“Casa dos
artistas”, “No Limite”, Soninha e “Casseta e Planeta”, por Laerte
Braga
Os bancos lucram horrores com câmbio
(especulação) e tarifas cobradas aos clientes. É o
que revela o “Jornal do Brasil”. O debate que permeia a mídia nos
últimos dias é sobre a demissão de Soninha que, numa
entrevista à revista “Época”, admitiu fumar maconha. Foi
demitida pela direção da TV Cultura e mantida pela ESPN.
O domingo vira um frison
entre redes nacionais de tevê, repassado aos telespectadores. O dilema
é quem ganha no IBOPE: “Globo” ou “SBT”. Os troféus são
“Casa dos Artistas”, “No Limite”, além dos indefectíveis
“Faustão”, “Gugu”, “Sílvio Santos”, “Show do Milhão”
e o “Fantástico”.
A guerra no Afeganistão
virou coisa banal, corriqueira, só vai voltar a ter interesse se
Bin Laden for preso ou executado.
O jornal “Gazeta Esportiva”,
um dos mais tradicionais do País, o mais completo em termos de informações
esportivas, fechou suas portas, existe apenas na “net”. Os donos de veículos
de comunicação pressionam o Executivo e o Congresso para
que o capital estrangeiro seja admitido em proporção tal
que não signifique controle, nas empresas nacionais do setor. Um
terço é o que propõem. Como se essas empresas não
refletissem a vontade e os interesses do capital estrangeiro. O processo
é apenas de arremate, desfecho. O controle já existe. Soninha
apenas exerceu a compulsiva necessidade que boa parte das pessoas com alguma
fama sentem hoje de exibir-se, expor suas vísceras, mostrar-se.
Ou de fama nenhuma, de viver seus quinze minutos de glória.
Não percebe
que fumar ou não fumar maconha é um problema seu, de foro
íntimo e que não vai mudar o curso da biruta nacional, mas
muda o seu. Está em quase todas as primeiras páginas dos
grandes jornais, nos noticiários da televisão, do rádio,
vai sair em mais revistas, há enquetes sobre se deveria ter sido
demitida ou não e ela própria anuncia uma “cruzada” – está
na moda – para defender o direito das pessoas a tantas coisas.
Fumar maconha certamente
não pode ser uma grande preocupação nacional e esse
tipo de debate apenas esconde o mundo real, fora da mídia,
que reflete, em sua imensa maioria, o imaginário construído
pelo capital. Ou o circo. O pão já se foi há muito
tempo. Um exemplo claro dos serviços que a mídia presta ao
poder, às classes dominantes, está no programa “Casseta e
Planeta”. Inteligente, presta-se a desqualificar tudo e todos que contrariem
a verdade oficial, como se estivesse denunciando mazelas, corrupção
no governo, coisas assim. É um dos mais poderosos instrumentos do
poder e das elites na mídia, parecendo o contrário.
Quem se der ao trabalho
de prestar atenção vai constatar isso sem dificuldade alguma.
O de ontem, terça-feira, dia 20. A enquete realizada no final sobre
o paradeiro de Osama Bin Laden. Se aqui, se ali e aqui e ali incluídos
o Rio Grande do Sul e Juiz de Fora. É curioso que os dois governadores
dos dois estados sejam os únicos a resistirem ao governo geral de
FHC.
O programa chega a
ser preconceituoso com gaúchos e mineiros, sem falar na forma preconceituosa
também com que tratou homossexuais. Um gaúcho diz a Bin Laden
que lá não existem cavernas, mas pode abrigar no “meu buraco”
e vira-lhe a bunda. Em “Juizdeforaquistão”, terra do governador
Itamar, Bin Laden recebe o oferecimento de asilo: “você pode ficar
no meu meio”. “Você vai ser meu vice”. “Vice não, eu vou ser
é cabeça de chapa, vice é você”.
Perfeito no afirmar,
no insinuar, no carimbar o gaúcho como se frouxo fosse (é
o sentido que dão ao homossexualismo, por isso o preconceito). Perfeito
no carimbar, insinuar sobre Itamar e rotulá-lo como terrorista.
Coincidência ou não, um dos irmãos de Bussunda é
diretor do Banco Central.
Se alguém procurar
qualquer crítica a FHC para além do óbvio nas várias
edições do programa, não vai achar nada, pois
o papel do programa, no contexto da mídia oficial, é apenas
de liquidar com os inimigos de FHC. Fazem assim também, na coluna
de “Agamenon” no jornal “O Globo”, todos os domingos. Parecem críticos,
mas são dóceis. E dóceis bem remunerados. Cumprem
um papel. E sinceramente, sem qualquer radicalismo, apenas vergonha cara:
mineiro ou gaúcho com um mínimo de brio não vê
a “Globo”. Aliás, dizia Stanislaw Ponte Preta – Sérgio Porto
–: “o melhor da televisão é o botão de
desligar”.
A mídia no Brasil
não é um problema a ser visto a partir de conquistas tecnológicas,
tantos cenógrafos, tantos artistas empregados, nada disso. Que aliás
é mera ilusão. A mídia hoje, pelo menos do ponto de
vista do jornalista, são os baixos salários, as demissões
constantes, a exploração do trabalho profissional, toda a
sorte de abusos. A mídia virou espetáculo e espetáculo
da pior espécie.
Laerte
Braga
Consciência.Net