Mania, coisa e tal..., por Thiago Brigada
    Bebeu para valer apenas uma vez na vida. Foi a primeira vez que ficara bêbado. Um fato inédito.

    Diz Diogo que se “não sabe, não fala.” Simples construção na fala. Simples interpretação. Mas ainda não é a simples aparição. Faço valer as palavras de Diogo, hoje, depois da bebedeira de um cidadão.
    Qual é a ligação entre “não sabe, não fala” com o bêbado? De certo modo, não há definição. Pode-se dizer que é coisa e tal. Coisa e tal? Pois é. Não há definição para essa ligação. Como já foi dito: coisa e tal.
    Simples aparição àquela do bêbado ultrajante. Ele já estava perdido pela cidade. Não sabia sua localização. Sabia apenas que estava na rua, no meio da rua, em meio a um buzinasso. E tentava ser o guarda de trânsito, que comia seu “podrão” encostado na banca de jornal. O guarda não queria saber do bêbado. Não queria saber da simples aparição daquele bêbado. O cidadão, à quem o vento ventava muito mais forte, filosofava para aqueles que prestavam atenção nele:
    - A mania de ter o que não se quer é a mesma mania de ser o que não se é. – filosofava o bêbado.
    - Sai daí! Deixa de ser um cabreiro! – gritou um mendigo.
    - Não sou um.... como é? Não o sou, dane-se! Sou o que souuu e... – parou a frase e deu uma cusparada no chão, enfim seguiu em meio às buzinas – sou Deus!
    - Então Deus, me dê dinheiro! Se você me der eu acredito. – falou o mendigo.
    - Toma! É todo seu!
    - Tá me zoando? Deus de merda! Eu peço dinheiro e você me dá uma garrafa de pinga? Qualé? – retrucou o mendigo indignado.
    - Mas esse é o meu dinheiro hoje. É com ele que vivo esta noite. – respondeu o bêbado.
    - Então, Deus, vai pra casa do caralho!
 
    O bêbado foi. Foi andando pela rua. E sem falar mais nada seguiu seu caminho. Na mesma mão dos carros. A simples aparição daquele bêbado fez muitos que estavam na rua e nos carros rirem. Também fez algumas pessoas atirarem ovos dos seus prédios na direção dele. Para o azar destes não o acertaram.
    Os carros seguiram e após um tempo não se via mais o bêbado no retrovisor. Os motoristas esqueciam daquele momento. Talvez se lembrariam da história quando estivessem num papo com os amigos. Contariam para todos rirem.
    O bêbado caminhou mais um pouco e cansado sentou no chão. Em frente a uma boate, que estava lotada. Os seguranças da boate o viram o foram até o seu encontro.
    - Sai daqui, seu bêbado! – rosnaram.
    - Mas... pô! – não mais falou o bêbado, pois fora logo pego pelas pernas e arrastado para uma rua vizinha.
 
    Mas que vida de ordinário vivia o bêbado! Não dava uma dentro. E já tinha até parado de beber ao dar a sua garrafa ao mendigo. Já começava a dar uma dor de cabeça nele. Era a ressaca. Resolveu ficar por ali estirado até melhorar. Acabou por dormir.
    A noite passou e o dia chegou. O cidadão ainda dormia quando o porteiro do qual prédio ele dormia em frente o acordou. Ofereceu uma xícara de café e um pão com manteiga. Prontamente aceitou.
    - Obrigado! Meu nome é Juari. Acabei dormindo aqui ontem porque fiquei bêbado e aí já viu, né? – disse o bêbado.
    - Tudo bem, me chamo Roberto. Você já pode ir agora, não é? Senão os moradores podem criar problemas. – falou o porteiro.
    - Claro, já vou sim. Muito obrigado e que Deus esteja sempre com você. – ponderou nosso auto-intitulado Deus, enquanto estava bêbado.

    Assim se foi. Pegou um ônibus para casa e enquanto ia para casa refletia sobre porquê tinha bebido além da conta. Afinal, não era um bebum. Apenas bebia de vez em quando, não se lembrava porque tinha ido bem além do seu normal.
    Entrou no ônibus um vendedor de balas e Juari logo procurou dinheiro para comprar aquela bala que lhe tiraria o bafo de pinga. Achou um pedaço de papel e as moedas. Logo comprou a bala e a colocou na boca. O papel, bem o papel, foi jogado no chão. O papel era a “coisa e tal” dessa história.
    Soltou do ônibus e pegou o caminho da sua casa. Abriu a porta, e para a sua surpresa, notou que havia dois policiais dentro da casa com sua mulher. Sem entender nada, ficou olhando a casa, se tinha sido roubada, não parecia. Mas como nos ensinou Diogo, Juari usou o “não sabe, não fala.”
    - Mas Juari? Onde você estava até agora?- indagou sua mulher.
    - Eu acabei dormindo na casa de um amigo meu, ele estava com problemas. – mentiu nosso outrora Deus, já que não sabia o que aconteceu, preferiu não falar o que lhe aconteceu, inventando uma mentira. – Tive de ficar com ele.
    - E você lá com isso? Temos um problema muito maior! Desgraçado! – colocava o dedo em riste sua esposa.
    - Senhor Juari, nós tentamos de tudo, mas não foi possível achar o ladrão. – disse o policial.
    Juari não se lembrava de nada. Que ladrão era aquele? O que teria roubado o ladrão? E como iria se explicar para Nara o que tinha acontecido. Sentou-se no sofá com o lema do “não sabe, não fala.”
    - Juari! Como você se senta? Nos roubaram toda nossa economia, todo nosso dinheiro que iríamos comprar aquela casinha na roça... – já derramava lágrimas Nara.
 
    Juari entendeu tudo então. Como um estalo na cabeça ele lembrou-se que havia ido beber porque tinha perdido todo aquele dinheiro que ele havia guardado, somente ele, porque Nara não trabalhava. Mas era ela quem decidira onde aplicar o dinheiro. Para o desgosto dele, ela queria comprar uma casa boba na roça. Ele não queria casa nenhuma, vivia bem ali na cidade. Tinha toda sua vida sistematizada ali. Tinha amigos, emprego fixo, diversão, família, e o Maracanã! Ele era um amante do futebol. Torcia pelo Bangu, mas via muitos jogos no Maraca, mesmo que não fossem do Bangu. Ele queria usar aquele dinheiro para viajar pelo mundo com a esposa, e com o que restasse, faria uma pequena obra na casa, fazendo um lugar onde pudesse criar canários. Era o sonho da sua vida. Criar canários. Deixa-los crescer e após um tempo liberta-los. Mas sua mulher queria uma casa na roça. Ele não era um homem de roça. Era um empreendedor urbano.
    - Então Nara, perdemos aquela casa. Perdemos. – suspirava Juari, já sem a filosofia de Diogo.
    Nara só chorava, enquanto os policiais prometiam se empenhar em ainda localizar o indivíduo. Logo eles se foram.
    Juari tomava o caminho do banho, quando sua esposa lhe fez uma pergunta:
    - Cadê aquele papel que eu deixei aqui em cima da mesa?
    - Papel? Sei lá! – disse para após se lembrar – Ah! O papel! O que tinha escrito nele?
    - Você não leu? Era o meu bilhete te informando que tinham roubado nossa casa e que eu havia ido até a delegacia. Só que tinha um telefone no papel. Era aquele da dona da casinha. Na pressa escrevi neste papel. Cadê o papel? A gente precisa daquele telefone... – falava atônita Nara.
    - Bem, o papel... eu não sei. Só me lembro de ter pego o papel e ter ido em busca de você. – mentia Juari.
    - Então cadê ele? – já gritava Nara.
    - Ah! – não agüentou ver a aflição de Nara – Eu tive que usar ele para limpar o meu vômito. – insistia em mentir.
    - Vômito? Porque você vomitou Juari?
    - Eu passei mal enquanto ia correndo até a delegacia. Aí subiu aquela coisa e pronto, fiquei todo emporcalhado. Limpei a boca com o papel e fui até a casa do Roberto me limpar. Era esse o problema que eu tinha dito que um amigo meu tinha, na verdade fui eu que tive, mas não tive coragem de falar isso na frente dos policiais. Aí acabei por dormir lá, já que as roupas estavam sujas, mas logo limpamos. – inventava uma grande mentira Juari, torcendo por Nara acreditar.
    - Roberto? Não conheço.
    - Conheci ele na Charanga do Bangu, aquela bandinha que vai a todos os jogos do Bangu. Ele é porteiro de um prédio aqui perto. –  disse o mentiroso astuto.
    - Vai logo tomar banho então. Só sei que então perdemos a opção de compra daquela casinha tão boa...

    Aliviado ficou Juari. Tinha conseguido contornar toda uma situação através de uma grande mentira. Além de entender o porquê da bebedeira. Estava um pouco feliz e um pouco triste. Não iria comprar aquela casa boba no meio da roça, viveria onde queria viver, fazendo o que queria, para o azar de Nara. De relance, lembrou de algo que tinha falado enquanto estava bêbado. Lembrou que tinha falado: “A mania de ter o que não se quer é a mesma mania de ser o que não se é.” Entendeu porquê disse aquilo. Não queria estar vivendo a mania da mulher, queria viver a sua mania, porquê era a dele, porque era o que ele queria. Mas Juari perdera a chance de poder viajar pelo mundo, num cruzeiro. Mas a vontade de fazer um criadouro de canários permanecia. Mais do que nunca. Bastavam três meses de trabalho. Aí era só começar a construir, e com certeza, pensava ele, Nara ia adorar cuidar dos canários, já o de soltá-los em meio à cidade... Coisa e tal, mas a mania era dele.

Thiago Brigada


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