O jogo de pôquer de FHC, por Laerte Braga
    FHC depenou dois ministros num jogo de pôquer a bordo do avião presidencial na sua última viagem presidencial. A notícia foi dada pelo jornalista Ricardo Boechat em sua coluna no “Jornal do Brasil”, edição de 13 de novembro. Um detalhe: segundo o jornalista, um dos participantes da viagem declarou que o mais difícil é descobrir quando FHC blefa ou não, o cara é um mestre na arte.

    Que o governador geral do Brasil é um  blefador, tanto quanto um  blefe sabemos todos há quase sete anos. Que seu apetite é descomunal isso é público e notório. É o governo mais corrupto da história do Brasil.
    Depenados estamos todos nós. Depenado está o Brasil.
    Privatizado. Entreposto de segunda categoria do capital estrangeiro. Paraíso da especulação, do blefe. Que jogo maior que a política econômica de Malan, Armínio Fraga, determinada pelo FMI? Quantas vezes a aposta foi pega no blefe, com a diferença que os perdedores são os não jogadores, no caso o povo brasileiro?
    O pôquer presidencial, naturalmente, foi um momento de “relax” do governador geral diante da ansiedade, natural também, de estar indo para a sede, a matriz, onde avistar-se-ia com o presidente de fato, George Bush (aos poucos está virando de direito também).
    A expectativa de uma entrevista coletiva à imprensa mundial nos jardins da Casa Branca, lado a lado, senhor e capataz, onde pudesse mostrar sua dimensão de “estadista”, de César contemporâneo, mais que qualquer outra preocupação, deve ter gerado a necessidade de um momento de descontração. Vai daí que, para não perder o hábito, depenou ministros.
    O chato foi a entrevista ter sido cancelada. Foram dois minutos com Bush e pronto. É assim que são tratados os subalternos no governo republicano.
    Se prestarmos atenção aos últimos meses do governo FHC iremos constatar que o dito está, cada vez mais, a cara do Sarney. Começa a perder a dimensão do ridículo. É a proximidade do fim do mandarinato. A percepção que apesar de achar que criou o Brasil à sua imagem e semelhança (quer tentar fazer o mesmo com o mundo, quer ser secretário geral da ONU) chega ao fim. O café, como o que Bush serviu-lhe, já está requentado. Se não foi colombiano.
    Um general do Paquistão hoje vale mais que dez FHCs.
    Eu imagino que os ministros, por outro lado, devem ter ficado felizes de perderem para o chefe. Pode significar que ficam até o fim do governo, ou até quando acharem conveniente. Enriquecerem seus currículos com um jogo de pôquer com o chefe. Contribuíram com algum para a aposentadoria (outra dentre as muitas que já tem) do ilustre passageiro. Pode ser até, tudo é possível na mediocridade que tomou conta do governo, que tenham registrado em fotos o momento de suma importância para suas vidas e, mais tarde, tais fotos acabem integrando um memorial qualquer, desses que o sujeito faz em homenagem a si próprio.
    Devem ter agüentado gozações, lógico. Devem ter sorrido, oferecido o lombo para o chicote e sentido-se, ambos, glorificados por terem estado no lugar certo, no momento certo.
    Não são pândegos, são cretinos mesmo.
    Imagino, inclusive, que não são professores universitários, do contrário não teriam como jogar, estão sem pagamento e tem sido sistemático o desafio do governo geral às decisões judiciais que mandam pagar. Perdidos, editam medida provisória para deslocar, como dizem, o problema para a esfera do Supremo Tribunal Federal, onde esperam que um Jobim da vida garanta a violência.
    Esses podem jogar pôquer com o governador, até porque treinados, vividos, experimentados, sabem tanto quanto ele blefar.
    O meu medo é que, se não conseguir alcançar a Secretaria Geral da ONU, FHC acabe aceitando suceder o Dalai Lama e aí estamos liquidados de vez. O cara já quer abocanhar a proposta do francês Bernard Cassen de uma taxa internacional sobre o sistema financeiro para combater a pobreza. Viciou nessa história de CPMF. Entra para a saúde, em tese, sai para bancos, etc, etc.
    O certo é que ele continua a jogar e com os brasileiros. Com um baralho viciado. Para ele e os seus, todos os ases.

O jornalista mineiro Laerte Braga é analista político.


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