Drummond – muito além das palavras, por Petrônio Souza
Carlos Drummond de Andrade mudou muitas vidas com a sua poesia, sua propriedade herdada das manhãs. Imagino quantos namoros começaram com os seus versos, quantos casamentos se sagraram com os seus poemas. Povoou o nosso mundo cinza diário, com um azul que descia do céu e chegava bem ao coração da humanidade. Com ele, o mundo ficou mais belo, azul e amarelo. Sua vida continua, até hoje, inteira nos seus livros, nos seus textos, nas suas conquistas e dentro de todos os amantes da poesia.

Era o distante ano de 1973, lá no Rio de Janeiro, mais precisamente na Rua Conselheiro Lafaiete em Copacabana, Drummond recebia a carta de um leitor, um adorador da sua obra, que seduzido pelos seus poemas viria também tornar-se poeta.

Da pequena São Sebastião da Encruzilhada (Cruzília), MG, o aprendiz de feiticeiro das palavras, Adolfo Maurício, escrevia para Drummond falando um pouco da sua vida e de como os versos do Poeta estavam vivos nele e em todo sua cidade. Drummond já sabia da história do município, que lhe fora apresentado em correspondências anteriores, trocadas com o Dr. Nunes, José Manoel Nunes Maciel, um dos médicos pioneiros do município.

Naquela missiva, Adolfo se apresentava como um menino do interior, de uma cidade que não tinha nem asfalto, perdida nos grotões das Gerais, lá pelas bandas do Sul de Minas. Falava da sua vida diária, dos estudos e do Hospital de sua terra, que mesmo sem ninguém saber era motivo de orgulho para Cruzília, Minas e Brasil.

Drummond ficou tocado com a descrição do amigo e procurou saber se tudo aquilo ali descrito era mesmo verdade. Constatada a veracidade das informações, o Poeta ficou maravilhado. Naquela pequenina cidade do Sul de Minas, existia um hospital mantido pelas irmãs Camilianas (São Camilo), que em 1973 dispunha de cirurgiões, obstetra, cardiologista, anestesista, pediatra e dois sanitaristas. Para cada 1.666 habitantes, existia um médico, tendo uma das menores taxas de mortalidade infantil do estado. O Hospital, realizando o princípio cristão, tornou-se pólo médico naquela região.

Drummond, após telefonar para o Hospital de Cruzília e checar todas as informações, ficou encantado pela descoberta e indignado: como podia existir uma cidade tendo todos este atributos ficar isolada do resto do mundo por falta de apenas 10 km de asfalto, que ligaria o município à BR-267, entre Juiz de Fora e Caxambu!

O poeta, obstinado guerreiro, empulhou sua caneta e começou a duelar contra esta realidade negra da omissão dos poderosos, que não reconhecem a grandiosidade dos pequenos. Escreveu uma linda crônica relatando todo o fato, que foi publicada no dia 20 de março de 1973 no Jornal do Brasil e no dia 21 de março de 1973 no jornal Estado de Minas. Usou a força do seu verso para um trabalho muito maior, muito além das palavras, abrindo os olhos dos homens para o que era até então desconhecido.

Na crônica “A Pequenina Cruzília”, Drummond começa apresentado ao Brasil a simplória cidade: “Era uma encruzilhada, no caminho de São Paulo para as Minas, no começo do século XVIII. Nessa encruzilhada se fixaram alguns moradores, sob a proteção de São Sebastião. (...) Cruzília não quer emparelhar-se com Belo Horizonte, que avança para chegar a 2 milhões de habitantes e meio milhões de problemas; contenta-se com 10 mil moradores, em seu único distrito. Mas desses 10 mil moradores, é justo destacar umas poucas irmãs camilianas, cuja congregação se fundou em Roma para cuidar de enfermos em hospitais, leprosários, ambulatórios e casas particulares. O hospital; que elas dirigem, em cidade tão pequena, dispõe de cirurgião, obstetra, cardiologista...  (...) E dizer que o interior não atrai médicos especializados... Atrai sim, quando eles encontram no interior condições técnicas de trabalho, além de conforto pessoal. Cruzília possui isto. Seu hospital é um brinco e bem articulado com Unidade Sanitária local, torna a cidadezinha um pólo médico de causar inveja”.

O poeta ainda questiona: “Estou vendo o leitor dizer: Mais uma das mentirinhas do CDA. Município assim não existe! – Existe, meu caro, e digo mais: Cruzília não quer só para si os benefícios de uma organização médico-assistencial que pode ser considerada modelo. Gostaria que as populações vizinhas também se valessem dos recursos de uma obra comunitária testada e aprovada. Pois o que ali fez este prodígio foi o espírito comunitário, a reunião de gente boa, que tornou espiritualmente grande um burgo mínimo, dentro da concepção das cidades humanas e não das aglomerações atrozes”.

Depois o poeta faz uma solicitação: “... Para estender aos moradores da região este serviço de qualidade, Cruzília precisa apenas de 10 quilômetros de fita asfáltica, em ligação com a BR-267. Dez quilômetros que a comunidade, por maior que seja sua disposição generosa, não tem condições de fazer. É assunto estadual e assunto federal. Se há sentido social numa rodovia, ou num pedaço de rodovia, creio que este é ocaso”.

Drummond se justifica: “Mas por que estou falando de uma organização de saúde municipal e de uma fatia de estrada, se minhas matérias são outras, e nem tenho poder político para dizer: ‘Façam-se os 10 quilômetros’, e os 10 quilômetros serem feitos? Nem acredito que o DNER e DER se debrucem sobre estes escritos leves, mas é a tal coisa: tomei conhecimento de Cruzília, fiquei impressionado e comovido com aquele cantinho de terra sul-mineira, e aqui estou pedindo sem saber pedir, sem ter talento e autoridade para pedir, 10 quilômetrozinhos de asfalto para as irmãs camilianas e seu hospital e sua equipe médica e mais a Unidade Sanitária e mais a boa gente da antiga Encruzilhada, que na cruz dos caminhos não bota despacho, bota esperança, alegria e saúde”.

Drummond tinha a propriedade de falar aos corações dos homens, transpassando as dimensões do possível. Sua crônica foi lida pelo presidente da Organização Mundial de Saúde, que passava férias no Rio e também se comoveu com a descrição do poeta e da história por ele narrada. Como ele teria em sua visita ao Brasil um encontro com o governador de Minas, Rondon Pacheco, trouxe ao governador um recorte do texto de Drummond e o pedido de conhecer a tal cidade. Rondon viabilizou sua ida a Cruzília e sem ninguém saber de quem se tratava, conheceu e se encantou com o hospital das irmãs camilianas.

Na volta para Belo Horizonte, formalizou seu pedido do asfalto ao governador, com a justificativa de que aquele hospital poderia atender a toda região, minimizando o déficit sanitário no sul das Gerais.

Seis meses depois, por designação do governo do Estado, chegava até a pequena Cruzília 10 quilômetros de asfalto novinho em folha. Drummond, sem saber, começaria esta obra na linha desenhada pela sua caneta.

Anos depois, o outrora menino Adolfo Maurício tornou-se vereador em Cruzília. Homenageou o poeta ainda vivo, denominando uma rua da cidade como Rua Fazendeiro do Ar. Depois que o poeta ficou “encantado”, Adolfo Maurício tornou-se o prefeito municipal, e a rua que era “do” Fazendeiro do Ar passou a ser a rua da poesia, do mágico das palavras, do homem além do tempo e espaço, do nosso querido e eterno Carlos Drummond de Andrade, que na encruzilhada das nossas vidas botou magia, esperança e poesia.

Petrônio Souza é escritor e jornalista


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