IndigNação, por Petrônio Souza
    O martírio do brasileiro Celso Augusto Daniel, prefeito de Santo André (SP), vem nos deixar claro que se até algum tempo existia em nosso país uma guerra urbana, hoje podemos estar certo que o ‘bandidismo’ venceu está guerra.

Jorjão, o ‘esqueitista‘

    Jorjão é o maior ‘esqueitista’ do mundo. A primeira vez que o vi, fiquei intrigado com aquela figura: um negrão de uns dois metros de altura empurrando um fusquinha branco pelas ruas da cidade.  Ele é conhecido pelos moradores como o dono do “skate”, pois seu carro só pega no “tranco”. A cena é sempre a mesma: Jorjão empurrando o carro junto à porta do lado do motorista, e na primeira embalada entra rapidinho carro à dentro, deixando o pé esquerdo para fora do veículo para  manter  o embalo – e dá-lhe tranco.
    Nas estradas das roças, Jorjão usa o carro para abrir as porteiras, pois o motor do fusca não pode parar de acelerar. Sendo assim, Jorjão reduz a marcha e bate a frente do carro para abrir as porteiras. O fusca do Jorjão é o único fusca da frente quadrada que já vi. Retrovisor para ele não existe, é coisa de viado. Só acredita na olhadinha rápida para trás, para constatar o que vem. Uma vez até sugeri a ele que olhasse pelo retrovisor,  assim me respondeu: “Eu lá sô homi de creditá em ispêio? Quem credita em ispêio pra mim é viado.”
    Vez outra, ao sair da pista em uma curva fechada, chamei-lhe a atenção sobre o alerta da placa, e ele mandou na lata: “Eu lá sô homi de bedecê praca? Se eu bedessece praca, eu sô andava pru essas istrada bebendo coca-cola.”
    Conta-se que ele pagou a carteira de habilitação com dez peças de queijo. É que o instrutor do Detran que ele havia contatado por telefone tinha lhe pedido um agrado, e para o Jorjão não existe agrado melhor que os queijos que a Tia Menina faz. Bem que o instrutor tentou tomar-lhe a carteira, mas ficou comovido diante da simplicidade do Jorjão, e resolveu aceitar o agrado, fincado com as dez peças de queijo da Tia Menina.
    Hoje, na baixada do Lava-pés, tem a parada do Jorjão. É até ponto de encontro da galera. De vez em quando ouve-se alguém dizer: Onde te encontro? – Na parada do Jorjão. Ela fica entre o  fim da descida e o início da subida do Lava-pés. E é só o Jorjão virar a curva lentamente com seu carro, e em um piscar de olhos a rua fica totalmente deserta, até os meninos param de jogar bola. É que os moradores já estão cansados de tanto ajudar a empurrar o “skate” do Jorjão e sempre ouvir a mesma frase quando o carro ali para: “Ô, da um purrãozinho aqui, é que o trem trapaiô todo sô!” O motivo é sempre o mesmo: falta de combustível.
    Para quem quiser constatar a veracidade do que digo, vai aí a dica: Vá até São Thomé das Letras – no sul de Minas e informe-se onde é que fica a parada do Jorjão. Peça uma cerveja na lanchonete Pau e Pedra, do grande amigo kacho, que fica bem em frente, acomode-se e aguarde por alguns minutos. Só um aviso a quem não estiver muito disposto a fazer força: ao vir um fusca branco da frente quadrada virando a curva lentamente no alto do morro, esconda-se o mais rápido possível, que lá vem o Jorjão!

Don “Ruan” contra a faca do açougueiro

    Existem histórias que parecem fantasiosas, criações populares. Mas esta que conto é verdadeira! Aconteceu na bela cidade de Alpinópolis, sudoeste mineiro, que outrora tinha o poético nome de São Sebastião da Ventania, ou simplesmente, Ventania. Fica entre Passos e Alfenas, circundada pela represa de Furnas e ventilada pelos quatro ventos que sopram a espirituosidade dos moradores locais.
    Dercídio, cavalheiro de São João, tem a fama de ser bom conquistador, e de fato o é. Até falam que todos os meninos do povoado do Péla-Rabo são filhos dele, pois todos são orelhudos como ele. Assim segue a fama do Don “Ruan” da Ventania.
    Mas, em uma das suas incursões em cima de mulher alheia, Dercídio não teve a mesma sorte, e a fofoca chegou aos ouvidos do marido da dita adúltera. Ela, Dona Terezinha. Ele, o marido, Artuzão, açougueiro. Artuzão, ofendido pelo comentário toma, a atitude que lhe cabe, abordando o Dercídio na rua, de faca em punho e ódio à vista:
    - Dercídio, você é um homem morto! Que história é esta com a minha mulher?!
    Dercídio, diante da lâmina afiada e das mãos acostumadas a fazer cortes em carnes de animais gordos, não pensou duas vezes e respondeu com firmeza:
    - Quê que é isso Artuzinho? Eu com a Comadi Terezona!!! Cê não tá sabendo não?! Excrusive eu inté tô meio viado!!!
    Com esta justificativa Dercídio livrou-se do trágico fim e esta história hoje faz parte do folclore local. Dercídio, depois do acontecido, ficou tendo um trejeito diferente, que não cabe muito bem com ele. Mas a cada ano que passa a população de meninos orelhudos do Pela-Rabo aumenta. O pior é que todos são orelhudos como o Dercídio, até nos trejeitos afeminados.

Frases que ouvi pelos cantos do meu país

    Na rodoviária de Caratinga a locutora anuncia:
    - Atenção Senhores passageiros com destino a beó-zonte. Cês fica veiaco que o ônbus tá rachando fora!

    Em uma partida de futebol no Estádio Municipal de Açucena - quando estoura uma briga na torcida, um torcedor avisa:
    - Cuidado gente, que o homi luta george-jetson!

    Na igreja de Belo Oriente, durante o casamento de um amigo – o Padre pergunta ao noivo se ele aceita a mão da noiva como sua legítima esposa. O ‘parceiro de copo’ do noivo, depois de bebido umas, enciumado protesta ao fundo da igreja:
    - Casa não Tiãozim, cê já tá no “bem bão” de graça!!!

    Estas são frases brasileiras, impensadas em outras terras.
    Estou por aí, assim que tiver novas, conto a vocês.

Petrônio Souza é produtor artístico e fotógrafo.


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