O "Baile da Vida" que todos dançam, por Petrônio Souza
    "Todo artista tem que ir aonde o povo está", esta é a frase de Fernando Brant para a toada ‘pop’ de Milton Nascimento, cantada pelos quatro cantos do país, como um hino exaltando a profissão do artista. A canção é bela, à voz de Milton então... Ela entra pelos ouvidos e vai ao fundo com uma força emotiva, mas ao ouvir a referida frase, sinto uma idéia contrária ao que sugere o espírito artístico, uma inversão da postura do artista frente sua arte. Entendo perfeitamente o que quiseram dizer os autores – Fernando e Milton – que com esta canção homenageiam a cantora Joana, uma das divas do cotovelo doído. Mas após atentarmos ao que sugere a frase, ela nos parece improcedente e infeliz.

    Ora, afirmar que "o artista tem que ir aonde o povo está" é o mesmo que dizermos que o gênio artístico tem que descer do degrau criador – que é um dom, uma doação de algo maior – e estabelecer-se no degrau do comum e corrente. É aniquilarmos nele, no artista, qualquer porção de genialidade que aponte a novos caminhos. O artista sempre teve esta missão, de abrir os olhos da humanidade para o imperceptível ao olhar e sentir do homem comum.
    Fico pensando se Vicent Van Gogh, o homem que só vendeu um quadro em vida, tivesse indo aonde o povo estava, o que seria da Pintura sem a eterna contribuição do gênio Vicent? Mais mineiramente, se João Guimarães Rosa, que ao lançamento de "Grande Sertão Veredas" teve sua genialidade comparada (pela crítica e grande parte do meio literário) a possibilidade intelectual de um ornitorrinco, ou mesmo um Hermeto Pascoal – que parece que está proibido de se apresentar no Brasil – e tantos outros "incompreensíveis" tivessem ido ao povo, o que seria do fantástico legado artístico em tempo tão obscuro?
    A questão é bem mais complexa e exige um questionamento de todos. Mas uma coisa não pode deixar de ser dita. Quando a realização do povo estava em Deus, os artistas e o povo comungavam com algo maior, algo inspirador, pois Padre Antônio Vieira na literatura, Michelangelo nas artes plásticas, Aleijadinho, ou melhor, Perfeitinho nas esculturas, Johann Sebastian Bach na música e tantos outros estavam onde o povo estava e continuam a encantar a humanidade até os dias de hoje. Por que será?! Citando Baghavad Gita: "Infeliz do homem que trabalha visando os frutos do seu trabalho". Em pleno ano dois mil assistimos alguns artistas usando a arte para atender a outros interesses. A citação bíblica se torna válida, pois, "ninguém pode servir a dois reis ao mesmo tempo". Além do lugar comum, temos a concorrência da arte atlética, aquela que quer entrar no livro dos recordes, uma hipocrisia.
    De artista em artista a arte não vai, vem ficando cada dia mais vazia em si mesmo. Ave Vicent, Massimo Troise, Villa-Lobos, Pastorius, Drummond, Quintana, Bresson, Cartola,  Holliday, Jofre Soares, Barutti, Augusto, Pessoa, Camille e tantos outros que tiveram e têm na arte um fim, e não um meio. O descanso deles será/é belo e puro, como o que aqui fizeram. Com a graça de Deus!

Petrônio Souza é produtor artístico e fotógrafo.


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