Jorjão, o ‘esqueitista‘
Jorjão é
o maior ‘esqueitista’ do mundo. A primeira vez que o vi, fiquei intrigado
com aquela figura: um negrão de uns dois metros de altura empurrando
um fusquinha branco pelas ruas da cidade. Ele é conhecido
pelos moradores como o dono do “skate”, pois seu carro só pega no
“tranco”. A cena é sempre a mesma: Jorjão empurrando o carro
junto à porta do lado do motorista, e na primeira embalada entra
rapidinho carro à dentro, deixando o pé esquerdo para fora
do veículo para manter o embalo – e dá-lhe tranco.
Nas estradas das roças,
Jorjão usa o carro para abrir as porteiras, pois o motor do fusca
não pode parar de acelerar. Sendo assim, Jorjão reduz a marcha
e bate a frente do carro para abrir as porteiras. O fusca do Jorjão
é o único fusca da frente quadrada que já vi. Retrovisor
para ele não existe, é coisa de viado. Só acredita
na olhadinha rápida para trás, para constatar o que vem.
Uma vez até sugeri a ele que olhasse pelo retrovisor, assim
me respondeu: “Eu lá sô homi de creditá em ispêio?
Quem credita em ispêio pra mim é viado.”
Vez outra, ao sair da
pista em uma curva fechada, chamei-lhe a atenção sobre o
alerta da placa, e ele mandou na lata: “Eu lá sô homi de bedecê
praca? Se eu bedessece praca, eu sô andava pru essas istrada bebendo
coca-cola.”
Conta-se que ele pagou
a carteira de habilitação com dez peças de queijo.
É que o instrutor do Detran que ele havia contatado por telefone
tinha lhe pedido um agrado, e para o Jorjão não existe agrado
melhor que os queijos que a Tia Menina faz. Bem que o instrutor tentou
tomar-lhe a carteira, mas ficou comovido diante da simplicidade do Jorjão,
e resolveu aceitar o agrado, fincado com as dez peças de queijo
da Tia Menina.
Hoje, na baixada do Lava-pés,
tem a parada do Jorjão. É até ponto de encontro da
galera. De vez em quando ouve-se alguém dizer: Onde te encontro?
– Na parada do Jorjão. Ela fica entre o fim da descida e o
início da subida do Lava-pés. E é só o Jorjão
virar a curva lentamente com seu carro, e em um piscar de olhos a rua fica
totalmente deserta, até os meninos param de jogar bola. É
que os moradores já estão cansados de tanto ajudar a empurrar
o “skate” do Jorjão e sempre ouvir a mesma frase quando o carro
ali para: “Ô, da um purrãozinho aqui, é que o trem
trapaiô todo sô!” O motivo é sempre o mesmo: falta de
combustível.
Para quem quiser constatar
a veracidade do que digo, vai aí a dica: Vá até São
Thomé das Letras – no sul de Minas e informe-se onde é que
fica a parada do Jorjão. Peça uma cerveja na lanchonete Pau
e Pedra, do grande amigo kacho, que fica bem em frente, acomode-se e aguarde
por alguns minutos. Só um aviso a quem não estiver muito
disposto a fazer força: ao vir um fusca branco da frente quadrada
virando a curva lentamente no alto do morro, esconda-se o mais rápido
possível, que lá vem o Jorjão!
Don “Ruan” contra a faca do açougueiro
Existem histórias
que parecem fantasiosas, criações populares. Mas esta que
conto é verdadeira! Aconteceu na bela cidade de Alpinópolis,
sudoeste mineiro, que outrora tinha o poético nome de São
Sebastião da Ventania, ou simplesmente, Ventania. Fica entre Passos
e Alfenas, circundada pela represa de Furnas e ventilada pelos quatro ventos
que sopram a espirituosidade dos moradores locais.
Dercídio, cavalheiro
de São João, tem a fama de ser bom conquistador, e de fato
o é. Até falam que todos os meninos do povoado do Péla-Rabo
são filhos dele, pois todos são orelhudos como ele. Assim
segue a fama do Don “Ruan” da Ventania.
Mas, em uma das suas incursões
em cima de mulher alheia, Dercídio não teve a mesma sorte,
e a fofoca chegou aos ouvidos do marido da dita adúltera. Ela, Dona
Terezinha. Ele, o marido, Artuzão, açougueiro. Artuzão,
ofendido pelo comentário toma, a atitude que lhe cabe, abordando
o Dercídio na rua, de faca em punho e ódio à vista:
- Dercídio, você
é um homem morto! Que história é esta com a minha
mulher?!
Dercídio, diante
da lâmina afiada e das mãos acostumadas a fazer cortes em
carnes de animais gordos, não pensou duas vezes e respondeu com
firmeza:
- Quê que é
isso Artuzinho? Eu com a Comadi Terezona!!! Cê não tá
sabendo não?! Excrusive eu inté tô meio viado!!!
Com esta justificativa
Dercídio livrou-se do trágico fim e esta história
hoje faz parte do folclore local. Dercídio, depois do acontecido,
ficou tendo um trejeito diferente, que não cabe muito bem com ele.
Mas a cada ano que passa a população de meninos orelhudos
do Pela-Rabo aumenta. O pior é que todos são orelhudos como
o Dercídio, até nos trejeitos afeminados.
Frases que ouvi pelos cantos do meu país
Na rodoviária de
Caratinga a locutora anuncia:
- Atenção
Senhores passageiros com destino a beó-zonte. Cês fica veiaco
que o ônbus tá rachando fora!
Em uma partida de futebol
no Estádio Municipal de Açucena - quando estoura uma briga
na torcida, um torcedor avisa:
- Cuidado gente, que o
homi luta george-jetson!
Na igreja de Belo Oriente,
durante o casamento de um amigo – o Padre pergunta ao noivo se ele aceita
a mão da noiva como sua legítima esposa. O ‘parceiro de copo’
do noivo, depois de bebido umas, enciumado protesta ao fundo da igreja:
- Casa não Tiãozim,
cê já tá no “bem bão” de graça!!!
Estas são frases
brasileiras, impensadas em outras terras.
Estou por aí, assim
que tiver novas, conto a vocês.
Petrônio
Souza é produtor artístico e fotógrafo.
Consciência.Net