Estágios e empregos, por Raphael Perret
No bolso de quem?

Abrir o caderno de empregos hoje em dia está se tornando motivo, no mínimo, de piada. No máximo, de preocupação. Principalmente no que diz respeito às ofertas de estágio.

Parece brincadeira, mas não é. Contrata-se estudante de comunicação para ser recepcionista de academia. Um aluno de pedagogia, segundo uma livraria, é a pessoa melhor capacitada para ser caixa do estabelecimento. Empresas que querem especialistas em Word, Excel procuram-nos em faculdades de Ciências da Computação.

O estágio é uma atividade, remunerada ou não, que auxilia o universitário em sua formação. Junta a prática e a realidade à teoria dada nas salas de aula. É uma extensão do ensino. Em suma: deve ser útil ao aluno dentro da área que ele estuda. Com os exemplos dados acima, é fácil perceber que o mundo real é diferente.

A vantagem do estagiário para o empregador é que ele tem custo baixo. Uma bolsa-auxílio e um ou outro benefício já satisfazem ambas as partes. O empregado, com carteira assinada, tira mais dinheiro do chefe. Daí a preferência pelos estudantes. Ótimo, os alunos têm boas chances de cobrir seus custos na universidade e exercitam a prática de suas futuras carreiras. A questão, porém, não se encerra aí. A oferta de estágios está banalizada e extremamente mal distribuída.

É preciso que um caixa de supermercado aprenda noções de didática e o pensamento de Paulo Freire? Um cargo que exige conhecimento de aplicativos básicos de computador requer também fundamentos de programação em baixo nível e confecção de algoritmos? E para que um estudante de Comunicação lê tanto sobre influência da mídia, técnicas de redação jornalística e antropologia, se ele pode ser um recepcionista de uma academia?

Em compensação, pessoas com segundo grau e que, por qualquer que seja o motivo, estão fora da universidade, tornam-se excluídas do mercado de trabalho, inclusive de cargos que não exigem um grau de instrução tão alto. Tudo por causa de uma política que interessa apenas aos empresários. Os estudantes, por necessidade de sobrevivência, aceitam esses estágios, verdadeiros sub-empregos, que nada acrescentam aos currículos, e tiram as chances daqueles para quem tais empregos eram mais apropriados.

Esta polêmica, enfim, custa mais no bolso do patrão, ou no bolso do desempregado?

Raphael Perret Leal.


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