Medonho, por Thiago Brigada
    Não demonstrar medo. Que coisa meio surreal de se acreditar. Até se consegue, mas é difícil conseguir manejar as emoções de um modo tão eficaz como a tal frase requer. Já para quem diz que não tem medo pode estar até estar falando a verdade, mas acredito que se está, é porque ainda não descobriu do quê sente medo.

    Tem gente que tem medo de barata, notadamente a imensa maioria das mulheres. Tem gente que tem medo de aranha, a tão conhecida aracnofobia. Tem gente que tem medo de altura, escuro, lugares fechados... Eu, ao menos, conheço alguns medos. Mas aqui escrevo apenas um: tenho medo de marimbondos.
    Para início de conversa, nunca fui picado por um deles. Chamo-os também como canalhas. Não sei se meu medo é por instinto ou por qualquer outra coisa. É o tipo do estudo antropológico, onde não se sabe se o medo das pessoas se explica como uma manifestação da sua natureza animal ou se é resultado da sua construção de realidade. Como exemplo disso podemos indagar se o medo que a criança tem pela escuridão se explica como uma manifestação da sua natureza animal ou como o resultado das histórias contadas pela sua mãe? É para saber isso que eu venho estudando antropologia cultural. Digo que é o máximo estudar isso.
    Eu nunca consegui não demonstrar medo quando me apareceu pela frente um daqueles canalhas. Eu fico com os olhos arregalados, com o ouvido sintonizado no bater das asas deles e com toda a minha musculatura pronta para uma ação rápida. Como correr, por exemplo. Tentar matar um deles, até me passa pela cabeça, mas o medo realmente impera. Por diversas vezes chamei meu irmão para me ajudar. Ele não tem medo e, assim, espantava os canalhas ou então matava mesmo. Eu ficava meio que bestializado com isso. Sempre dá um ar de “que droga!” quando admitimos nós mesmos que nosso irmão é melhor em algo do quê a gente, e o pior é que ele sabe que é e que a gente admite isso.
    Eu tenho um desejo irrealizável. É de saber se Getúlio Vargas sentiu medo quando escreveu sua carta-testamento. Principalmente quando ele escreveu “saio da vida para entrar na História.” Ele ainda escreve dizendo que faz isso serenamente, mas acho que ele sentiu mais medo – se o sentiu obviamente, por isso meu desejo – ao escrever a carta do quê atirar contra seu próprio coração.
    Medo, segundo o dicionário Aurélio, significa “sentimento de grande inquietação ante a noção de um perigo real ou imaginário, de uma ameaça.” Popularmente se diz que “quando se está com medo, se correr ninguém alcança.” Estudos científicos comprovaram o dito popular ao afirmar que quando se sente em posição de perigo, o corpo humano libera grande quantidade de adrenalina, que atua no sistema nervoso e por conseguinte nos músculos, tornando-os mais rápidos aos estímulos.
    Portanto, é meio difícil de conseguir não demonstrar medo, depende de cada especialidade de alguma pessoa, umas são mais tranqüilas, outras mais inquietas, umas mais nervosas, umas mais medrosas... O medo existe e conseguir enfrentá-lo é um grande impulso para uma pessoa conseguir se fortificar. Pena que eu ainda não consiga enfrentar alguns canalhas, os marimbondos...

Thiago Brigada


Consciência.Net