A caneta é a espada do esgrimista das palavras, por Petrônio Souza
    Em 1938, Carlos Drummond escrevia o poema ‘Elegia 1938’, que só seria publicado em 1940, no livro “Sentimento do Mundo”. Sentimento do Mundo também é o poema em que Drummond declara seus sentimentos ao mundo: “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo...”. Eram anos de guerra na Europa, mas Drummond antenava o tempo das sombras, escreveu um dos seus mais belos livros. Em Elegia 1938, repudiava a feiúra da usura capitalista: “...Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota/ e adiar para outro século a felicidade coletiva./ Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição/ porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.”.

    Sentimento do Mundo é um livro que retrata um tempo de guerras, de pessimismo e, sobre tudo, de dúvidas sobre o poder de destruição do homem. No poema “Congresso Internacional do Medo”, Drummond evidencia claramente o sentimento comungado por nós, simples mortais. É nele que Drummond fala do “amor que se refugiou no mais baixos dos subterrâneos, do medo que esteriliza o braço, no medo da morte e do depois da morte e, principalmente, no medo dos ditadores e no medo dos democratas”. O poema, escrito há pelo menos 60 anos, contrasta com a página amarela e triste da nossa história que insiste em não virar e se tornar passado de nossas vidas.
    O livro Sentimento do Mundo teve sua primeira edição com apenas 150 exemplares. Para fugir das perseguições e censuras do Estado Novo Getulista, foi distribuído de mão em mão, como naquela história do beija-flor que trazia água no bico para apagar o incêndio na floresta. Drummond, como o beija-flor da história, fazia a sua parte. Em 1941, movida pela força política e cultural da resistência democrática alcançada pelo livro de Drummond, a Revista Acadêmica, uma referência intelectual da época, consagrava o poeta mineiro dedicando um número inteiro a Drummond e colocando-o num patamar sem precedentes em toda nossa poesia.
    A Revista Acadêmica era uma ilha resistencial contra as intransigências que marcaram a época. Fundada por Murilo Miranda, tinha inicialmente sua publicação direcionada ao público estudantil, que logo foi suplantada pelo sucesso da Revista. Fazia parte dela nomes como: Carlos Lacerda, Mário de Andrade, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Portinari, Moacyr Werneck de Castro, Lúcio Rangel e Aníbal Machado. Naquele momento, Drummond passava a ser o grande poeta nacional, como na nota que Mário de Andrade escreveu sobre o poeta naquela edição: “Haverá na poesia contemporânea do Brasil uns três livros tão grandes como Sentimento do Mundo... São todos eles admiráveis força de humanidade. Não tenho nenhum receio de afiançá-lo maior do que outros: é o que eu prefiro”.
    Não era só o poeta que estava sendo reconhecido, mas o homem por trás do poeta, que se indignava contra as mazelas produzidas pela humanidade. Outro que se rendeu à face poética de Drummond foi o romancista José Lins do Rêgo, que dizia: “Este homem deu assim à poesia brasileira uma força espantosa. É um poeta que tem a figura física de um Hamlet e sente com a impetuosidade de um Otelo”. Esta força a que referia José Lins era a força da consciência poética/política assistida em Carlos Drummond de Andrade. Outros que se manifestaram a favor da poesia ideológica de Carlos Drummond foram o cronista Rubem Braga, o poeta Murilo Mendes, e o crítico e escritor Antônio Cândido.
    É deste mesmo livro o poema/oração Mãos Dadas: “Não serei o poeta de um mundo caduco./ Também não cantarei o mundo futuro./ Estou preso à vida e olho meus companheiros./ Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças./ Entre eles, considero a enorme realidade./ O presente é tão grande, não nos afastemos./ Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas./ Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,/ não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,/ não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,/ não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins./ O tempo é a minha matéria,/ o tempo presente, os homens presentes,/ a vida presente.”
    O homem do tempo de Drummond é o mesmo de hoje, que mata, xinga e que desdenha o semelhante. O poeta sofreu tudo em seu coração e em 1987 um infarto silenciava a voz daquele que em seus ombros suportou o mundo e com a sua caneta duelou contra as injustiças dele.
    Mas só em uma publicação póstuma, no livro “O Avesso das Coisas”, viemos saber realmente o que tanto atordoou o poeta. Era a saudade das coisas que ele nunca viveu, a saudade da paz na terra, do amor plural, da herança universal dos direitos dos homens... Drummond foi assim, o grande José da história, que com o pensamento nas coisas desta vida, ou talvez nas crianças da África, ou quem sabe até nos sertanejos do Brasil, sintetizou: “Sentimos saudades de momentos de vida e de pessoas. Também sentimos saudades do que não existiu, e dói bastante...” .  Mas como ele tinha apenas duas mãos e um coração, levou consigo a dor e o sentimento do mundo... E como dói!!!

Petrônio Souza é produtor artístico e fotógrafo


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