O ouro que virou cinzas
Petrônio Souza, 17 de abril de 2003

No dia 13 de março de 2003, o secretário de Estado da Cultura Luiz Roberto Nascimento e Silva fazia na Academia Mineira de Letras, presidida pelo ex-senador e escritor Murilo Badaró, a Sessão Solene de Abertura dos Trabalhos do ano 2003, com a palestra “Modelo de Política Cultural”. Ao falar do patrimônio histórico arquitetônico de Minas, Luiz Roberto, lembrou o poema do grande poeta nacional Manuel Bandeira, que na década de 30 já manifestava a preocupação pela preservação da nossa história e conclamava em versos os seus amigos e inimigos a protegerem Ouro Preto. Sentado ao meu lado, o poeta e por duas vezes prefeito de Cruzília, Adolfo Maurício, comentava em voz baixa: é a eterna insuficiência do ser humano...

Hoje, muitos anos depois dos versos de Bandeira, assistimos aos poucos a nossa história sendo comida pelas chamas da eterna ingerência do poder público e os casarões de Ouro Preto virando cinzas nas páginas da memória.

Uma jornalista que cobria pela TV o lúgubre espetáculo do incêndio na Praça Tiradentes aborda uma moradora da cidade e pergunta: “O que a senhora sente vendo este incêndio destruindo um Patrimônio da Humanidade?” A moradora, com um ar pesaroso, respondeu: “Sinto o meu coração queimar também...”  Não são só os nossos corações que estão queimando com este descaso para com o nosso patrimônio cultural não, é a nossa página na história, nossa página de glória, escrita com ouro, trabalho e sofrimento é o nosso espírito mineiro, nossa memória, nosso referencial singular da mineiridade...

Ouro Preto hoje é um Patrimônio Cultural da Humanidade e isto representa muito pouco para o poder público, e nós vamos tendo a triste sensação de que não somos capazes de zelar por algo que é nosso e pertence a todos os povos. Quando um casarão de Ouro Preto queima por falta de uma política de preservação e manutenção do nosso legado artístico arquitetônico, não somos apenas nós que estamos perdendo uma bela edificação no conjunto histórico de Ouro Preto, mas todo o povo brasileiro que, aos olhos do mundo, vai consolidando a imagem de que aqui é apenas o país do samba, futebol e carnaval e que daqui, poucas coisas têm de ser levadas a sério.

A história de Ouro Preto agoniza por falta de um plano diretor que estabeleça um controle permanente de preservação e restauração do que o tempo nos doou. As chuvas, o trânsito desestruturado, o crescimento desordenado, a falta de organização das festividades vão aos poucos levando o ‘ouro’, o brilho da singular cidade e deixando apenas o ‘cascalho’ do que realmente fora a Vila Rica da nossa história.

Foi ali, o cenário do Brasil independente, soberano e inconfidente e o fogo do colonizador queimou toda aquela história brasileira. Agora, o fogo da ignorância pública mais uma vez está queimando a nossa história brasileira, a nossa história mineira, a nossa referência cultural e transformando o nosso ouro em cinzas, nossa arquitetura em brasas e nossa riqueza em nada.

Uma pergunta se torna inevitável: quantos casarões, chafarizes e igrejas serão destruídos até que esta realidade mude?!

Brasileiros, o berço da liberdade está aprisionado e todo dia solta um grito agoniado que só alguns poucos ouvem e convocam os seus amigos e inimigos para salvarem a nossa querida Ouro Preto. Como um dia, em uma noite escura Alvarenga Peixoto escreveu em letras vermelhas sobre um pedaço de pano branco, 200 anos depois parafraseamos o poeta e deitamos sobre a nossa bandeira da razão: preservem, ainda que tardia...

Petrônio Souza é escritor, produtor artístico e fotógrafo. [petros@brfree.com.br]


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