Os Anjos
adormecem!, por Petrônio Souza
Nos primeiros anos da nossa capital,
a Avenida do Contorno era conhecida como Avenida Sanitária. Este
codinome preconceituoso de nossa Avenida era devido ao fato de que dentro
da Contorno estariam os ‘limpos’ e fora dela, os ‘não limpos’. Desta
forma, a Avenida que contornava o centro da nova Belo Horizonte servia
também como um limite de exclusão em nossa Capital.
Foi neste cenário
que no início dos anos 20, surgia em Belo Horizonte, a Vila Concórdia.
A Vila fora criada inicialmente como área de despojo, transferindo
para lá famílias humildes que se estabeleceram em bairros
que, com a expansão da cidade, foram eleitos pela sociedade dominante
como áreas nobres, para sediar as crescentes famílias abastadas
da Capital. Para a Vila Concórdia foram transferidas famílias
que inicialmente moravam no Barroca, Santa Efigênia, Barro Preto,
entre outros bairros, por meio de troca de terrenos ou doações,
feitas pela prefeitura.
Nesta época,
em 1930, as irmãs Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo,
atentas ao crescente número de crianças abandonadas na cidade,
pleitearam junto à administração municipal da Capital
uma área para ser destinada à construção de
uma creche, para amparar as crianças desamparadas de Belo Horizonte.
Neste mesmo ano, a Sociedade São Vicente de Paulo, obtendo a doação
da Prefeitura de meio quarteirão na Vila Concórdia, começou
a construir no terreno um prédio para abrigar a creche.
Em 1932, ficava pronta
a edificação na Rua Itapagipe, que passaria a sediar a Creche
Educandário Menino Jesus, a primeira Creche oficial da jovem capital.
Inicialmente, a Creche Educandário recebia crianças até
doze anos, a maioria delas filhas de mães solteiras. Hoje, a Creche
recebe crianças e adolescentes de um a dezessete anos, fazendo um
trabalho sócio-educativo em meio aberto, junto às famílias
dos amparados. São assistidas no Educandário 266 crianças
e 75 jovens.
Sendo vizinho da Creche,
sabendo da eterna dificuldade das Irmãs para manter o nobre trabalho
social, movido pelo ideário cristão da caridade, fui até
lá para oferecer-me a fazer um trabalho voluntário. Gentilmente
recebido, Irmã Nilza apresentou-me à instituição.
Percorremos pelos corredores, pelas salas, oficinas, quadras de esportes
e fiquei comovido com todo aquele trabalho crístico, desconhecido
de toda sociedade belorizontina. Lá, as crianças aprendem
a ler, escrever, desenvolvem-se socialmente, têm uma prática
esportiva, um desenvolvimento cultural, religioso e sobre tudo, a esperança
de um mundo melhor. Dentro da Creche, são ministradas oficinas pré-profissionalizantes
e cursos profissionalizantes na área burocrática. Os educandos
têm atendimento médico e dentário, tudo feito sem o
conceito de trabalho-ouro.
Surpreso com toda aquela
estrutura de formação de cidadãos, pensei em quantas
creches faltam em nossa capital para abrigar as tantas crianças
que perambulam pelas nossas ruas, impregnadas pela ‘nossa sujeira urbana’.
Na oficina de costura, uma menina veio me mostrar orgulhosa a calça
que ela havia feito. Perguntei quanto tempo que ela demorou para confeccionar
a peça, ela me respondeu que foram dois meses, me dizendo que “aqui
os dias são muito longos e agente tem muita coisa pra fazer, e eu
só costuro quando sobra um tempinho”. Fiquei pensando se ela não
estivesse ali, onde estaria, com sua vontade de fazer tantas coisas durante
o dia longo...
No início da
construção do prédio da creche, toda comunidade da
Vila Concórdia ajudou na edificação do Educandário.
Meu avô, que chegara anos antes em nossa Capital, trabalhou ali assentando
tijolos. Setenta anos depois, o neto dele tenta pintá-los.
Maravilhado com a história/exemplo
do Educandário, fui levado pela Irmã às salas de repouso
das crianças, que após o almoço adormecem ali mesmo.
Eram duas horas da tarde quando abrimos a porta de uma sala em que dormiam
sobre um colchãozinho estendido no chão 20 crianças
de 2 a 4 anos. Estavam lá, todas dormindo, protegidas das coisas
deste mundo, sonhando com um mundo que não é delas. Eram
brancas, pretas, pardas, meninos e meninas, todas iguais, deitadas sobre
o mesmo chão. Como o menino Jesus, não nasceram em berço
esplendido, foram perseguidas pelas maldades do seu tempo e reconhecidas
pelos ‘Reis Magos’, que viram naquelas crianças os anjos adormecidos...
Petrônio
Souza é produtor artístico e fotógrafo
Consciência.Net