Um pássaro, por Thiago Brigada
    Está andando pela terra molhada. Preteriu a grama molhada com seu cheiro relaxante. O pássaro fica andando pela terra molhada e deixa suas pegadas no chão. E são tantas! O pássaro faz uma escultura na terra molhada.

    Ele não levanta vôo. Fica feliz andando de um lado para o outro. Ele dá valor às suas andanças. Quer transforma-las em arte. Queria ser um artista.
    A arte de voar ele já sabe. Mas não dá o valor que os homens dão. Ele voa por natureza. Não por desejo. O desejo do pássaro é poder andar por mais vezes. Fazendo arte.
    Enfim ele voa. Tão suave no ar. O pássaro sobrevoa sua arte e vê que aquela escultura está muito bonita. Caminhos que se cruzam em pegadas, várias pegadas.
    Chove. A chuva cai. Sua escultura começa a desaparecer. Ele pousa e, desesperado, começa a andar novamente na terra molhada. Suas pegadas não ficam mais gravadas no chão. Ele não consegue desistir. Fica num vai-e-vem incessante e desgastante. A chuva não pára.
    O cheiro da grama está mais forte. O pássaro decide ir para a grama. Ali ele não marca seus passos. Não faz a sua arte. Mas, ao menos, se encontra com outros pássaros. E estão felizes com a chuva. Assim podem voar como pássaros cheirosos. Fazem piruetas no ar. Pairam sobre a grama cheirosa. O pássaro acha o seu lugar. Ele tem que amar a arte do vôo.

Thiago Brigada


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