Um monte
de luzes, por Laerte Braga
O que espantou e eletrizou adolescentes
e mesmo alguns adultos, anos atrás, no filme “Jogos de Guerra”,
foi aquele fascinante mundo de computadores, luzes, botões, “games”
e um monte de gente correndo para salvar a humanidade, para evitar a guerra
nuclear, a hecatombe.
Um dos computadores,
o principal, havia sido acionado e começara a
jogar um jogo de destruição,
levado a sério pelo comando militar. Um
mocinho, menino, sua namorada e um cientista
amargurado pela perda do
filho acabam salvando tudo e todos.
Todo esse aparato de
defesa/ataque montado dentro de uma caverna, à prova de foguetes,
ogivas nucleares, essas coisas que marcaram o dia a dia da guerra fria.
O ser humano dependente de ser um jogo real, ou irreal... Da máquina.
Charlie Chaplin fez
“Tempos Modernos” para retratar a desumanização dos trabalhadores
diante de complexos sistemas de produção. Todos proporcionando,
sempre, lucros crescentes ao capital. Bons anos antes previu todo esse
aparato, toda essa coisificação do ser humano.
Dois filmes são
magistrais no trato dessa relação homem máquina. “Barbarella”,
onde Jane Fonda, pela imaginação e direção
de Roger Vadim, percorre o inconsciente das relações humana/sexuais
– a sexualidade do ser – mergulhada/atônita nas descobertas tecnológicas,
espantada diante da constatação que o modo comum de viver
é o ideal, ou pelo menos próximo disso. Menos doloroso.
Vadim integrava uma
geração de diretores permeado pelo Existencialismo de Sartre,
muitas vezes trazido à tela de uma forma vulgar, mas outras com
extraordinária beleza, como o “Acossado” do magistral Jean Luc Goddart.
O outro filme, produzido
em Hollywood e sem diretores ou nomes famosos, pelo menos ao que me lembre
e não me lembro do título, mostra uma sociedade dominada
por um computador, muito antes de “2001, Uma Odisséia no Espaço”,
do fantástico Kubrick. Perversa, arrogante, a máquina impõe
um regime de terror até que alguém resolve desligá-la
na tomada.
Há uma comédia,
essa mais recente, “Corra que a Polícia vem aí” em que o
ex-presidente norte-americano George Bush, pai do atual, é ridicularizado,
mostrado em sua inteira condição de idiota, onde o policial
herói salva os Estados Unidos quando tropeça no fio, desliga
a tomada e evita que uma bomba nuclear exploda.
Foi difícil
entender beduínos no deserto do Iraque, na chamada Guerra do Golfo,
correndo de um lado para o outro, montados em seus cavalos e brandindo
suas cimitarras contra os aviões norte-americanos. Mas foi mais,
bem mais, que um gesto impotente de revolta. Foi curiosamente um gesto
de vida.
O general norte-americano
George Patton, uma figura controvertida e um dos principais estrategistas
da Segunda Grande Guerra, dizia que a “as guerras perderam o sentido desde
a invenção do tanque e dos aviões. Guerra boa é
cara a cara, como nos velhos tempos, no máximo revólveres
e alguns rifles”.
O filme que retratou
sua vida mostra o horror de centenas de mortos num campo de batalha. Haviam
lutado com baionetas, corpo a corpo, pois combustível e munição
tinham se esgotado. Ao chegar ao local, Patton, que acreditava-se a reencarnação
do general grego Leônidas, proclamou: “meu Deus que maravilha”. E
ao encontrar um sobrevivente, ferido, próximo da morte, quis um
relato do combate. E enquanto ouvia sussurros do ferido, que aos poucos,
bem cinematograficamente, ia fechando os olhos, beijou-lhe a testa e pespegou-lhe
uma medalha que arrancara de seu próprio peito de general cinco
estrelas.
O general Patton fora
forçado por Eisenhower, comandante militar aliado e mais tarde presidente
dos Estados Unidos, a pedir desculpas publicamente, diante da tropa, por
ter esbofeteado um soldado que baixara hospital alegando problemas psíquicos.
Patton não admitia
isso. O soldado, anos depois, morreria como faxineiro de um grande prédio
numa grande cidade norte-americana (o jornalista Cícero Sandroni
registrou o fato em sua coluna no “JB”, à época). Patton
morreu em condições misteriosas até hoje pouco depois
do fim da guerra. Dizia que os norte-americanos deveriam aproveitar a oportunidade
e avançar “até Moscou”. E, além disso, conservara
figuras importantes do nazismo na administração do que viria
a ser a Alemanha Ocidental.
O escritor Gore Vidal
opôs-se, publicamente, à guerra contra o Afeganistão,
ou contra os Talibãs. Ou pelo menos à maneira como ela está
sendo conduzida.
Para capturar um terrorista
destrói-se um país inteiro, mata-se um sem número
de civis. Cria-se o horror da destruição aos olhos do mundo
inteiro, nos moldes dos filmes em que policiais/heróis destroem
cidades inteiras para capturar um único criminoso, um único
bandido, ao qual sempre atribuem poderes especiais de várias “etiologias”.
É a lógica/lição
do imperialismo diante do desafio. Diante do revés nos insanos
atentados de 11 de setembro.
A lógica das
cavernas recheadas de armas, de luzes, de um monte de computadores, de
bombas, de seres humanos frios e insensíveis, comandados por botões
que disparam games reais, tudo em nome da liberdade.
Não há
a menor diferença entre Bin Laden e Bush. Ou entre Sharon e eles.
São apenas criminosos.
O que há de
fato é a terrível docilidade dos seres humanos, cada vez
mais coisificados diante de uma realidade brutal. Diante do ser ou não
res, tornamo-nos reses. A imagem da estupidez permeando a alma de cada
um. E houve quem defendesse censura a “Barbarella”, por imoralidade. Por
sugerir conduta devassa. É por não entenderem essas coisas
que gostam de apertar botões.
Vão acender,
dentro de dias, as luzes do Natal. Trocar presentes e com toda a certeza
Bush, Blair, Sharon e outros menos votados – inclusive o nosso – vão
falar em mundo salvo. Bin Laden, se vivo até lá estiver,
em guerra santa. Tudo feericamente iluminado.
Laerte
Braga
Consciência.Net