Luiz Meia Oito e o fusquinha Vera Fischer, por Petrônio Souza
    Luiz Meia Oito é com certeza o maior motorista do mundo. Quando menino ficava sentado na porta da loja do meu Avô, ele passava em seu fusquinha 68 como se estivesse em um Honda de última geração. Ia impassível com o seu “trenó”, como mesmo dizia. Ganhou o apelido em 1968, ano em que comprou o seu primeiro e único carro. Quando as pessoas o perguntavam como ele estava passando, sempre respondia:

    - Estou curtindo um meia oito. Ou:
    - Estou a meia oito por hora. Ou:
    - Em 68 rotações por minuto.
    O fusquinha 68 do Luiz foi o primeiro fusquinha que entrou em Belo Oriente. Andava sempre na mesma toada, devagar e sempre, como sempre filosofava. Uma vez aconselhou um amigo nosso que queria se candidatar a vereador:
    - O Sô, você tem que ir maneiro, porque veja o meu meia oito aí, tá véio, tá usado, mas leva o papai aqui aonde o papai quer. Então, nada de sair correndo não, porque se você quiser sair a 500 km por hora, você pode levar uma multa de quem anda a 500 km por hora, ou então seu carrão derrapar numa curva e te levar para o brejo. É melhor sair de leve, na manha, que você chega lá.
    Nosso amigo foi eleito vereador. Uma vez um colecionador de carros saiu de Ipatinga para comprar o fusquinha do Luiz que estava em pleno ano 2000 originalíssimo. Luiz assim falou ao pretenso comprador:
    - O Sô, não tem dinheiro no mundo que leva esta tetéia. Aqui é caso de amor, e se este fusca falasse!!! Ele sabe tudo da minha vida e eu da dele. Por ele eu deixei duas muié e deixo mais quantas for preciso. Este carrinho é um totozinho de bão sô, só falta falá!
    Depois de ter suas esperanças perdidas, o colecionador revelou que carro igual aquele não existia mais, e que tem muita gente que daria uma fortuna por aquele fusquinha. Neste dia, Luiz Meia Oito pagou uma rodada de cerveja pra turma, por coincidência era o aniversário do fusquinha que completava 42 anos em plena forma. Bem que um amigo empolgado com a comemoração tentou quebrar um champanha na carroceria do veículo, mas foi tirado de cabeça quando o Luiz ameaçou quebrar uma garrafa de cerveja na cabeça dele.
    Neste momento, estou indo para Belo Oriente levando todas as fotos que tenho do ‘falecido’ fusquinha do Luiz, para ver se “tiro” o meu amigo da depressão profunda que ele se encontra. Pois ele mesmo me contou que o seu fusquinha foi para o céu. Sentado em um banco da Praça da Jaqueira me contava o último passeio do fusquinha, quando estava indo para Açucena e um fogo provocado por um curto circuito incendiou o veículo. Com os olhos lacrimejados me relatava a tragédia:
    - Pê, quando eu percebi o fogo já tava numa altura danada! Aí o carro parou sozinho. Eu desci correndo pra pegar alguma coisa para apagar o fogo, mas não tinha nada. Aí eu agachei no barranco da beira da estrada e fiquei olhando o fogo levando aquele santo, aquele pobre coitado. Me deu uma pena! Até lembrei da minha primeira vez, que foi nele, junto com a Luiza Doida. Aí o fogo foi alastrando, queimou a traseira primeiro e foi caminhando pra frente, passou pelo volante e já saiu no capô. Quando o fogo já tava ‘comendo’ a frente toda, o meu Meia Oito viu meu sofrimento e se despediu de mim. Ele deixou cair o pára-choque deu uma buzinadinha e uma piscadinha de farol. Eu quase morri do coração!
    Hoje, toda vez que vejo a Vera Fischer lembro do Luiz, que dizia que as mesmas mãos que fez a atriz, fez o fusquinha dele, pois o tempo passava e eles estavam sempre numa boa.

Petrônio Souza é produtor artístico e fotógrafo


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