Nossa história, maior tesouro!, por Petrônio Souza
   Em 1999, almoçava com o saudoso deputado Lourival Brasil Filho, um dos maiores municipalistas que nosso estado já teve e um dos pioneiros a trabalhar pelo desenvolvimento do turismo em Minas. Emancipou cidades, criou parques estaduais e nacionais: Parque do Ibitipoca e Serra da Canastra, revelou aos brasileiros a verdadeira nascente do rio São Francisco, aos mineiros o tesouro perdido de Monte Verde e São Thomé das Letras. Em oito mandatos, o saudoso Deputado soube como poucos amar, divulgar e defender Minas.

    Após nosso mineiríssimo almoço, regado a tutu, angu e uma boa couve afogada, Lourival me chamou até sua biblioteca, em seu apartamento no bairro Funcionários, em nossa capital, e me mostrava um quadro, que ele queria que eu fotografasse. Era uma pintura de um ‘preto velho’, que logo atendi ao Deputado. Lourival queria mandar aquela foto para um amigo de Estrela do Sul que, segundo ele, já fazia tempo que o amigo telefonava repetidas vezes fazendo a solicitação, pois queria expor aquela foto no museu de Estrela do Sul, que estava sendo criado. Foi ali que Lourival veio me apresentar a história daquele homem retratado, que nunca mais esqueci.
    A pintura era um retrato de Manoel Clementino do Amor Divino, ou simplesmente Manoel Clementino, que faleceu em 1961 aos 128, encerrando a última página de uma das mais famosas histórias do nosso Triângulo Mineiro, a história de Dona Beija. Manoel Clementino foi escravo da lendária Dona Beija e a única pessoa viva em pleno século XX a ter conhecido nossa histórica personagem.
    Manoel Clementino era filho de escravos de Dona Beija e nasceu em Araxá em 1833. Quando perguntado se era filho de escravos, sempre negava, dizendo que seus pais eram ‘queridos’ de Beija, e por isso não eram escravos. Em 1840, quando Beija decidiu mudar-se de Araxá, ele foi junto com Beija para a antiga Bagagem, hoje, Estrela do Sul. Em Bagagem, Beija teria uma vida religiosa, voltada para a comunidade, usando sua influência para ajudar o povo do lugar, deixando lá a única ponte de ligação entre as duas partes da antiga Bagagem. Naquela época, prosperava no Triângulo Mineiro o garimpo de diamantes e Dona Beija foi com certeza a maior referência desta história. Nascida em Formiga, viveu no Araxá e constituiu família em Bagagem. A propósito, Estrela do Sul tem este nome devido ao diamante ali encontrado, às margens do rio Bagagem, que por ser o maior diamante do mundo na época, batizou o nome da cidade que o encontrara.
    Manoel Clementino era o testemunho vivo de toda esta história, que começou por volta de 1779, quando Beija a cavalo rompeu o cerrado inóspito, lendário e misterioso do Sertão Grande do Novo Sul ou do Sertão da Farinha Podre, lugar de tamanduás, lobos-guaras e solidão. A corajosa Beija partiu de Formiga (Pains) – Pium-í – São Roque, varou o chapadão da Serra da Canastra, até sair em Desemboque, perto de Sacramento, para alcançar São Domingos do Araxá, onde escreveria sua história ao lado das grandes personalidades dos tempos áureos das Minas Gerais.
    Manoel Clementino seguiu com Beija de Araxá para Bagagem, ficando em Bagagem/Estrela do Sul até seu falecimento. Viveu e morreu como rachador de lenha, e nas horas vagas, garimpava diamantes às margens do rio Bagagem, nunca encontrou nada que pudesse apresentar-lhe outra sorte. Assim como nasceu, seguiu a vida, servindo. Era para todos um ‘preto velho’, um homem trabalhador, distinto. Sobre a pesada égide do trabalho, cunhou a vida com o peso da cor. O seu testemunho e sua história não lhe recomendou um destino melhor.
    Em 1965, com a inauguração do Museu Dona Beija em Araxá, o deputado Lourival Brasil representou a Assembléia Legislativa de Minas Gerais, sendo o orador oficial na inauguração daquela obra do lendário Assis Chateaubriant, que já debilitado e preso a uma cadeira de rodas, ouviu de Lourival um pouco desta triste história. Assis Chateaubriant, emocionado com o discurso do representante mineiro, mandou publicar na íntegra e com destaque o discurso feito por Lourival em um dos seus muitos jornais filiados ao Diário dos Associados.
    Ao final de todo aquele relato, à frente da pintura do Manoel, Lourival me revela uma curiosidade que perguntara ao próprio Manoel: se Beija era realmente bonita. O antigo servo de Beija assim falou ao Deputado:
    - Ela era bonita, e muito formosa!
    Uma informação desta, direta da fonte, não poderia deixar de contar. A história de Dona Beija, Manoel Clementino e do Deputado Lourival Brasil nos ensina que nossa memória não pode ficar amarelada, tingida pelas cores do tempo, tem que estar viva reluzente, como os diamantes das Minas Gerais.

Petrônio Souza é produtor artístico e fotógrafo


Consciência.Net