou em atividade. A apatia não impede a MAE (nome sugestivo) de pagar salários mensais de até 11 mil reais a parentes de seus dirigentes. Mais que isso: a MAE depende de uma outra empresa, a Asmae, cujas contas o governo vem questionando.

O Estadão cita o governo: "Fraga: juro pode cair, se consumo despencar". É que se pode chamar de antijornalismo. A manchete, principal notícia de uma edição, deve ser clara, forte, retumbante, independente do seu conteúdo. A manchete do Estadão tem duas condicionantes. Uma, que o juro "pode" cair, o que não significa que se tenha alguma segurança de que isso vá ocorrer. Há uma suposição. A outra é que depende de o "consumo despencar".

Moral da história: os juros só caem se ocorrer um desastre ainda maior – não a queda, mas o "despencar" do consumo. E isso é vendido como um fato positivo.

Esta é a lógica atual de um certo estilo jornalístico. Recorre-se à memória e não aos fatos do mundo factual para se reproduzir acontecimentos. A diferença é que o mundo está mudando rapidamente. Os jornais ainda têm poder, mas não podem controlar notícias como no passado. De muitas maneiras, a tecnologia (neste caso a internet) está rompendo essa ordem antiga. Além disso, a competição condiciona estilos, ainda que as razões possam ser inconfessáveis.

Mas este é também um problema da ciência econômica.

Norbert Wiener, o criador da informática, escreveu um longo texto em Deus, Golem e Cia. com duras críticas ao abuso da matemática pelas ciências humanas. Os economistas, mais que outra categoria profissional, parecem apegar-se aos números como novos pitagóricos. Mas, ao contrário do filósofo, em muitos casos, com uso de números, pretendem dar coerência a fatos incoerentes.

Última pérola

OAB e ABI – esta, ao menos à época de Barbosa Lima – combateram a ditadura e protestaram contra arbitrariedades. Rubens Aprobatto, presidente da OAB, retomou a tradição ainda esta semana para dizer o que todos sabem: "o rei está nu". Isso não impediu que ministros e servidores palacianos, incluindo parte da imprensa, corressem a protestar que o presidente não teve "direito de defesa".

Que "direito de defesa" tem tido a população brasileira, submetida a uma avalanche de medidas provisórias e, agora, sob risco de ficar no escuro, mesmo pagando suas contas em dia?

Que direito de defesa teve a população quando um percentual de 84% defendeu, em vão, a CPI da Corrupção, abafada com recursos que saem dos bolsos de cada um de nós?

Quanto aos economistas, se não se manifestam como classe, individualmente ou em pequenos grupos tem havido reações. Uma delas está na edição dominical da mesma Folha (3/6, pág. B2) escrito por Luiz Gonzaga Belluzzo com o sintomático título de "Fascismo". É uma crítica vigorosa e bem vinda dirigida especialmente à imprensa, a "jornalistas que, que nome de uma boa causa, tentam manipular e ludibriar a opinião pública".

O texto de Belluzzo é uma crítica necessária já que, sob o título de jornalistas, costumam atender também muitos donos de jornais e televisão.

Jornalistas não costumam criticar seus patrões com o receio (seguro) de perderem seus empregos. E a lógica nas redações, neste momento, é quase medieval.

Um ícone do jornalismo brasileiro, morto na década passada e especializado em desancar quem quer que fosse, especialmente seus colegas, nunca escreveu uma linha criticando seus patrões. Era valente, mas não chegava ao ponto.

Quanto à televisão, no caso dos telejornais, a discussão pode ser encurtada. No Brasil, basta ver quem são os concessionários das redes de TV para se concluir o jornalismo que fazem. Ainda assim, existem sempre os mais realistas. O âncora convencional do jornal Duas Cidades, da Rede Bandeirantes, parece um exemplo. Com a facilidade de quem escolhe abobrinha na feira, o apresentador prega suas opiniões a ouvidos alheios. A última de suas pérolas (1/6) foi uma pretensa crítica ao convite que fez a prefeitura paulistana a um especialista em economia de energia de Genebra. No pensamento do apresentador, Genebra, com menos de 200 mil habitantes, não tem como ensinar economia a uma cidade de mais de 12 milhões.

Como o Japão, com território e população menores que a do Brasil, tem um PIB maior?

Espaço público

As editoras anunciam que os títulos de filosofia estão vendendo bem e a mídia, mais que nunca, fala de ética. Essas questões, no entanto, antes de éticas, parece ser estéticas. Na Crítica da Razão Pura, Immanuel Kant chama de "estética transcendental" à ciência de todos os princípios a priori da sensibilidade. Como se pode ser ético no vazio, na ausência de um valor maior, de uma referência estética?

E a filosofia, posta no esquecimento pelos governos militares que a baniram da escola, reentrou no debate como recurso de defesa de um governo cada dia mais desacreditado por seus próprios atos.

José Arthur Giannotti, um dos escudeiros do presidente, foi quem saiu em campo num artigo da Folha com apelos a Maquiavel. Mauro Santayanna, repórter de uma época em que jornalistas tinham cultura, respondeu com um belo artigo na edição de sexta-feira (1/6) do Jornal da Tarde.

Santayanna termina seu escrito com uma sugestão: "Convém aos intelectuais, companheiros de tertúlia do presidente, reler, com maior atenção, o grande florentino. Porque a ética superior que ele propõe, para a defesa da pátria, não é diferente da ética do homem comum. Ao contrário: ela torna mais nítidos, porque a serviço de todos, e exercidos na condução do Estado, os deveres do cidadão para com os seus compatriotas. E entre esses deveres com a pátria, Maquiavel certamente não incluiria os métodos empregados pelo governo a fim de manter a maioria parlamentar e impedir a CPI da Corrupção".

De que poderia valer a sociologia, numa investigação da sociedade brasileira?

Aliada à história, à geografia e à antropologia, entre outras humanidades, a sociologia produziu mestres como Florestan Fernandes, Octavio Ianni e Francisco de Oliveira.

Interpretada como "física social", num universo cartesiano, como queria seu fundador Auguste Comte, poderá acabar expulsa do corpo da ciência, como aconteceu com a astrologia – que, na Idade Média, era ensinada nas universidades.

No início de maio, em entrevista a Fernando de Barros, da Folha, Francisco de Oliveira disse que em seis anos do governo FHC pelo menos 30% do PIB trocaram de mãos e boa parte foi para o exterior. Este deslocamento de poder econômico, na avaliação do sociólogo, foi significativo o suficiente para comprometer a sustentação política do presidente, lastreada no fisiologismo.

Parte da autonomia perdida foi o Banespa, sob a discutível justificativa de alimentar o fisiologismo, para não dizer o saque puro. A bandeira do estado de São Paulo não tremula mais no antigo prédio do Banespa, um dia o arranha-céu mais alto da cidade. Em seu lugar está a bandeira do Brasil.

Por que o espanhóis, atuais controladores, não hasteiam lá a bandeira do Santander? Talvez, por certo pudor. Se as bandeiras não tivessem significados, como podem bem demonstrar a mitologia, a psicologia e a antropologia, os exércitos em guerra não as carregariam pelos campos de batalha.

Na maior parte dos casos, a imprensa tem se mantido cega, surda e muda para todos esses acontecimentos carregados de simbolismo, como se integrassem um outro universo e não dissessem respeito a nada do cotidiano de cada um dos 170 milhões de brasileiros.

Há quem diga que o Brasil que emergirá do "apagão", previsto para durar até 2003, será outro. Oxalá seja verdade. Que um dia possamos emergir à luz, não apenas das lâmpadas, dos postes, dos edifícios, tudo o que faz da cidade um espaço público. Mas à luz da razão, da informação, da solidariedade e do comprometimento social.

Para isso, como sustentava Marcuse, citado por Belluzzo, uma imprensa consciente de seu papel é de fundamental importância.

(*) Jornalista especializado em divulgação científica, historiador da ciência e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC)

Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/


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