A doença da política do Doutor Palocci
Petrônio Souza, 03.fev.03

   Dalton Canabrava era um homem simples e deputado estadual na Assembléia mineira na década de 60. Grande figura humana, lutou e sofreu com a ditadura militar. Médico em Curvelo (MG), conciliava a profissão com o mandato legislativo, tendo a seguinte agenda semanal: de terça à sexta-feira era deputado e de sábado à segunda-feira, médico.
   Uma vez, levou a esposa para uma consulta médica. Convidado pelo amigo de profissão, entrou junto com a esposa no consultório. Enquanto o médico analisava a esposa ele observava. Até que o médico começou a tocar a mulher e perguntar: dói aqui? E aqui? E agora?!
   Incomodado com a situação, dr. Canabrava se levantou e falou com firmeza:
   - Doutor, vamos fazer um trato: o senhor pergunta e eu apalpo!
   O doutor Antônio Palocci, seguindo a premissa médica, apalpou demais, perguntou demais, foi solícito demais ao mercado financeiro e agora vem tendo que dar explicações aos petistas que, até então, acreditaram na virada de mesa do governo Lula em cima do mundo especulativo. Este é o principal motivo da língua plesa do Palocci, ele fala o que não queria falar! Aí, vale o comparativo com FHC, esqueçam o que escrevi...
   Algo mudou no discurso do governo Lula, que tem seu telhado de vidro na política adotada pelo Palocci, que até está sendo chamado por alguns de Malocci, pela semelhança administrativa com o líder do governo liberal fernandista. O mais feio disto tudo é saber que o principal guru do ministro da Fazenda é o diabo pintado durante anos pela esquerda brasileira, o economista Delfim Neto.
   A tortada dada na cara do Genuíno não era para o Genuíno, mas para a apatia esquerdista que caiu sobre a liderança petista neste início de governo que, de uma forma, foi eleita justamente para romper com esta política entreguista e deficitária alicerçada pelos oitos anos do infinito governo FHC.
   Nesta primeira reunião entre Palocci e o grupo revoltado do PT (sic), realizada nesta sexta-feira, dia 31, muito pouco foi explicado pelo ministro aos correligionários, sendo marcada uma nova reunião, para o dia 18 deste mês. O grupo dissidente do PT está buscando um ponto comum entre o plano de governo pré-eleitoral e o pós-eleitoral e aí, os questionamentos são muitos, como: o aumento de juros, o aumento da meta do superávit primário, a possível redução do volume de investimentos no orçamento de 2003 e o "continuísmo" da política econômica.
   É claro que um mês é pouco para se ter uma visão clara da condução da política econômica deste novo governo, mas o fato é que ela está doendo é no bolso do consumidor, com os aumentos dos combustíveis, dos juros e a indefinição do rumo a ser tomado, pois o povo parece estar cansado de viver de esperança, de esperar...
   A senadora Heloisa Helena foi enfática ao dizer após a reunião com Palocci sobre seu questionamento ao governo Lula: "Faz parte da nossa tradição. O que seria estranho é que estivéssemos omissos e calados diante de decisões que foram tomadas sem a participação do partido". Pois é, talvez o detalhe mais louvável dentro do Partidos dos Trabalhadores, era o seu poder de militância, mas agora...
   O partido do governo é o PT e quem vai responder sobre os erros deste governo são as lideranças petistas e não vão sobrar tortas para Genuínos, Dirceus, João Paulos, Dulcis...

Petrônio Souza é escritor. [petros@brfree.com.br]


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