A violência começa no governo FHC, por Laerte Braga
    As causas da violência de um modo geral são conhecidas. Um sem número de cientistas sociais já trataram do assunto, a rigor, esgotaram-no, qualquer que seja a faceta, ou a sua razão.

    O assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, tem todas as características de crime político. Foi um ato de barbaridade, típica reação de setores contrariados em seus interesses, cujo objetivo é exemplar e servir de exemplo.  Mandar avisos.
    Se remontarmos ao início do governo de FHC vamos observar, sem maiores esforços, que a violência contra líderes populares, sindicalistas e prefeitos, especificamente do PT –  Partido dos Trabalhadores – cresceu.
    Foi assim com a prefeita Dorcelina Falador, no Mato Grosso do Sul. Com o prefeito de Campinas, Toninho e, agora, Celso Daniel. E registre-se que ambos tinham altos índices de aprovação em seus governos. O de Santo André havia sido reeleito com mais de 70% dos votos, numa cidade de 650 mil eleitores e governava a cidade pela terceira vez.
    Todos os três, basicamente, acabaram com a corrupção nas respectivas administrações municipais. Isso, por si só, significa um monte de interesses contrariados. Um leque imenso de grupos afastados do poder. Não que antes de FHC essa violência não existisse. Claro que existia. Mas há agravantes no caso do governador geral do Brasil.
    O massacre de Eldorado dos Carajás. Os criminosos continuam impunes até os nossos dias. Um deles, o principal, o coronel Pantoja, foi assessor do governador tucano do Pará, quando esse exercia um mandato de senador.  Com toda a certeza não vai para a cadeia.
    E se escrevo sobre o massacre é para relembrar que a primeira manifestação de Fernando Henrique Cardoso, logo ao tomar conhecimento do crime, foi mais ou menos a seguinte: “quem procura acha, a Polícia tem que agir”. Só mudou o discurso quando chegaram até ele as notícias da péssima repercussão no exterior. Do destaque que o fato ganhava nos jornais da redes de tevê no mundo inteiro e, certamente, pois, divulgado à tardinha, ganharia, como ganhou, em toda a mídia em todo o mundo. Refiro-me a Carajás.
    Isso para mim é cumplicidade, é sinal verde para execuções como as acontecem sistematicamente em todo o país e agora contra o prefeito de Santo André.
    O curioso é que as primeiras notícias dão conta que tanto Celso Daniel, executado, como José Rainha, alvo de um atentado, foram baleados por pistolas 9mm.  Não se pode descartar a hipótese de eventual ligação entre os dois fatos. Não tanto pela arma, seria bobagem, mero palpite, é arma comum entre criminosos e pistoleiros, jagunços, mas por terem ocorrido simultaneamente, ou quase.
    É arma comum entre bandidos, repito, mas é preciso saber manejá-la. Não é qualquer principiante que consegue isso. Quem não sabe não tem uma arma, tem um problema.
    Falar da lentidão da Justiça, do despreparo, da corrupção e dos baixos salários da Polícia é lugar comum, qualquer um sabe disso, mas sabe também que as polícias, militares ou civis, são corporações lato senso, estamentos e não segmentos da sociedade. A própria luta da maioria dos policiais corre por fora do movimento sindical, pois sabem que são o braço do poder e que beneficiam-se disso.
    Em Minas, por exemplo, deve ocorrer em outros estados, a Polícia Militar recebe no último  dia do mês trabalhado, ou primeiro dia útil do mês seguinte. A quarta escala do magistério vai receber seus vencimentos de dezembro amanhã, dia 21.
    Há setores das elites brasileiras que vivem ainda no tempo da escravidão. Os latifundiários procedem como se fossem senhores de escravos, com poder de vida ou morte sobre as pessoas que trabalham para si e não hesitam em promover matanças para garantir privilégios, muitas vezes de terras griladas, como por exemplo, uma das fazendas de Jader Barbalho, ex-senador e um dos principais aliados de FHC. Vivem cercados por séquitos de jagunços.
    A atividade criminosa permeia de tal forma a sociedade que acaba criando laços profundos com determinados setores da política, do mundo dos negócios, gerando e disseminando a corrupção de tal forma que não existe no setor público ou privado quem não saiba disso e não são poucos os que se beneficiam desse estado de coisas.
    Roseana Sarney, a que vem para a campanha com plágio de outra campanha, essa publicitária,  a de uma determinada marca de cerveja (não é uma pessoa é um produto que o PFL está tentando vender) entre outros expedientes para vencer as eleições de 1994, usou o de relacionar seu adversário com um assassinato e um assassino e assim evitar a derrota.
    São Paulo é governado por um panaca, ou um banana como dizemos aqui em Minas. Tivemos um governador assim, Eduardo Azeredo. Todo mundo mandava e acabou o menor respeito pela autoridade do governador na máquina do Estado.
    Alckimin é a mesma coisa. É mandado e governado dentro de sua própria casa. Não tem vontade, nem estofo (expressão usada por Mário Lago, no “JB”, para comparar políticos de ontem com os de hoje, sem análise do mérito ideológico). Produto do acaso. O governo caiu-lhe no colo e pensa que é só olhar para as câmeras, disparar bobagens, provocar risos ou salvar Sílvio Santos de um seqüestrador. Pior, avalizou a vida do dito e o dito, há poucos dias, foi “executado em uma de “suas” penitenciárias. Nem isso consegue.
    Essa conversa de todo o aparelho estatal para investigar, achar os culpados, tomar providências, colocá-los na cadeia, existe desde os tempos de D. João Charuto e continua tudo dantes.
    FHC, num desses surtos de violência, quando a onda cresce a  população dá sinais de insatisfação, lançou um tal plano nacional de segurança. Ficou no papel. Serviu apenas para ocupar o noticiário, levou um ministro da Justiça a uma rede nacional de tevê, essas coisas todas que tucano, pefelista e a turma do Jáder fazem e não resolvem nada, são apenas joguinhos de cena.
    A razão principal da violência contra lideranças de movimentos e partidos de oposição resulta dos interesses incrustados das elites mais atrasadas do Brasil, no campo e na cidade e, dentre outros fatores, ganhou força terrível, segurança quanto a impunidade, como resultado da privatização do Estado brasileiro. São os maiores acionistas e defendem a unha seus lucros.
    O governo FHC, pelo seu caráter neoliberal. Pela corrupção que é sua marca registrada. Pelos privilégios incomensuráveis com que cercou as classes dominantes do País, numa primeira análise, é o principal responsável. Depois vem o resto.
    Alckimin, como disse, é só um bocó. O cara, ou caras  que dispararam os tiros meros instrumentos ou conseqüências de uma sociedade doente, pútrida, fétida, mas que, com toda a certeza, o pior odor vem do Planalto, mais precisamente do Palácio.
    E lá que gente como os assassinos (mandantes ou executores) de Celso Daniel, como de todos que tombaram nessa luta por um Brasil no mínimo diferente, nascem e prosperam. O PFL mesmo perdeu deputados acusados de ligações com o tráfico, assassinos, torturadores; o PMDB perdeu Jáder, um super empreiteiro (escapa-me o nome) e boa parte deles continua solta.
    A morte do prefeito de Santo André é revoltante. Pela gravidade causa engulhos. Indigna. Gente como Alckimin, FHC, secretário de Segurança Pública, delegados “experientes” bem que poderiam nos poupar de declarações repetidas ao longo de muito anos em situações semelhantes e que não mudaram coisa alguma.
    Eu  tenho  certeza que os jornais vão começar a noticiar, nos próximos dias, que a decisão do governador geral do Brasil, FHC, de dar uma rápida entrevista coletiva, foi, antes, avaliada sob o ângulo de que estamos num ano eleitoral. Ou seja: se vale ou não a pena falar.
    A vida humana? Essa gente já perdeu a dignidade desde muito tempo. Não dá a minima para isso, só para contas bancárias.

O mineiro Laerte Braga é jornalista e analista político.


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