Assim
se foi. Pegou um ônibus para casa e enquanto ia para casa refletia
sobre porquê tinha bebido além da conta. Afinal, não
era um bebum. Apenas bebia de vez em quando, não se lembrava porque
tinha ido bem além do seu normal.
Entrou
no ônibus um vendedor de balas e Juari logo procurou dinheiro para
comprar aquela bala que lhe tiraria o bafo de pinga. Achou um pedaço
de papel e as moedas. Logo comprou a bala e a colocou na boca. O papel,
bem o papel, foi jogado no chão. O papel era a coisa e tal dessa
história.
Soltou
do ônibus e pegou o caminho da sua casa. Abriu a porta, e para a
sua surpresa, notou que havia dois policiais dentro da casa com sua mulher.
Sem entender nada, ficou olhando a casa, se tinha sido roubada, não
parecia. Mas como nos ensinou Diogo, Juari usou o não sabe, não
fala.
- Mas
Juari? Onde você estava até agora?- indagou sua mulher.
- Eu
acabei dormindo na casa de um amigo meu, ele estava com problemas. mentiu
nosso outrora Deus, já que não sabia o que aconteceu, preferiu
não falar o que lhe aconteceu, inventando uma mentira. Tive de
ficar com ele.
- E você
lá com isso? Temos um problema muito maior! Desgraçado!
colocava o dedo em riste sua esposa.
- Senhor
Juari, nós tentamos de tudo, mas não foi possível
achar o ladrão. disse o policial.
Juari
não se lembrava de nada. Que ladrão era aquele? O que teria
roubado o ladrão? E como iria se explicar para Nara o que tinha
acontecido. Sentou-se no sofá com o lema do não sabe, não
fala.
- Juari!
Como você se senta? Nos roubaram toda nossa economia, todo nosso
dinheiro que iríamos comprar aquela casinha na roça...
já derramava lágrimas Nara.
Juari
entendeu tudo então. Como um estalo na cabeça ele lembrou-se
que havia ido beber porque tinha perdido todo aquele dinheiro que ele havia
guardado, somente ele, porque Nara não trabalhava. Mas era ela quem
decidira onde aplicar o dinheiro. Para o desgosto dele, ela queria comprar
uma casa boba na roça. Ele não queria casa nenhuma, vivia
bem ali na cidade. Tinha toda sua vida sistematizada ali. Tinha amigos,
emprego fixo, diversão, família, e o Maracanã! Ele
era um amante do futebol. Torcia pelo Bangu, mas via muitos jogos no Maraca,
mesmo que não fossem do Bangu. Ele queria usar aquele dinheiro para
viajar pelo mundo com a esposa, e com o que restasse, faria uma pequena
obra na casa, fazendo um lugar onde pudesse criar canários. Era
o sonho da sua vida. Criar canários. Deixa-los crescer e após
um tempo liberta-los. Mas sua mulher queria uma casa na roça. Ele
não era um homem de roça. Era um empreendedor urbano.
- Então
Nara, perdemos aquela casa. Perdemos. suspirava Juari, já sem
a filosofia de Diogo.
Nara
só chorava, enquanto os policiais prometiam se empenhar em ainda
localizar o indivíduo. Logo eles se foram.
Juari
tomava o caminho do banho, quando sua esposa lhe fez uma pergunta:
- Cadê
aquele papel que eu deixei aqui em cima da mesa?
- Papel?
Sei lá! disse para após se lembrar Ah! O papel! O que
tinha escrito nele?
- Você
não leu? Era o meu bilhete te informando que tinham roubado nossa
casa e que eu havia ido até a delegacia. Só que tinha um
telefone no papel. Era aquele da dona da casinha. Na pressa escrevi neste
papel. Cadê o papel? A gente precisa daquele telefone... falava
atônita Nara.
- Bem,
o papel... eu não sei. Só me lembro de ter pego o papel e
ter ido em busca de você. mentia Juari.
- Então
cadê ele? já gritava Nara.
- Ah!
não agüentou ver a aflição de Nara Eu tive
que usar ele para limpar o meu vômito. insistia em mentir.
- Vômito?
Porque você vomitou Juari?
- Eu
passei mal enquanto ia correndo até a delegacia. Aí subiu
aquela coisa e pronto, fiquei todo emporcalhado. Limpei a boca com o papel
e fui até a casa do Roberto me limpar. Era esse o problema que eu
tinha dito que um amigo meu tinha, na verdade fui eu que tive, mas não
tive coragem de falar isso na frente dos policiais. Aí acabei por
dormir lá, já que as roupas estavam sujas, mas logo limpamos.
inventava uma grande mentira Juari, torcendo por Nara acreditar.
- Roberto?
Não conheço.
- Conheci
ele na Charanga do Bangu, aquela bandinha que vai a todos os jogos do Bangu.
Ele é porteiro de um prédio aqui perto. disse o mentiroso
astuto.
- Vai
logo tomar banho então. Só sei que então perdemos
a opção de compra daquela casinha tão boa...
Aliviado ficou Juari. Tinha conseguido contornar toda uma situação através de uma grande mentira. Além de entender o porquê da bebedeira. Estava um pouco feliz e um pouco triste. Não iria comprar aquela casa boba no meio da roça, viveria onde queria viver, fazendo o que queria, para o azar de Nara. De relance, lembrou de algo que tinha falado enquanto estava bêbado. Lembrou que tinha falado: A mania de ter o que não se quer é a mesma mania de ser o que não se é. Entendeu porquê disse aquilo. Não queria estar vivendo a mania da mulher, queria viver a sua mania, porquê era a dele, porque era o que ele queria. Mas Juari perdera a chance de poder viajar pelo mundo, num cruzeiro. Mas a vontade de fazer um criadouro de canários permanecia. Mais do que nunca. Bastavam três meses de trabalho. Aí era só começar a construir, e com certeza, pensava ele, Nara ia adorar cuidar dos canários, já o de soltá-los em meio à cidade... Coisa e tal, mas a mania era dele.