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GOV. LULA
# 16/10/2006
Quem
pode, pode
Semana
passada, o presidente Luiz Inácio da Silva avisou que estava insatisfeito
com o tratamento dos veículos de comunicação da Globo
à sua candidatura, atribuindo, até, a essa conduta, a realização
de um segundo turno absolutamente imprevisto (...) A indignação
parece haver impregnado a mensagem presidencial, tanto, que os resultados
logo apareceram. (...) Por Marcelo Alcoforado
.Quarta-feira
25/1/2006 - número 213, ano 4
Tom
Jobim
Janeiro
marca o nascimento de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim,
nosso maestro soberano no dizer do também monumental Chico Buarque
de Holanda.
Antônio
Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, nome suntuoso para quem, apesar de
tanta grandiosidade, apreciava ser simplesmente Tom Jobim. Ou, ainda mais
humildemente, como se comprazia em contar, o Tom do Vinicius (de Moraes),
para identificar-se a algum interlocutor desatento.
Em verdade,
Tom Jobim, o Tom e o tom da música brasileira, trocou, com seu enorme
talento, a “camisa listrada que saía por aí” pelo traje a
rigor com que nossa arte musical passou a desfilar, soberba como uma Giselle
Bundchen, nos palcos internacionais.
Nascido
a 25 de janeiro de 1927 e morto a 8 de dezembro de 1994, Antônio
Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nos lega uma obra impregnada de beleza
e uma ausência repleta de vazio. Afinal, com ele cantamos amores
correspondidos ou não, a felicidade duradoura ou tão breve
quanto “a gota de orvalho na pétala de flor”, os sabiás e
os matitaperês, as “ondas que quebram e o vento da tarde”, as águas
de março e todas as águas, e, enfim, as mágoas. Além,
claro, de cantar as Anas Luísas, as Ângelas, as Lígias,
as Lucianas, as Luísas, as Terezas, essas mulheres maravilhosas
cujos rostos talvez só hajam existido na imaginação.
Tom Jobim,
que tanto e tão perfeitamente cantou o amor, cantou também
a dor de amar ao compor a linda Insensatez.
A propósito,
nestes tempos insensatos, em que instrumentos interferem na partitura de
outros e desentoam o cotidiano nacional, a letra de “Errei, erramos”, de
Ataulfo Alves, induz uma questão a ser respondida no tribunal
da sua consciência: se na música há o semitom,
é pertinente dizer que na vida existe o semijobim?
Quarta-feira
18/1/2006 - número 212, ano 4
O petróleo
e a rapadura
Do vasto
leque das predileções presidenciais sempre sopram os ventos
do comparar-se aos ex-presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek.
Com este, que construiu Brasília, libertou a Nação
do ciclo extrativista ao dar início à industrialização,
e se caracterizou pela polidez e tolerância, fica difícil
enxergar a simetria.
Com Getúlio
Vargas, porém, talvez seja possível estabelecer, à
primeira vista, um paralelo entre o propósito luliano de controlar
a imprensa e o famoso DIP de tão desairosa memória.
Podem-se,
todavia, sob uma visão menos intolerante, buscar outras semelhanças:
a Petrobras, por exemplo, ou mais exatamente o lema O petróleo
é nosso, nascido em 1947, que tanto empolgou e empolga os brasileiros,
especialmente agora, que, em abril próximo, estaremos atingindo
a tão acalentada auto-suficiência.
Claro
que o governo federal vai capitalizar momento tão marcante da vida
nacional, conquanto se evidencie ser a conquista fruto de um trabalho diuturno,
quando, depois de muitos anos, ficou compreendido que o petróleo
estaria melhor nos postos de serviço do que no subsolo.
Então,
já que a auto-suficiência é corolário de um
trabalho de tanto tempo, poderia o presidente Luiz Inácio da Silva
valer-se da possibilidade de o Brasil mover o mundo a mamonadiesel
“para entrar na história” — como Getúlio Vargas — sem, necessariamente,
“sair da vida”? Certamente sim, mas o projeto exige prazo dilatado até
sua efetiva realização.
Então,
nestes prementes tempos pré-eleitorais em que o chefe da Nação
inaugura pequenas obras e, até, consertos de estradas, há
algo realmente grandioso, capaz de mobilizar os brasileiros, máxime
os do Nordeste, com seus gibões, chapéus de couro, pífaros
e bacamartes: ante o patenteamento da marca rapadura por uma empresa
alemã, bem que o governo pode desfraldar a bandeira A rapadura
é nossa.
Sexta-feira
13/1/2006 - número 211, ano 4
Os
psicanalisados buracos brasileiros
Quando
atingiram o ponto em que não mais permitiam o tráfego de
veículos automotores, as estradas brasileiras começaram a
trafegar nos veículos de comunicação. Foi aí
que o presidente Luiz Inácio da Silva decidiu adotar alguma providência,
até para aplanar a estrada da sua reeleição já
tão cheia de solavancos.
Ocorre
que a providência foi parida à luz da controvérsia.
Para começar,
ao dizer que os estados haviam recebido os recursos para conservar as estradas
sem os aplicar da forma devida, o Presidente foi prontamente refutado pelo
governador Jarbas Vasconcelos, afirmando que, em matéria de estrada,
o governo federal era devedor de Pernambuco. Entre 1999 e 2005, disse,
o estado investira R$ 965 milhões (só R$ 45,5 foram do governo
federal), construindo 950km, restaurando 700km e conservando 1.200km dos
2.600km da malha federal em território pernambucano.
É
compreensível que o governo tente obter dividendos políticos
da Operação Tapa-Buracos, todavia os fatos conduzem para
a ocorrência de autênticas crateras na já solavancada
imagem governamental, uma vez que a iniciativa está eivada de suspeitas.
Para o
presidente da Associação Nacional das Empresas de Obras Rodoviárias,
engenheiro José Alberto Pereira Ribeiro, a Operação
é jogar dinheiro fora, já que, pela técnica empregada,
os buracos deverão estar de volta em 90 dias. Além disso,
são R$ 440 milhões sem a realização de concorrência
pública, muitos deles contratados com empresas sob suspeita, algumas
com processos no Tribunal de Contas da União.
Tem mais:
se o governo teve três anos para preservar e consertar as estradas,
por que só agora, sem licitação, toma a iniciativa?
“Brasil?
Fraude explica”, pensam muitos, repetindo o publicitário Carlito
Maia, petista de primeira hora, fundador do partido, que, a respeito dos
problemas brasileiros pré-lulianos, cunhou a expressão, calcado
na corriqueira assertiva de que Freud tudo explica.
Explica?
Quarta-feira
11/1/2006 - número 210, ano 4
Welcome,
FMI
Foi no
mínimo curiosa a cena em que o presidente Luiz Inácio da
Silva e os ministros Antonio Palocci e Dilma Roussef ouviam atentos, e
certamente ufanos, os elogios de Rodrigo de Rato, diretor-gerente do Fundo
Monetário Internacional, que estava em visita ao Brasil.
Razões
para os elogios não faltavam ao visitante, que teve liquidada com
enorme antecipação a dívida brasileira, da ordem de
US$ 15 bilhões, para com o organismo que dirige. Mesmo assim, não
perdeu a oportunidade de dizer que o Brasil não aproveita adequadamente
o seu potencial de desenvolvimento e que parece não ter objetivos
mais ambiciosos em médio prazo, o que parece justificado pelo fato
de o PIB nacional só haver crescido mais, na América Latina,
do que o do Haiti.
É
impossível, contudo, a par da libertação dos juros
que sangravam as finanças nacionais, não rememorar as antigas
deblaterações do então sindicalista Luiz Inácio
da Silva e da então guerrilheira Dilma Roussef contra o capital
internacional, causa da tragédia que se abatia sobre o mundo, cujo
arquétipo era exatamente o FMI.
Foram
muitos anos de protestos até a campanha de 2002 à Presidência,
quando as faixas “Fora, FMI” foram enroladas e os rugidos contra o capital
se perderam no ar.
Por falar
em rugidos, em 1956, ante as ameaças sucessivas, Mão Tse
Tung disse que o poderio norte-americano não passava de um tigre
de papel.
Pensando
bem, ontem, ouvindo Rodrigo Rato, aqueles que ontem rugiam contra o FMI
pareciam dóceis gatinhos ante a visão de um pitéu.
Não
pelo sobrenome — Rato — do senhor Rodrigo, é claro.
Terça-feira
10/1/2006 - número 209, ano 4
O petróleo
e as entranhas
Gasolina
será uma das moedas a circular na campanha presidencial que já
começou. Não vai aparecer em malas, claro, posto que vaza,
muito menos em cuecas, posto que, em contato com a pele sensível
das partes pudendas, há de arder. De qualquer forma, porém,
antecipando os movimentos com os combustíveis o governo anunciou,
em fins do ano passado, que em 2006 eles não sofreriam aumento,
o que já foi desdito pela realidade dos postos de serviço.
Os preços subiram por culpa do etanol que é adicionado à
gasolina, justificam as autoridades, deixando provado que o álcool,
de uma forma ou de outra, sempre termina por causar problemas ao País.
Para alegria
de todos, porém, e muito mais do governo, o presidente Luiz Inácio
da Silva anunciou com ar triunfalista, na entrevista a Pedro Bial, que
em abril seremos, enfim, auto-suficientes em petróleo.
De fato,
todo brasileiro tem motivos sobejos para estar feliz com tal perspectiva,
ressaltando-se, contudo, que, com mais motivos pela própria saúde
financeira de que pelo ufanismo. Afinal, a Presidência da República
informou que vai gastar com combustíveis, este ano, a bagatela de
R$ 2 milhões, isso sem contar com o querosene do AeroLula.
Só
em São Bernardo do Campo, a frota à disposição
do presidente Luiz Inácio da Silva vai consumir 78 mil litros de
gasolina e álcool.
Mas, voltando
à auto-suficiência, a enorme festa que a Petrobras prepara
com vistas a marcar o anúncio oficial vai celebrar o acontecimento
como obra do governo petista, esquecida, por certo, de que se fosse pelas
crenças, ou talvez apenas pelos discursos de Luiz Inácio
da Silva em outros tempos, o petróleo ainda seria nosso, é
verdade, porém jazendo nas entranhas da terra, sem que dele pudéssemos
tirar proveito. Como, aliás, ocorre com tantas coisas nas entranhas
do poder.
Segunda-feira
9/1/2006 - número 208, ano 4
A toga
e a faixa
Em Roma,
antigamente, os candidatos a cargos eletivos usavam togas brancas como
símbolos de sua candura e valores correlatos. Há que se perguntar:
como ficariam os nossos políticos nestes tempos de suborno deslavado,
contas no exterior e coisas do gênero? Sobraria muito tecido branco,
é certo. Aliás, fosse ele de uso exclusivo dos Poderes republicanos,
por absoluta falta de mercado as tecelagens nem o produziria.
Por falar
em togas brancas, o presidente Luiz Inácio da Silva é ou
não é candidato a reeleger-se? Há quem aposte
que não, mas a resposta pode estar não nas palavras presidenciais,
que, normalmente, confundem mais do que explicam, mas nos detalhes do que
faz e diz.
Recentemente,
por exemplo, afirmou que não vai permitir que alguém colha
o que ele teria plantado e que fará tudo para inaugurar obras até
o término do seu mandato, o que é perfeitamente compreensível.
Pergunta-se, todavia: alguém que pensa assim com respeito ao, digamos,
pequeno posto médico de uma cidadezinha perdida nos confins da Amazônia,
iria cuidar do fazimento de uma nova faixa presidencial se não fosse
para seu próprio uso?
Tenha-se
em conta que a nova faixa, símbolo do poder luliano, é para
ser usada em momentos breves, a não ser que o presidente pretenda
dar o seu expediente diário com ela no peito, como é representado
no programa Casseta e Planeta, da TV Globo.
Analise:
o presidente Luiz Inácio da Silva, modesto como tem demonstrado
ser, confeccionaria tal jóia — impermeável, com detalhes
em ouro e brilhantes, e que custará a insignificância de R$
38 mil reais — para um sucessor, ainda mais correndo o risco de ser ele
da oposição?
Talvez
Luiz Inácio da Silva ainda seja candidato, sim, e com a certeza
de que vai vencer, hipótese em que deve ser empossado vestindo um
terno branco como as togas romanas.
Não
só para contrastar com o verde-amarelo da nova faixa, mas para ressaltar
a candura que quem nada sabe do que ocorre fora dos limites do seu gabinete
de trabalho.
Terça-feira
3/1/2006 - número 207, ano 4
É
fantástico
Fantástico,
ensina o Houaiss, palavra etimologicamente filha do latim phantasticus
e do grego phantastikós, significa aquilo que tem origem
na imaginação, na fantasia. Na língua portuguesa,
além de, como adjetivo e substantivo masculino, corresponder integralmente
à definição etimológica, também como
adjetivo pode ter várias acepções, como, por exemplo,
algo que possui caráter caprichoso, extravagante, extraordinário,
prodigioso, que não tem nenhuma veracidade, falso, inventado.
O Fantástico
da TV Globo corresponde a algumas das definições do vocábulo,
já que muitas das suas atrações ocorrem no terreno
incorpóreo da fantasia da qual Eva Byte, aquela mulher virtual,
é um exemplo.
Apresenta,
também, muitas vezes, imagens extraordinárias, extravagantes,
prodigiosas, muitas frutos da criatividade dos seus colaboradores, muitas
frutos do nosso cotidiano.
Pergunta-se,
então: por que tanta celeuma em torno da entrevista concedida ao
repórter Pedro Bial pelo presidente Luiz Inácio da Silva?
Para a
oposição, uma entrevista deprimente, talvez uma metáfora
da depressão da música de encerramento do programa, anunciando
que a segunda-feira se avizinha.
Para o
entrevistado, uma oportunidade de dizer, segundo o jornalista Cláudio
Humberto, algo ininteligível como No quarto trimestre a economia
já está crescendo, vai começar crescendo fortemente
e nós vamos ter um ano de crescimento acima da média nacional.
Para os
espectadores mais crédulos, enfim, a graça de ouvir as maravilhas
que o governo opera no Brasil, a promessa de que caminhamos para ser uma
Shangri-Lá e que, assim como Eva Byte, o “mensalão” ou qualquer
nome que se queira dar ao suborno, é virtual.
É
verdadeiramente fantástico!
Segunda-feira
2/1/2006 - número 206, ano 4
O estripador
e o esfaqueador
O mistério
de Jack, o Estripador permanece insolúvel — e assim ficará
para sempre — quase 118 anos após seu primeiro crime, em 31 de agosto
de 1888, em uma viela londrina. É, até hoje, a maior incógnita
da criminologia universal, desafiando a máxima de que não
há crime perfeito.
Quem foi
Jack, o Estripador? — permanece a pergunta perdida nas sombras do tempo.
Enquanto
isso, por aqui, nas luminosas esplanadas brasilienses, começa a
tomar a vulto um enigma tupiniquim.
Na Londres
daqueles tempos, investigações se sucederam, cartas denunciaram
possíveis culpados, suspeitos foram interrogados e nada se concluiu.
Eram médicos, prósperos comerciantes, nobres e até
um príncipe na lista de possíveis assassinos, mas a nenhuma
conclusão se chegou. Considere-se, contudo, que, em Londres, diante
das mortes das prostitutas as autoridades agiram, enquanto por aqui, esfaqueado
o presidente da República não revela quem o atacou, talvez
não conseguindo identificar o agressor pelo fato de o ataque haver
ocorrido pelas costas.
Quanto
às estripações londrinas, nada mais há a fazer,
exceto o registro do ponto a que pode chegar o barbarismo humano.
Quanto
às facadas brasileiras, todavia, ainda é tempo de buscar
a resposta a uma pergunta que angustia a Nação: quem esfaqueou
o presidente Luiz Inácio da Silva?
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