Dentre as principais opiniões de Caetano, destacam-se as seguintes:
- Os jornais, ao saber de um lançamento de um disco, preocupam-se em pegar o material, ouvi-lo rapidamente, entrevistar o artista, e escrever algo em poucos minutos, para sair logo no dia seguinte. Essa pressa se justificaria porque, "se uma notícia sobre um lançamento qualquer sair antes em um jornal, o outro não publica nada sobre o assunto".
- Os artistas considerados "comerciais" (Caetano cita o axé music, a música sertaneja e o pagode como gêneros desse tipo) são muito criticados por jornalistas, mas o cantor acha que os artistas fazem muito melhor ao que eles se propõem do que os críticos. Em suma: "o sujeito que critica não sabe redigir bem".
- Os jornais, os mesmos que atacam os artistas comerciais, estão muito comerciais, e o principal sintoma disso " é a transformação de jornalistas - que assinam o nome - em personagens que procuram caricaturar-se para ver se se tornam figuras populares. Nesta área do jornalismo cultural, dá-se muita ênfase a uma suposta agressividade dos apreciadores. É uma agressividade forçada, para que o jornal fique polêmico ou seja a estrela do acontecimento".
Há ainda outras opiniões em relação a méritos e deméritos de artistas e de jornalistas, irrelevantes nessa discussão. O que é válido é que Caetano jogou as cartas na mesa. A última reflexão, das três supracitadas, resume as outras duas, é causa e conseqüência das demais e de quase todos os defeitos dos cadernos culturais hoje em dia: a comercialização dos jornais.
Esses veículos, que a princípio prestam serviço à sociedade, noticiando, formando (opiniões) e informando (o leitor), apresentando debates, de repente se submeteram à tônica capitalista de que tudo é produto e começaram a apresentar as notícias ao lado de suplementos, tickets para prêmios, bingos, livros... Pessoas que mal se informavam começaram a comprar jornais apenas para ter aqueles prêmios. O jornal tornou-se um acessório, uma obrigação para se ter o objeto realmente desejado.
Mas mesmo sem brindes, os jornais querem apenas vender, e por isso apelam ao sensacionalismo, ou a notícias que teoricamente nada acrescentam ao dia-a-dia do cidadão, como fofocas de bastidores (o mais comum) para entreter os curiosos leitores, que acabam comprando o jornal e todos acabam felizes para sempre. O leitor fica com assunto pra comentar com o vizinho. O jornal vende. A real informação torna-se secundária. Vira lixo.
Essa comercialização acaba alcançando o suplemento que, supostamente, devia ser o mais repelente a esse processo: o caderno de cultura. Raramente as críticas são aprofundadas. Em geral, já se sabe quem é e quem não é o queridinho daquele jornalista. Personalidades inócuas ganham as capas dos suplementos, enquanto análises de livros, peças, filmes e discos restringem-se a piadinhas grosseiras ou a bajulações duvidosas. Tudo muito rápido, curto, lépido, para o maior número de matérias possível sair. Concluindo: o que o autor de "Sampa" afirma é verdadeiro.
Arte, cultura e até mesmo lazer são muito subjetivos. Numa atividade jornalística, comentar peças, livros, filmes e discos requer cautela. Não se pode agradar a todos, é verdade, mas não se pode também ser leviano e falar gracinhas sem motivos justos. Pior: escrevendo mal - não é leviandade quando Caetano diz que "o sujeito que critica não sabe redigir bem".
Por outro lado, esperava-se, no mínimo, que os jornais se defendessem. Ou que eles se retratassem. Trouxessem a discussão para o papel. Aproximassem-na de seus seletos leitores. Mas não. Pelo menos os dois jornalões cariocas não deram o menor respeito ao debate promovido por Caetano. Minimizaram-no. Anularam-no. Assumiram, assim, um mea culpa? Ou simplesmente não o acharam importante o suficiente para divulgá-lo no jornal?
O "Jornal do Brasil" colocou o lançamento de "Noites do Norte" na capa do "Caderno B" de quarta-feira 13. Um texto analisava alguns trechos da entrevista na internet, mas apenas aqueles referentes aos comentários do compositor sobre sua última obra. Ao lado, uma crítica do disco, bem concentrada, informativa e analítica ao mesmo tempo. Justiça seja feita, uma boa matéria. Em momento algum, porém, cita-se o questionamento feito por Caetano. Se não o fez, foi porque não achou o assunto pertinente. Por que não? Das duas, uma: porque o tema central da reportagem era o disco, e a discussão proposta pelo compositor não tinha relação com o fato; ou porque simplesmente achou, por si só, irrelevante. O primeiro motivo suposto é ingênuo; o segundo, errôneo, insensível e insensato. Nenhum justifica a ausência do debate.
Já "O Globo" frisou até demais a discussão. Entretanto, em vez de enfrentá-la, usou uma tática covarde, típica de quem se considera intocável ou perfeito: ridicularizou-a. A matéria sobre o lançamento vinha, também na quarta, na página 2 do "Segundo Caderno". Mesmo estilo da do JB: uma reportagem sobre o site e a crítica, com um box repleto de frases de Caetano ditas na entrevista. Na reportagem, fala-se pouco sobre o disco e muito sobre as opiniões do compositor sobre a imprensa. No fim, acusa Caetano de utilizar "a crítica sistemática aos cadernos culturais e aos jornalistas a maneira ideal de ocupar espaços na mídia que um lançamento comum não alcançaria". Pode até ser, mas não se trata de um argumento que justifique a fuga do debate.
Enfim, os dois jornais procuraram fugir do debate por caminhos diferentes. Um ignorou, outro minimizou. Há, ainda, um fator extra, que pode ajudar a entender ambas as tônicas: a página de Caetano está hospedada no principal portal do órgão que preside o "Globo". Nada mais prosaico do que o fato de um jornal da "situação" promover o site enquanto o concorrente o desconsidera.
Nada, porém, ajuda o compositor que, independente dos motivos que o levaram a iniciar a discussão, tocou o dedo na ferida, trouxe-a à tona e espera mais dedos, mais opiniões, mais reflexões. Os sintomas estão mais do que expostos: os textos dos cadernos culturais. O debate é, pois, muito justo. Lamentável que os próprios órgãos de comunicação pretendem desprezá-lo, demonstrando, como quase sempre, sinais de corporativismo e de uma monárquica e irritante presunção.
Atenciosamente,
Raphael
Perret Leal
Jornalista
Rio de Janeiro - RJ
Consciência.Net