Ali, naquele jornal juvenil-religioso, Carlos Drummond de Andrade teve seu primeiro artigo publicado em abril de 1918, onde Drummond declarava/exaltava sua crença em Deus e do amor Dele por nós. Anos depois, o jornalista mirim se tornaria um ateu convicto, inveterado, chegando a exigir que em seu funeral não houvesse rezas, cruzes e velas.
Depois desta primeira colaboração de Drummond ao colegial jornal, o poeta/jornalista passaria a conquistar a admiração de todos do colégio, pelos seus artigos que sempre recebiam uma vírgula censural dos padres do colégio. Devido a esta atitude, Drummond em silêncio escrevia uma novela em que fazia a imolação dos padres e da igreja, que orientava a tradicional instituição. Este ar anarquista de Drummond o expulsaria do colégio, quando como homem e jornalista dirigiu a um professor uma carta questionando sua forma de avaliação dos alunos. Esta carta foi o carimbo de expulsão de Drummond do Colégio de Friburgo. Aí, Drummond ascendia em si a chama irrequieta do cronista diário, dos homens que lançam um olhar questionador sobre seu tempo.
Já em Belo Horizonte, em abril de 1920, Drummond tinha seu primeiro artigo publicado na imprensa aberta, um artigo/crítica sobre o filme: Diana, a caçadora – que dividia a crítica cinematográfica local. O artigo/crítica de Drummond sairia publicado na primeira página do oficioso Jornal de Minas, um dos braços do PRM. A partir deste primeiro artigo o poeta/jornalista escreveria outros e outros. Havia descoberto o caminho que o levaria ao manancial verterdor do mundo, das idéias e das palavras.
Pouco tempo depois, o jovem cronista estava escrevendo no jornal Diário de Minas, havia subido mais um degrau na escada do templo dos Deuses. Drummond escreveu para o Diário de Minas até 1926. Sendo que, a partir de 1921, o poeta/jornalista escreveria ainda para outros veículos da imprensa mineira.
Anos depois, Drummond influenciado pelas revistas modernistas feitas pelos paulistas e cariocas, e movido pela chama acesa no colégio de Friburgo, fundava na capital mineira ao lado dos amigos do grupo Estrela “A Revista”, uma revista cultural idealista em que modernistas do país inteiro coloriam suas páginas.
No editorial da primeira publicação em 1º de julho de 1925, Drummond pede “pela humanização do Brasil”, dizendo: ‘Nascidos na república, assistimos ao espetáculo cotidiano e pungente das desordens intestinais, ao longo das quais se desdenha, nítida e perturbadora, em nosso horizonte social, uma tremenda crise de autoridade...”. Como o cronista é dotado de senso atemporal, o artigo de Drummond continua ‘moderno’ até hoje.
“A Revista” teve apenas três publicações, mas abrigou em suas páginas a novela de Mário de Andrade, “Amar, verbo intransitivo”, o poema panfletário de Manuel Bandeira, “Poética”, onde Bandeira declara sua aversão ao lirismo comedido, e – vejam só – até a publicação de uma conferência proferida por Freud nos EUA, em que o psicanalista alerta o mundo para sua descoberta do inconsciente. Em 1926 encerrava a epopéia de “A Revista”, um barco moderno que singrou o mar morto das idéias da vida belorizontina.
Drummond seria ainda eleito pelo Midas da mídia brasileira, o jornalista/advogado Assis Chateaubriant, como o escolhido para dirigir o seu novo jornal de São Paulo, o “Diário da Noite”. Influenciado pelo paulista desvairado Mário de Andrade e o político amigo Milton Campos, Drummond ignorou o apelo dos três, ficando uma vez mais em Minas para ser o redator-chefe do Diário de Minas.
Já no Rio, e vislumbrando a aurora vermelha do leste europeu, Drummond atendia a um convite do cavalheiro da esperança, o revolucionário da coluna, o líder comunista Luis Carlos Prestes, dirigindo o jornal do partido comunista “Tribuna Popular”.
Olhando a obra poética de Drummond fica difícil, quase impossível separar o jornalista do poeta, o poeta do jornalista, pois em toda sua grandiosidade, os dois se fundem. “Sentimento do Mundo”, “Elegia 1938”, “O Padre e a Moça” e “Itabira” são o princípio e o fim do cronista no poema, assim como “Retrato de uma Cidade”, “Marieta”, “Governador eleito” e “Amizade no Morro” são o princípio e o fim do poeta na crônica.
E para nós que não conseguimos separar o poeta do jornalista, o jornalista do poeta, temos em Drummond o princípio e o fim “do drama e da flora”, onde todos “os caminhos se fundem”, onde tudo se perpetua, se perfuma, se embeleza e a vida da gente fica um pouco mais cheirosa, com um doce sabor de poesia... Que assim seja!
Petrônio
Souza é produtor artístico e fotógrafo
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