Um quadro surreal pintado pelo governo Lula
Petrônio Souza, 17.fev.03

Fernando de Melo Viana tornava-se o novo presidente de Minas após o falecimento de Raul Soares, em 1924. Em uma manhã de 1926, o Presidente, acompanhado pelos amigos, o deputado João Lisboa e o Major Oscar Freire, saiu a pé pelas ruas do centro de Belo Horizonte. Os três compraram cada um o exemplar do jornal Correio da Manhã, que trazia na primeira página, em destaque, uma foto de Melo Viana.

O escritor Pedro Nava, que seguia o grupo, resolveu dar uma espetadinha em Melo Viana. Comprou o mesmo jornal e seguiu a comitiva do Presidente que entrou no lendário Café Estrela. Enquanto o grupo lia sorridente a elogiada matéria sobre o governo de Melo Viana, Pedro Nava sentou-se em frente ao grupo e abriu o seu jornal, que estava com a foto de Melo Viana arrancada. Pelo buraco do jornal, Pedro Nava observava o grupo pasmo do Presidente, que logo pagou a conta e se mandou, Rua da Bahia acima.

O PT está rasgando sua página no jornal da história e botando um buraco no lugar. Em jornais do Brasil inteiro se leu FHC elogiando o governo Lula e correligionários do PT questionando as diretrizes do partido, que foi eleito com a promessa de ser um governo popular.

O deputado João Batista, pelo PT do Pará, que a qualquer momento pode ter sua cabeça levada a prêmio por seus questionamentos, declara: “Não quero fazer oposição ao governo. Quero que esse governo seja vitorioso. Mas esse governo foi eleito pela vontade de mudanças da população. E o que se vê é que o medo venceu a esperança". Sobre os cortes: “Quem mais uma vez sai vitorioso com os cortes é o setor financeiro. São os grandes banqueiros que vão continuar se locupletando dos R$ 14,1 bilhões". Sobre a autonomia do Banco Central: "Não podemos deixar nas mãos do capital financeiro o poder de controlar nossa política econômica. Não podemos dar esse poder para Henrique Meirelles (presidente do BC). Essas pessoas não podem ter mandatos fixos de dois anos." Sobre a reforma da Previdência: "Não queremos aprovar a reforma da Previdência antes da tributária. É uma injustiça com o trabalhador manter um privilégio para o empresariado". "Não sou oposição. Mas vou reclamar toda vez que uma medida contraditória ao histórico do PT for aprovada. Vamos construir o debate com a sociedade para impedir o crescimento do medo".

Outro que afinou o coro para cantar o carimbó do João Batista foi Lindberg Farias, do PT do Rio: “Somos contrários à autonomia operacional do BC. Acreditamos que é mais uma medida "palocciana" de amarrar Lula para dificultar qualquer tentativa do Planalto de mudar a rota da política monetária adotada pela atual equipe".

Por outro lado, pintando o quadro surreal do governo Lula, Fernando Henrique, de Madri, estufou o peito e disse: "O presidente (Lula) tomou decisões muito austeras. Isso parece uma espécie de coroação do que eu disse. Demonstra que as medidas de meu governo não eram trabalho apenas de um presidente, mas o resultado de um processo". Será que o governo Lula está engajado neste processo preconizado pela era FHC?! É a garoa paulista que insiste cair sobre nós, brasileiros...

Já o outrora pelego, como ficou conhecido pelos líderes sindicais do Brasil inteiro, o Paulinho, declarou: "O governo está sendo muito bonzinho com os banqueiros internacionais. Está tirando até dinheiro do Fome Zero para pagar juros da dívida”. Sobre o Palocci: "Nem o Malan foi tão generoso com os banqueiros."

Os tucanos se assanharam com as declarações de FHC e o senador por Roraima, Romero Jucá, questionou: "O governo do PT não só está traindo as promessas feitas em campanha, cujo lema era de mudanças radicais com ênfase no social, como parece enfatizar ainda mais aquilo que atribuía como um dos erros do governo Fernando Henrique, que era 'a excessiva preocupação com a economia'”. Sobre os cortes: "Lula não pode negar que está se comportando como um verdadeiro neoliberal, bem ao gosto dos banqueiros de Davos".

O PSDB em nota oficial questionou: "O presidente da República foi eleito com a promessa de gerar 10 milhões de novos empregos e promover grandes mudanças no Brasil. A partir de agora, com o aumento da taxa de juros e o arrocho recorde imposto pelos cortes no Orçamento, a dívida a ser saldada pelo governo federal junto aos brasileiros desempregados que acreditaram nas promessas de Lula será um pouco maior".
 
Pior do que tudo isso, foi assistir a entrevista do deputado pelo PT de São Paulo, João Paulo Cunha, Presidente da Câmara, no programa Roda Viva da TV Cultura do último dia 10. O entrevistador perguntou: “Deputado, quando o PSDB indicou Armínio Fraga para o Banco Central, o PT disse que era a raposa cuidando do galinheiro. Agora o PT indica o Henrique Meirelles para o mesmo cargo e só o Babá falou que é o vampiro cuidando do banco de sangue... o que mudou no PT?!” depois de uma risadinha amarela, João Paulo tentou brizolar e não conseguiu, não soube responder nem argumentar... Lamentável.

E assim vamos nós, vendo nas páginas dos jornais com uma profunda tristeza, este início de governo. Dentro de nós, onde havia o retrato de um Lula sorridente e com a bandeira do Brasil na mão, vai ficando um buraco escuro e sem luz no fim do túnel...

Petrônio Souza é escritor. [petros@brfree.com.br]


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