Terra da liberdade, por Raphael Perret Leal
    Das duas uma: ou é interesse ou é burrice.

    Na primeira hipótese, nenhuma novidade. Quanto mais escuso, mais normal. É assim que a vida segue. Faz parte da cultura dos governos norte-americanos.
    Na segunda, pensando bem, também não é novidade. É fácil colecionar amostras de Q.I. baixo (até mesmo científicas) de George W. Bush. Mas, convenhamos, parece-nos que a primeira hipótese está mais próxima da certeza.
    Para quem não sabe, os EUA estão doidinhos para aprovar um conjunto de leis que, em condições normais de temperatura e pressão, nenhum país democrático teria coragem de aprovar – talvez o Brasil, já que aqui sabemos que tem muita coisa assustadora que rola nas leis que tramitam no Congresso... A noa legislação permitiria, por exemplo, que qualquer imigrante na "América" (por que eles acham que a América se refere apenas ao território deles?) pode ser preso por tempo indeterminado, seja ele legal ou ilegal, caso ele seja considerado SUSPEITO de estar auxiliando práticas terroristas. Basta ler os jornais de quarta-feira, 26 de setembro de 2001.
    A nova lei permitiria, também, facilidades para agentes de segurança vasculhar e-mails e telefonemas privados dos habitantes dos Estados Unidos. Confissões obtidas de maneira ilegal – sob tortura, por exemplo – e fora do território americano também se tornariam válidas. Não à toa estão chamando o pacote legislativo de "Big Brother".
    O mais patético é saber que Bush está reclamando do Congresso, que hesitou em decidir pela adoção das novas medidas, como se fossem leis fáceis de ser assimiladas pela população, como se a sociedade, mesmo escandalizada pelos acontecimentos de 11 de setembro, estivesse passivamente pronta para aceitar tais barbáries cometidas contra os direitos civis.
    Sociedade, inclusive, governada por George Bush, o suposto líder do mundo contra o terrorismo. Um dos lemas dessa luta engajada é a busca da vitória da democracia e liberdade.
    Ora, como falar em democracia e liberdade em uma terra cujo governo quer vasculhar os e-mails alheios, capturar conversas telefônicas e, sob qualquer motivo esdrúxulo, escurraçar estrangeiros, que, exatamente por acreditarem estar na terra da liberdade, foram aos EUA, comprovaram seus objetivos pessoais, e lá vivem legalmente?
    Não se esqueçam de que, embora a Casa Branca insista que o tempo é de "guerra", um dia – se Deus quiser – essa "guerra" acaba. Ou pelo menos a poeira assenta. E a lei, vai acabar? Estaremos fadados ou, pelo menos, correndo sérios riscos de ficarmos fadados a sermos vigiados dia e noite, sem direito à privacidade, sem direito à liberdade, sem direito à vida. Sim, porque dificilmente os EUA vão deixar de impor essa lei em outros países.
    Estão, pasmem, criando mecanismos de burlar dados criptografados! O mesmo meio que garante segurança das transações financeiras online e enriquece milhares de empresas, das quais certamente a maioria é norte-americana, será vigiado. A coisa é séria.
    Não há dúvida de que há muito tempo já estão querendo controlar o conteúdo do tráfego da rede e desta maravilhosa invenção que é a internet. É um meio anárquico, descontrolado, e talvez por isso, mais próximo do democrático a que um veículo de comunicação já chegou (não entremos no mérito de que nem todo mundo entra na internet; uma vez lá dentro, conquistar um nicho do espaço é questão de tempo e dedicação). Arrumaram, enfim, um motivo para controlar esta profusão progressiva de idéias, questionamentos e debates da world wide web. Ao menos o Congresso foi mais prudente e protelou a decisão de aprovar as medidas.
    Pouco se pode falar sobre as outras questões, como a prisão de imigrantes suspeitos de colaborarem com grupos suspeitos (a repetição é proposital) de praticar terrorismo. A xenofobia, quando cometida por crianças americanas que agridem seus colegas afegãos, ainda pode ser atribuída à imaturidade e à falta de informação. No entanto, uma demonstração clara assim de aversão a estrangeiros, vinda da chefia de Estado da terra da liberdade e da democracia, só pode ser atribuída à incoerência, à leviandade. Parafraseando Roosevelt, também à infâmia.
    O governo dos EUA chama o novo pacote legislativo de leis antiterror. Cheira mais a um conjunto de leis antiliberdade.  As medidas não iriam inibir de forma alguma o terrorismo. Ele sempre existiu mesmo com linhas telefônicas obsoletas e sem a internet. Nada garante que apenas estrangeiros estejam envolvidos nos atentados (aliás, mal provou-se quem realizou os atentados, quanto mais a nacionalidade dos suicidas). Porém, não há dúvidas de que controle de e-mails, grampos telefônicos e histeria xenófoba vai não apenas acabar com a liberdade que tanto os EUA propagam em suas mensagens humanitárias, mas também inserir os cidadãos norte-americanos num estado civil completamente neurótico e nocivo. À beira de um colapso.
 
Raphael Perret Leal
Consciência.Net