A atuação desastrada da polícia gerou inquietação, os governantes tentaram se aproveitar politicamente da situação, a população cobrou medidas mais drásticas, a imprensa criticou o governo, a polícia tentou se defender, timidamente. Sucessão de reações, convenhamos, esperadas. Nenhuma surpresa. Será que podemos esperar alguma novidade após tudo isso?
O mais melancólico, o mais triste, o mais assustador de tudo é que, por mais sinistro que tenha sido o seqüestro do ônibus, os hábitos do carioca não vão mudar. Criou-se uma onda de indignação, é verdade. Viu-se um fato inédito, facilitado pela cobertura intensiva da imprensa, em que um meliante domina uma situação por horas, mantém reféns sob mira de arma e morre junto com seu escudo. Entretanto, os protestos resumem-se a frases gritadas como "absurdo", "meu Deus", "que infelicidade", algumas passeatas minguadas. O medo já faz parte do cotidiano.
Nem mesmo uma tragédia como a que ocorreu no Jardim Botânico foi capaz de fazer o carioca, ou o brasileiro, ou o ser humano realmente se rebelar contra os altos índices de criminalidade ostentados na metrópoles. Reclama-se, chora-se... mas e daí? A vida continua. E lá vai o trabalhador, a pegar seu ônibus, seu trem, voltando tarde pra casa, em ruas desertas, esperando um próximo bandido, um próximo marginal aparecer nos holofotes, a polícia realizar sua parte e irromperem novos gritos de protesto.
A culpa é de quem? Difícil apontar um culpado, mas é certo que a omissão da sociedade torna as coisas mais difíceis. Sociedade, aqui, não quer dizer povo. Quer dizer, sim, sociedade mesmo: povo, governo, Igreja, e quaisquer outras instituições que formam o Estado. A sociedade, enfim, zela por ela própria. Zela pela educação, pela saúde, pela segurança. O governo tem dívidas, sim. A política de segurança é nula, a polícia é mal paga. Mas as pessoas também não podem cruzar os braços. Passeatas, protestos mais eficazes e eloqüentes são bem-vindos. É preciso um engajamento coletivo forte, para que se mostre que a criminalidade realmente incomoda, e que não é ela apenas um problema com o qual temos que conviver. É de fato um mal a ser combatido. Combatido sempre, e não sazonalmente, como estamos acostumados a fazer.