O painel eletrônico e Inocêncio Oliveira, por Laerte Braga
    Todas as vezes que eu vejo o deputado Inocêncio Oliveira falando em “interesses do País e do povo”, não sei porque, mas a sensação que me acode é a de que um ataque de vampiros é iminente. Qualquer coisa me diz que o deputado do PFL é uma degeneração tropical do conde Drácula. O jeito de sua excelência indignar-se com os que não compreendem os altos desígnios do governo – a aparência – e a necessidade de refestelar-se no sangue das classe trabalhadora – a realidade.

    Inocêncio Oliveira é o exemplo pronto e acabado do político sem vergonha. Não tem nenhuma. Anos atrás pegou dinheiro público e abriu poços em suas fazendas. ACM veio em seu socorro, tinha poder àquela época, segurou as pontas. Em seguida, sua mulher foi presa no dia da eleição, em 1998, distribuindo notas de dez reais aos eleitores, me parece que em Serra Talhada. Ficou por isso mesmo.
    Candidato a presidente da Câmara no início desse ano, foi atropelado pelo Planalto e por Aécio Neves e dramático, patético, prestes a saltar na jugular de alguém, proclamou que jamais pisaria no Palácio do Planalto. E foi enfático: “sou um homem de vergonha e de caráter”. Não é não. É um dos muitos sem vergonhas do Congresso e já pisou “n” vezes no Planalto.
    Dócil, subserviente, capaz de carregar FHC às costas, se preciso for, para garantir umas “verbinhas” pros poços nossos de cada dia. O deputado Inocêncio Oliveira é tão repulsivo, asqueroso, que deu a seguinte explicação quando os repórteres foram cobrar-lhe a promessa: “eu não estou pisando lá como Inocêncio, mas como líder do PFL”.
    É o tal “patriotismo, último refúgio dos canalhas”. Típico de PFL, PPB, PTB, os de sempre. Tenho um receio que no curso de todas essas manobras do governo, inclusive a vergonheira do painel eletrônico, no final das contas, acabem acertando o preço do PMDB e os direitos dos trabalhadores voem pelo espaço, como aliás tem sido regra geral deste governo, desde o primeiro momento. É dos banqueiros e os banqueiros querem que os trabalhadores se arrebentem.
    A sessão da Câmara dos Deputados na tarde de quarta-feira foi degradante. Quando tudo parecia indicar que a votação significaria a derrota do governo, o painel não funcionou. O artifício de deputados governistas, declarar obstrução, é típica confissão de quem melou o processo e quer ganhar tempo.
    De sã consciência, o crédito dos deputados governistas é tanto que nem mesmo notórios defensores do governo acreditam que tenha havido um acidente, um defeito. Claro e evidente está que houve uma manobra e aí Aécio Neves tem que se explicar, do contrário perde aquela pose de deputado/magistrado (o que nunca foi) para consumo externo, mas menino esperto de olho no Planalto.
    O quadro atual no Brasil é tão caótico que o Parlamento, encarregado de legislar, é mero homologador das decisões do FMI/Executivo. Quando a coisa desanda e não conseguem seus objetivos, atropelam os princípios mínimos de direito, de respeito ao processo democrático. Aí, roubam a bola e ninguém mais joga. Quem legisla, no duro, é Malan com os técnicos do Fundo Monetário Internacional, todos funcionários de instituições bancárias e a soldo delas.
    A manobra do governo está clara, cristalina: ganhar tempo enquanto acerta-se com alguns cordeiros desgarrados e cantando de touro na tribuna. Sabe que vai ter que pagar mais e sabe que existe o risco de não conseguir segurar as pontas, pois alguns querem continuar na casa – ano eleitoral o próximo – e temem a repercussão negativa de um voto contra os trabalhadores.
    E não se trata de discutir a CLT, de nítida inspiração fascista, já modificada à exaustão segundo os interesses das elites, mas que, de repente, no mínimo que dela resta, assegura que a escravidão não volte a ser escancarada entre nós. Só isso. A questão não é mudar ou não mudar a legislação trabalhista. É assegurar direitos mínimos, é evitar que coloquem coleira, focinheira e reintroduzam a chibata como forma de punição ao trabalhador. Ou confinem-no em senzalas, hoje chamadas de favelas, periferia, coisas assim.
    A luta pelos direitos do trabalhador se dá noutro plano. Essa é de resistência para que possamos sobreviver. Daí o apetite de gente como Inocêncio Oliveira. O natal está chegando e os donos, os verdadeiros donos, costumam ser mais ou menos pródigos com os que lhes servem. É por aí que a coisa passa: escravidão ou não escravidão. Liberdade e direitos é outra história. Até o secretário da Receita, Everardo Maciel, entrou na dança. Está telefonando e pressionando (chantageando) deputados. Fica desigual. Consta que falta dinheiro para a campanha do candidato governista. O compromisso é tirá-lo dos trabalhadores via mudança da CLT. Ou seja, tira deles e dá aos empresários. O dinheiro da campanha é a propina.

Laerte Braga


Consciência.Net