Os tesouros
se escondem dos mortais, por Petrônio Souza
O rio Paranaíba divide os estados
de Minas e Goiás. Está aqui, margeando o nariz de Minas,
a última margem, o limite natural. De um lado está a pequena
cidade mineira de Cachoeira Dourada de Minas; do outro, a também
pequena Cachoeira Dourada, só que de Goiás. As duas cidades
nasceram às margens da antiga cachoeira que existia aqui, no rio
Paranaíba, e que hoje ficou submergida pela Usina Cachoeira Dourada,
construída em 1954.
Aqui, enquanto o bandeirantismo
paulista invadia o interior do Brasil, era uma linda terra povoada por
índios Caiapós, que em uma ilha no meio do rio Paranaíba
enterravam seus mortos, acreditando eles que o arco-íris formado
pelas quedas da cachoeira protegia e guardava a alma dos que foram.
Nas duas cidades existem
fontes de águas quentes e salgadas, é um potencial turístico
intacto, um princípio do que foi Caldas Novas, uma maravilha desconhecida
dos brasileiros. A beleza da represa aliada às fontes de águas
quentes e salgadas elevam este ponto do interior brasileiro a um potentado
turístico de primeira grandeza, mas enquanto ninguém descobriu
isto, aproveitamos destas belezas com economia.
A Usina construída
na queda da antiga cachoeira tem uma represa de concreto de aproximadamente
2,5 Km, quando a Usina não está em operação,
pode-se passar por cima dela, olhando de um lado um mundo de águas
e de outro, a estrutura hidroelétrica. Entrei nos paredões
da represa do lado goiano, sai do lado mineiro, um passeio que com certeza
jamais esquecerei.
Para situar o amigo
leitor pelo mapa, Cachoeira Dourada, a de Goiás, fica próximo
a Itumbiara, cidade sede da primeira ponte ligando o sul de Goiás
ao Triângulo Mineiro. Está lá, construída durante
a República Velha, pelo presidente mineiro Afonso Penna em 1909.
Liga a cidade de Itumbiara, GO, à cidade de Araporã, MG.
Passar por ela é passar pela história dos dois estados. Em
Itumbiara o rio Paranaíba também é represado, formando
um lindo lago urbano, por onde a população desfila durante
o final da tarde.
Para voltar a bucolidade
interiorana de Cachoeira Dourada, a de Goiás, anda-se por mais 35
Km. Lá, ainda se acorda aos sons de araras, bem-te-vis e bandos
de maritacas. Cidade dos tamanduás do cerrado brasileiro, do planalto
central à linha do horizonte. Enquanto tomávamos uma gelada
cerveja contrastando com o quente clima da região, à margem
do rio Paranaíba, depois da represa, uma garça atravessava
as águas turvas do rio. Ela, um ponto branco sobre a água
escura do Paranaìba, como a formiguinha que atravessava a folha
em branco sobre a mesa do Mário Quintana, escrevendo para ele, o
Quintana, um belo poema. Aqui, a garça pairava sobre o Rio como
se quisesse que todos a vissem. Parava, dava uma volta no ar, depois pousava
em uma perna só na outra margem, formando uma terceira paisagem.
Como alertara Mário
de Andrade, num distante 1924, "... formamos um assombro de misérias
e grandezas, somos aqui nesta terra, o grande milagre do amor..". Este
pedaço de terra, esquecido pelo Brasil e desconhecidos dos brasileiros,
é a maior prova disto...
Petrônio
Souza é produtor artístico e fotógrafo
Consciência.Net