| A picada da cobra imperialista
Petrônio Souza, 2 de abril de 2003 No dia 31 de janeiro de 1977 Jaques Pereira Gonçalves sagrava-se, com apenas 26 anos, prefeito na pequena Belo Oriente, no leste mineiro, eleito com 1079 votos pelo antigo MDB. Ao chegar na porta do seu gabinete para assumir a prefeitura, Jaques teve um pressentimento e pediu à faxineira para dar uma arrumada na bagunça deixada pelo governo anterior. Ao abrir a primeira gaveta da mesa do prefeito, Dona Tereza Martins levou um susto enorme, quando uma cobra deu-lhe um bote e por pouco não picou a sua mão. Jaques, então um jovem destemido, matou a cobra e pegou-a com uma mão e o cabo de vassoura com a outra, foi para a porta da prefeitura onde muitos ainda confraternizavam e levantou as duas mãos dizendo: - É com estas coisas pequenas que vocês querem acabar comigo... pois fiquem sabendo que eu estou aqui é para matar a cobra e mostrar o pau!... - E jogou o pau e a cobra morta no meio da rua, bem no meio de uma multidão perplexa... FHC deixou para o presidente Lula uma cobra na gaveta do Planalto e tudo indica que ela picou o presidente pois, até agora, Lula não matou a cobra nem mostrou o pau, e nossa economia vai meio que envenenada pela picada do governo imperialista primeiro mundista. Sobre este novo empréstimo do governo Lula tomado ao Fundo Monetário Internacional, até agora, não ficou claro para nós o porquê, qual a sua necessidade pois, segundo informou o Planalto, o montante dos US$ 4,1 bilhões, emprestados (sic) pelo FMI, foi destinado ao Fundo de Reservas, ou seja, a priori, não tinha nenhuma urgência. O FMI é um grande polvo, que envolve com seus tentáculos financeiros e invisíveis as economias fragilizadas, para delas obter um total controle político e econômico, e isto, durante e depois da era FHC, sentimos no bolso, na pele e na alma, porque o Fundo não nos cobra só juros financeiros, ele nos cobra juros políticos e, aí, a soberania das nações, vai pro ralo. Foi o FMI que determinou que o governo fernandista não deveria investir na construção de hidrelétricas, para que o dinheiro destes investimentos fossem revertidos para ele, para um governo oculto e paralelo que nos deu um apagão moral. A lógica do FMI é esta: quanto mais um país lhe deve, maior é a sua subordinação a ele, e nesta lição o fernandinho foi mestre, e agora o Lula já se revela um bom aluno e começa a escrever o beabá do seu governo com este primeiro empréstimo. Se não bastasse isso, a aceitação e manutenção de todo o legado antinacional do governo liberal e imperialista, o governo Lula agora dá novas investidas, e o deputado federal pelo PT mineiro Virgílio Guimarães vem com uma proposta contra o Banco Central, querendo sua autonomia do governo brasileiro, para entregá-lo ao governo colonialista do mundo financeiro. A estratégia é ensinada pelas hienas selvagens: primeiro, separa-se da mãe o filhote e depois cada um abocanha a parte mais gorda do filho desgarrado, e é justamente isso que querem fazer com o nosso Banco Central, separá-lo do nosso governo que é democrático, para deixá-lo à mercê sabe-se lá de quem. E, para isso, já bramiram alto que para a direção deste novo Banco Central, seria escolhido (sic) um presidente com mandato fixo de quatro anos. Ora, por que isso agora, no início de um governo que se elegeu com a esperança de um povo sedento por mudanças, querer mexer logo com o BC?! Está tudo muito estranho, nebuloso, e quem ouviu as promessas da campanha do Lula sabe muito bem que ele afirmou que o seu governo iria se guiar muito mais por um projeto de políticas sociais que econômico, e neste caso, esta proposta do Virgílio neste momento não é só uma afronta a nossa soberania nacional não, é também contra o governo Lula e as suas propostas. Fica muito estranho analisarmos tudo isso que envolve este novo governo pois, até agora, não ficou claro para nós qual foi o critério usado pelo presidente Lula para eleger Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central, pois ele foi eleito deputado federal pelo PSDB de Serra e FHC, inimigos ferrenhos do projeto petista, nunca participou de qualquer movimento popular no Brasil, sempre foi agente dos maiores bancos do mundo e, de uma hora para outra, vem integrar um governo popular de esquerda, eleito pela necessidade de mudança do modelo econômico que durante oito anos vilipendiou e doou o patrimônio nacional aos banqueiros internacionais... Será que a mão que determinou que a presidência do BC fosse dada ao Meirelles é a mesma que aponta as propostas de autonomia do Banco Central?! Enquanto isso, a aprovação do governo Lula começa a registrar suas primeiras baixas, e o povo, que acreditava nas mudanças de um governo popular, brasileiro e destemido, vai descobrindo aos poucos que a esperança é a última que morde... Petrônio
Souza é escritor. [petros@brfree.com.br]
|