Drummond –
o pescador de estrelas, por Petrônio Souza
Carlos Drummond de Andrade nasceu
a 31 de outubro de 1902 em de Itabira do Mato Dentro, que depois se chamaria
apenas Itabira, sem o belo pico do Cauê, filho do fazendeiro Carlos
de Paula Andrade e de Dona Julieta Augusta Drummond de Andrade.
Em 1916 o jovem poeta
veio para Belo Horizonte para estudar no Colégio Arnaldo, ficando
lá por apenas 4 meses. Adoentando, foi forçado a voltar à
terra natal, voltando para a jovem capital em 1920, quando a família
se mudara definitivamente da cidade de ferro. Especula-se que a mudança
repentina da família de Drummmond para Belo Horizonte deveu-se ao
fato de que uma das irmãs de Carlos, Rosa Amélia, estaria
namorando um irmão bastardo, filho do coronel Carlos de Paula Andrade,
que naquela época era dono de boa parte da pequena cidade.
Como a mudança
fora feita de maneira abrupta, a família se hospedou primeiramente
no Hotel Internacional, mudando-se depois para a rua Silva Jardim, na Floresta.
A bela casa que ficava defronte a Igreja da Floresta. Drummond a homenageou
no poema “A casa sem raiz”, onde o modernista questionava a falta de história
do imóvel. Está lá nas páginas do livro Boitempo
III aquela maravilha de poema: “A casa não é mais de guarda-mor
ou coronel./ Não é mais o Sobrado./ E já não
é azul./ É uma casa entre outras./ O diminutivo alpendre/
Onde oleoso pintor pintou o pescador/ Pescando peixes improváveis./
A casa tem degraus de mármore/ Mas lhe falta aquele som dos tabuões
pisados de botas,/ Que repercute no Pará./ Os tambores do clã./
A casa é em outra cidade,/ Em diverso planeta onde somos, o quê?/
Numerais moradores./ .../ ...Aqui ninguém bate palmas./ Toca-se
campainha./ As mãos batiam palmas diferentes./ A batida era alegre
ou dramática/ Ou suplicante ou serena./ A campainha emite um timbre
sem história.” Ao final do poema o poeta ainda questiona: “Silva
Jardim, ou silvo em mim?”.
Na nova cidade Drummond
começaria a escrever sua história, “subindo Bahia e descendo
Floresta”. Depois das reuniões costumeiras do Grupo Estrela na Rua
da Bahia, seja no Bar do Ponto, no Café Estrela, na Livraria Alves
ou no Cine Odeon, Drummond voltava para casa compondo novos poemas. Desafiou
a realidade do ar, passeando por cima dos arcos do Viaduto Santa Tereza.
Contam que uma vez um
guarda deu-lhe voz de prisão, e ele lá de cima respondeu
ao guarda: “se quiser me prender vai ter que vir até aqui”. O guarda
tirou os sapatos, as meias e tentou subir no arco. Mas como não
sabia poetizar, foi embora, fracassado no intento. Daí, imagino
o poema que o Drummond não escreveu: “Subíamos o mesmo caminho,/
Ele com um peso nas costas/ Eu leve como passarinho...”. Assim, como quem
passa debaixo do Arco-íris se encanta, o arco-íris figurativo
do viaduto encantou o poeta, e outros que vieram depois dele passariam
pelo mesmo “batismo literário” dos arcos do Santa Tereza, como:
Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Murilo Rubião,
Alphonsus Guimarães Filho.
Com o casamento do poeta
em 1925 com Dolores Dutra de Morais e sua formatura em Farmácia
pela Faculdade de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte, encerrava-se
o primeiro ciclo poético de Drummond na Capital. Depois de formado,
Drummond nunca exerceria sua profissão de farmacêutico.
Em 1926 o poeta muda-se
para Itabira, para tentar manter a tradição agrária
viva na família. Mas, como poeta só sabe versar, abandonou
a busca campesina, lecionando Português e Geografia no Ginásio
Sul-Americano da cidade. Poucos meses depois, Drummond estava de volta
ao mesmo número da Rua Silva Jardim, 107, tendo a casa cedida pela
família para o novo casal.
De volta a Belo Horizonte,
Drummond passou a trabalhar como redator e redator-chefe do oficioso jornal
“Diário de Minas”, formando com Afonso Arinos e João Alphonsus
um reduto modernista na imprensa mineira. A ida de Drummond para o jornal
foi uma indicação atendida pelo próprio presidente
do Estado, Antônio Carlos, que solidarizou ao pedido do modernista
Alberto Campos e seu irmão, Francisco Campos – secretário
do Interior do governo Carlista. Drummond passaria ainda pela Secretaria
de Educação do Estado, redação do jornal “Minas
Gerais”, redação da revista Brazil-Central – juntamente como
os folclóricos Verdes, sendo eles: Juarez Felicíssimo, Enrique
de Resende e Rosário Fusco, os Ases de Cataguases - e secretaria
de Interior.
Em 1930, mais precisamente
em 30 de abril, o poeta dá apenas uma pequena idéia ao que
veio, lançando somente 500 exemplares do seu primeiro livro ‘‘Alguma
Poesia” com 54 poemas. Drummond ficou em Belo Horizonte até 1934,
quando a convite do novo ministro da Educação – o antigo
amigo que conhecera na época em que estudara no Colégio Arnaldo
– Gustavo Capanema, como chefe de gabinete do Ministro, na capital Federal.
Lá Drummond começaria uma nova fase na sua poesia, que pode
ter sido inaugurada como o poema “Morro da Babilônia”.
Como Drummond acreditava
que Minas não existia mais, ficou no Rio de Janeiro até ficar
‘encantando’. Infelizmente, “A casa sem raiz” onde morou o poeta pertenceu
a uma Minas também sem raiz, que foi levada pelo vento da história
para morar apenas na nossa memória e na saudade das coisas que não
existem mais... E o pescador do poema, virou pescador de estrelas, do infinito.
Petrônio
Souza é produtor artístico e fotógrafo.
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