O natal nasce
dentro de nós!, por Petrônio Souza
Olavo Romano é uma das grandes
personagens da cultura popular do nosso estado. Pesquisador e folclorista,
tem como hábito sair pelo interior de Minas garimpando as maravilhas
perdidas do nosso povo, os versos esquecidos, o manancial verterdor de
toda mineirísse mineral da brasilidade. Passava a Semana Santa pelo
antigo Caminho do Ouro, chegando até a pequena São Gonçalo
do Rio das Pedras, rio por onde escoou os diamantes da nossa história.
Bem-aventurado, conheceu
a casa de Dona Geralda, onde havia um lindo presépio montado em
plena Semana Santa. Espantou-se com fato, pois pela tradição
os presépios ficam montados até o Dia de Reis – 6 de janeiro
- e depois são recolhidos. Mas, como tudo que é diferente
encanta, Olavo está encantado até hoje.
Dona Geralda explicava
a Olavo o porquê da exposição temporã do presépio.
Com simplicidade crística contava que estava atendendo a um pedido
de uma Freira que passara por ali antes, e maravilhada com o presépio
da casa de Dona Geralda, pediu a ela que o mantivesse exposto até
julho, pois ela iria trazer seus sobrinhos de São Paulo para conhecer
aquela maravilha guardada pelas serras de Minas.
O presépio começou
a ser montado por Dona Geralda no cantinho do quarto dela. Como ficou muito
bonito, ela foi recebendo os agrados para o Menino Jesus e ali colocando
as oferendas. Um trazia um ovo de Inhambu, outro, uma Barba de Pau, uma
raiz em forma de cruz e ali ela foi intuitivamente ornamentado, construindo
uma beleza de presépio. Com o passar do tempo, o presépio
foi crescendo e tomou a metade do quarto dela, Olavo vendo aquilo, perguntou:
- Dona Geralda, se neste
ano o presépio ocupou a metade do quarto da Senhora, ano que vem
ele vai ocupar o quarto inteiro!
Ela respondeu:
- É meu filho,
ano que vem vou ter que sair do meu quarto!
Depois de um silêncio
reverencial, Olavo Romano volta à Dona Geralda:
- Dona Geralda, o quê
que a Senhora pensa em colocar mais aqui no presépio no ano que
vem?
- Ah, tem umas luzinhas
que piscam, eu queria colocar umas aqui!
- Então a Senhora
pensa em colocar umas luzinhas como estrelas e fazer um céu?
Dona Geralda se espantou,
e com um semblante materno falou ao Olavo:
- Céu!? Quê
que é isso meu filho, céu aqui, só o firmamento!..
O presépio de Dona
Geralda foi construído e movido pelo mesmo espírito que São
Francisco de Assis criara no século XIII, o primeiro presépio:
reverenciar e adorar a vinda do Menino Jesus. Dona Geralda doou sua casa
e seu quarto para construção do presépio, para algo
maior, e como os Três Reis Magos, muitos vieram trazer suas oferendas
ao Jesus Cristinho. Ganhou coisas simples de uma gente simples, e fez uma
linda obra, que encanta e toca o coração daqueles que ainda
acreditam nas coisas deste mundo. É um resgate à tradição,
no princípio ordenador da vinda de Cristo, uma lição
de amor. Está lá, no interior de Minas, mas universal, iluminado.
Tudo que está nele foi dado de coração, é um
centro armazenador da devoção humana.
O natal dos presépios
é um natal que remonta um cenário cristão, de doação,
fé e reverência, contrário ao natal do Papai Noel.
O Papai Noel é uma personagem criada pela Coca-Cola em 1931, por
isso traz suas cores encarnadas, o vermelho e o branco. É um agente
descristianizador, patrocinado em todo mundo para apagar a verdadeira imagem
do aniversariante, o Menino Jesus. Jesus veio ao mundo como o Filho do
Pai, em forma de criança, o Papai Noel diz ser o papai de todas
as crianças. Meu Deus, onde esta figura foi colocada!
Sua barriga sugere a gula,
o saco cheio, esnobação, sua risada ironiza aqueles que não
podem ser seus escolhidos. É uma fraude ao verdadeiro espírito
natalino. Cristo nasceu enquanto seus pais viajavam em lombo de mula, mesmo
assim, entrou na casa de todos; Papai Noel viaja em um lindo trenó
puxado por renas, e visita a casa de poucos.
Falar que Papai Noel é
uma alusão a São Nicolau é uma heresia. São
Nicolau era um santo homem, nasceu em 280 e morreu em 342, aos 41 anos.
“Fez o bem, sem olhar a quem”, fundou orfanato, saciou a fome dos pobres,
protegeu marinheiros, ladrões e mendigos. Viveu sobre a égide
da caridade, foi perseguido e preso pelos Romanos. Por seu amor ao seu
semelhante, tornou-se Santo. Papai Noel foi criado e financiado por uma
empresa multinacional, vive no pólo norte, distante de todas as
crianças do mundo e no natal sai presenteando àqueles que
podem comprar sua visita. Não tem pai, mãe, filhos ou amigos,
não posso acreditar nele! É no máximo, uma paródia
de muito mau gosto do nosso Santo protetor.
Enquanto escrevo este
artigo, o presépio de Dona Geralda deve ter recebido uma nova oferta.
Talvez, um anjinho de barro, uma pedrinha reluzente, ou quem sabe até,
um Menino Jesus de madeira. Como estou cá, distante dele, deposito
nele este texto, esta oferenda ao Menino Jesus, ao Jesus Cristinho – tão
lindo, tão menino e tão amado. Que Deus abençoe Dona
Geralda, Olavo Romano e todos aqueles que vivem o natal dentro e fora,
o natal do criador, do nascimento à manjedoura, o natal natalino,
sem outras palavras: Com a Graça de Deus!!!
Petrônio
Souza é produtor artístico e fotógrafo
Consciência.Net