Mineiro que é mineiro não bate prego sem estopa!, por Petrônio Souza
    José Maria Alkimim fazia campanha para deputado federal em 1966 no Triângulo mineiro, tendo como companheiro de chapa o saudoso deputado estadual Lourival Brasil Filho. Foram visitar o líder político de Santana de Patos, distrito de Cruzeiro da Fortaleza, que estava enfermo. Chico Faria era pessedista e ‘juscelinista doente’, e ao vir Alkmim entrando em seu quarto, partiu logo para bronca, acusando-o de ter traído JK, durante a revolução de 64, criando um clima de profundo constrangimento entre os visitantes.

    Alkimim, sabido como só, ouviu serenamente as críticas sem reação nenhuma. Após o silêncio do acusador, retirou uma carta que trazia na carteira, chamou a filha de Chico Faria e pediu a ela que a lesse em voz alta. Era uma missiva comovente, escrita por Juscelino em Paris, onde Juscelino dirigia ao seu leal amigo Alkmim os maiores elogios, rememorando a luta que ambos enfrentaram durante anos a serviços de Minas e do Brasil. Ao final da leitura Chico Faria abraçou Alkmim que foi o deputado mais votado na região.
    Aécio Neves, que também é um bom mineiro, não quer fazer sua campanha com uma carta no bolso para provar que foi contra o governo no caso do salário mínimo, que lutou pelo fim da imunidade parlamentar e que está contra as ordens do planalto nesta correção do Imposto de Renda e por isso desautorizou a qualquer um do PSDB lançar seu nome nesta fracassada campanha para presidência do Brasil. Todos, além de Aécio, sabem que o barco fernandista está afundando e agora vão impor sucessivas derrotas a FHC e Malan & cia, por que estão vendo que neste mato não tem coelho, só tucano, e dos bem bicudos.
    Na semana passada FHC sofreu duas derrotas patrocinadas pela base governista, tendo expurgada a proposta do governo de aumento de 5% do salário mínimo, elevando para – mesmo assim míseros – 11,11%. A inflação calculada no mesmo período foi de 7,5%. Como é que pode o governo sugerir um aumento só de 5% sendo que a inflação comeu em 7,5% o poder de compra do salário do trabalhador? Isto é um escárnio! O pior é que o valor da cesta básica calculada em Belo Horizonte neste mês foi de R$ 235,00.
    Bom, frente a este novo aumento do salário o governo retaliou/acovardou, dizendo que “quem votou é que arrume o dinheiro para pagar a diferença”, como se o seu papel não fosse esse. Aécio Neves se empenhou no projeto de conseguir R$ 1,55 bilhões necessários para assegurar o aumento do salário mínimo. Como este valor foi conseguido com cortes, as bancadas dos deputados e as pequenas prefeituras saem perdendo, pois esta verba cortada é que financiaria os projetos nas bases eleitorais dos deputados. O ano que vem é ano de eleição e é nesta hora que o interior passa a receber maior atenção dos deputados, pois é a hora deles cumprirem as promessas de campanha e sem esta verba, todo o interior do Brasil vai ficar na espera por novas melhorias. Triste constatação da era FHC.

Rosa Passos

    Na semana passada falei aqui da Fátima Guedes, agora não posso deixar de falar da Rosa Passos, que esteve em show neste dia 12 de dezembro em nossa capital. Fui assistir à apresentação, acabei assistindo a passagem de som e falando com ela. Índia brasileira, bahiana nagô, artista verdadeira. Cantou lindamente, divinamente. Conceitual, vertical, tinha na voz um instrumento, uma interpretação, uma proposta.
    O grande músico brasileiro, fundador do lendário Som Imaginário, o meu irmão Fredera, já havia ressaltado o talento da Rosa e da banda que a acompanhava. Me falava ele em uma mesa de bar lá em Alfenas, no Sul de Minas:
    - Meu irmão, você precisa ouvir a banda da Rosa. Lembrou aquela banda que acompanhava a Elis, tida como a melhor banda de acompanhamento formada na nossa MPB, com a “cozinha” do Paulo Braga e do Luizão Maia. Acho que esta é até melhor!
    Pude ouvir, foi uma das melhores que assisti. A dinâmica, os arranjos, as divisões, me deixaram claro a verticalidade original do trabalho da intérprete. Moderno, brasileiro, sofisticado. O maestro Osmar Barutti, integrante do Sexteto Onze e Meia, já havia declarado sua admiração pela Rosa Passos, me contando como ele próprio se empenhara em levar a artista para ser entrevistada no Jô Soares Onze e Meia, quando ainda era no SBT. Osmar havia sugerido a entrevista de Rosa ao programa, que foi vetada. Sabendo de um show da artista na capital paulista, Osmar pegou um dos produtores do programa e o levou para assistir aquela maravilha que é o show de Rosa Passos. Duas semanas depois estava ela sendo entrevistada pelo Jô Soares.
    Rosa Passos é a rosa da composição de Tom Jobim, aquela que dizia: “...Pétalas de Rosa espalhadas pelo vento,/ um amor tão puro carregou meu pensamento...”.

Historinha

    Já de noitinha,/ Saio para o campo/ Colhendo pó de estrelas/ E canto de grilos./ Vou colhendo um pôr  um,/ Calmamente./ Ora quando/ Uma estrela cadente/ Divisa o céu,/ Ora quando/ Um grilo salta/ Para riscar a noite escura./ Cada um a seu modo/ Louvando o inesperado./ Depois de muito me deliciar/ E a palma da mão cheia está,/ Volto pra casa,/ Pé sobre pé/ Para nada perder./ Aí ponho eles num cuitezinho estimado,/ E vou mexendo/ Com uma pena de passarinho/ Que o vento minuano me trouxe/ De outras bandas./ Depois de tudo pronto está,/ Aspiro profundo meu banho/ Que tanto gosto/ (e muito anima minh’alma)/ Que na noite fui colher./ Que fundo!!!/ Aí fico banhando meu rosto,/ Cabelos,/ Corpo,/ Tudo tudo,/ Até ficar assim;/ Estrelar,/ Com canto de grilos/ E astral de passarim.

Petrônio Souza é produtor artístico e fotógrafo


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