O lobo e o cordeiro, por Laerte Braga
    Qualquer semelhança entre a fábula de La Fontaine e a postura reformista de determinados setores da esquerda não é mera coincidência. Ingenuidade em alguns setores, esperteza em outros.

    Não importa qual seja a resposta que se vá dar ao lobo. De qualquer forma ele vai descer e devorar o cordeiro. É o seu objetivo.
    Essa situação lembra Muhamad Ali quando lhe perguntaram se derrotaria George Foreman, ou se realmente estava acabado para o box. Ali foi contundente em seu estilo agressivo: “Foreman só é forte, mas não sabe lutar box. Vou nocauteá-lo e provar que sou o melhor, o único”. E repetiu a velha cantilena: “não luto por dentro, só luto por fora. Do contrário entro no jogo dele e aí perco”.
    O lobo devorou o cordeiro, na fábula e Ali surpreendeu o mundo nocauteando Foreman (um sobrevivente da era Jurássica) no sétimo round, com dois “jabs” – um golpe que não costuma ser dos mais fortes, mas nele era demolidor – . A luta foi no antigo Zaire.
    Para entender essa aliança entre a social democracia européia e a social democracia brasileira é preciso remontar a eleição de George Bush.
    Clinton foi um dos mais hábeis presidentes dos Estados Unidos, mesmo com aquele jeito de menino grande – aliás fundamental para o seu sucesso. Blair e Lionel Jospin tiveram excelentes relações com o democrata que, entre coisas, sabia a diferença entre uma taça de vinho e uma de champanhe. Bush bebe vinho em copo de plástico.
    A vitória do republicano assustou os setores sociais democratas da Europa, seja porque a visão de mundo de Bush termina no Texas e é sabido que não masca chicletes e anda ao mesmo tempo, do contrário cai e não levanta mais. Fica. E seja, também, porque representa os mais atrasados setores do capitalismo norte-americano, gente que olha debaixo de suas respectivas camas todas as noites, antes de deitar, com medo de comunista e terrorista.
    A impressão que se tinha diante da fraude clara que levou o republicano à Casa Branca é que, em pouco mais de seis meses, Bush perderia as condições de governo, a credibilidade, até porque aguardava-se, ainda que nada pudesse ser modificado, havia uma decisão da Suprema Corte, que a contagem real dos votos, patrocinada por vários setores da mídia norte-americana, comprovasse o que qualquer um sabe: fraude.
    Vai daí que uma turma explode dois aviões contra o World Trade Center, um contra o Pentágono, tudo com direito a transmissão ao vivo para o mundo inteiro e dá a George Bush a escada para a sobrevivência política, traz de volta o discurso do patriotismo, o do “último refúgio dos canalhas” e coloca a todos, os da OTAN, na defensiva. Defensiva diante do radicalismo islâmico, como diante da insanidade de Bush.
    Começa a tal operação “Liberdade Duradoura”, tipo assim matar cem civis com bombardeios inteligentes e errados.  Devastam o Afeganistão, assestam as baterias contra o Iraque, a Somália, tanto quanto transformaram em pó o México, o Equador, a Argentina e a nós também, é só questão de tempo.
    A primeira semana da guerra, seja por conta das bombas/inteligentes/equivocadas – não existem equívocos senão na linguagem oficial, para justificar aos setores mais “sensíveis”, digamos assim, foi um fracasso. Os bombardeios, no Kosovo, sob Clinton, ou o Afeganistão, sob Bush, diferem apenas na vaselina que um usa e outro não. Instala-se a sensação que Bush está diante de seu Waterloo.
    Vai daí que Clinton reúne-se, num final de semana, justo naquele em que alguns jornais dos Estados Unidos divulgam que os resultados estavam errados e que Gore havia ganho na Flórida, governada por Jeff Bush, irmão do George Walker, mas, reúne-se com Tony Blair, na incômoda condição de “embaixador” do governo Bush e chama FHC, o que segundo Millôr Fernandes afirma que “pensa que FHC é superlativo de PhD”. De comum acordo, mas para não dar muito na pinta o chanceler alemão, Schroeder, e o primeiro ministro francês, Lionel Jospin, que permanecem em suas casas.
    Armam o esquema para que FHC fale pelos “periféricos” na Assembléia Francesa, no que seria a primeira crítica real ao louco que ocupa a Casa Branca (diante das dificuldades no Afeganistão e dos votos a menos contados na Flórida), tudo próximo da Assembléia Geral da ONU e contam liquidar a fatura no máximo até o final do ano que terminou.
    Erraram ao não perceber que um insano não mede conseqüências e que Bush mesmo não achando Bin Laden, iria, como de fato fez, liquidar com o Afeganistão, até para não incorrer no que chama “erro” do pai, que ganhou a Guerra do Golfo, mas Saddam está lá até hoje. E foi um erro feio, crasso, de principiante.
    O quadro hoje e nos próximos meses, pelo menos até o meio do ano, é favorável a Bush, mesmo que se saiba que, num determinado momento, vai pegar o sorvete e meter na própria testa.
    “Descendo a ladeira comendo umas goiabas”, como dizia Stanislaw Ponte Preta, a saída da social democracia européia, tanto quanto da brasileira, era única: uma aliança para enfrentar os riscos de gente como Berlusconi, ou Aznar, em toda a Europa. O governo dito socialista de Portugal é um exemplo disso: deve ir para o brejo nos próximos três meses.
    Aqui, o PFL, partido original nesse negócio de neoliberalismo, sistema financeiro internacional etc., inventa um “collor de saias”, ameaça a pose britânica de FHC, de Serra e quejandos, logo, alguma coisa tem que ser feita.
    Muitas estão sendo feitas e, dentre elas...
    ... Dentre elas o Fórum Social Mundial.
    Como? Não ouviu bem? O Fórum Social Mundial.
    A turma pensa que é preciso beber a água bem abaixo do lobo para não provocá-lo e, se for o caso, até fazer meia volta e dizer que não está com sede.
    O primeiro problema que a social democracia brasileira, de acordo com a européia, resolveu atacar de frente foi o governo Olívio Dutra. Com a costumeira confusão entre teoria e prática que Leonel Brizola faz, colocaram o PDT à frente e armaram a maior quizumba no Rio Grande, tudo para inviabilizar a reeleição de Olívio.
    Como está, com o que tem dito, a eleição de Lula não muda nada, não oferece risco algum para eles. Olívio sim.
    O FSM muito mais.
    O que concebem é simples: ao invés de discussões e debates sobre a conjuntura internacional, seus efeitos devastadores em países como Argentina, Brasil, em vários na Ásia, na África quase que toda, ou toda, propõem a discussão sobre os efeitos positivos das proteínas da carne de rã do ranário de Mme. Barbalho no organismo; o melhor horário para o banho de mar para evitar o câncer na pele; óculos especiais para enxergar os eclipses que possivelmente possam vir a acontecer, se é que vão acontecer (e não enxergar sequer a ponta do nariz). Coisas do gênero.
    E ainda comendo goiabas, FHC dá uma entrevista onde afirma que depois que deixar o governo vai cuidar de uma ONG associada a organização ATTAC, para defender a Taxa Tobin, que, por si só, é uma idéia reformista. Sua aceitação tem apenas o sentido de tentar diminuir a fome, a miséria, a pobreza, etc.
    E mais: o cara aqui, FHC, propõe, logo de saída, que ao invés de fundo para combater a pobreza, a taxa preste-se a fundo para pagamento das dívidas  de países como o Brasil, etc, etc.
    Ou seja, uma espécie de PROER internacional. Qualquer banqueiro que escutar FHC falando vai topar de cara, pela simples razão que, dez anos depois, as dívidas vão continuar do mesmo tamanho, o problema não é pagar. São impagáveis. O efeito Argentina é exatamente esse: acender luz vermelha para turma do capital e ensejar mecanismos aparentemente voltados para melhorar a situação geral, no duro mesmo, para manter tudo como está, ou como diz o deputado José Genoíno, ”o fluxo continua”.
    Cassen entra nisso como um braço diminuto, mas nesse momento, com alguma importância, pois é o presidente, dono, qualquer coisa assim, não quer largar a rapadura de jeito nenhum, de uma organização forte, com presença expressiva em vários países do mundo periférico, sobretudo no Brasil e...
    E aí cabe a ele propor a discussão em torno das proteínas da carne de rã e evitar que o presidente de Cuba, Fidel Castro, venha ao Brasil, ao FSM, propor, claro, uma discussão política. Além do que, até fotógrafo do “Globo” vai preferir fotografar Fidel a Cassen. E isso, para o francês é o fim da picada. Afinal não pode ficar sem palco, ainda mais agora que rompeu seu acordo com seus companheiros franceses, quer continuar presidente da ATTAC e abriu o capital de seu jornal, “Le Monde Diplomatique”, o que significa que ações serão vendidas na bolsa e o capital pode comprar sem colocar em risco a credibilidade de ninguém, no caso ele. O dinheiro chega “limpo”.
    E mais, a ATTAC faz parte do grupo que coordena a organização do Fórum Social Mundial.
    Imaginar, no entanto, que ao afirmar que Bernard Cassen é deles, do capital, implique em afirmar que todos os atacantes sejam como ele, além de ridículo, beira a uma patologia. É mais ou menos como aquele cara que vai trabalhar na “coca cola”  e recebe, como aula/treino, instruções para referir-se à empresa, como a “nossa empresa”, numa “integração capital/ trabalho”. Isso até ser posto no olho da rua, para que alguém ocupe o seu lugar e faça o mesmo ganhando menos. A lógica exploradora do capital, simples e perceptível a olho nu.
    A história começou por aí, reação da social democracia européia e brasileira a Bush e sua insanidade (mas que não pode ser assim tão aberta, tem que ser maneira, dissimulada, senão o cara manda bala), tentativa de sobrevivência e coisa e tal.
    A presença de Fidel ou a não presença do governante cubano passa por isso. O objetivo de gente como Cassen é esse: tudo menos discutir política, conjuntura internacional e seus efeitos em todo o mundo e em cada país isoladamente.
    Aí vem com esses argumentos chinfrins de que desvia os reais propósitos do Fórum, pois a mídia vai deixar de lado discussões importantes para centrar tudo em Fidel, ou qualquer governante que porventura baixe lá. Essas bobagens.
    O desvio de propósitos é deles. Só deles.
    Não querem mudar coisa alguma, só reformar. Só dar um conserto aqui, outro ali e pronto.
    Não percebem que são apenas os cordeiros nessa história toda. Ou por outra: percebem, mas o deles está salvo. É só isso.
    Se mais é possível, querem combinar o resultado da luta antes, grossa marmelada. Jogo de cena. Nem lutar por dentro lutam, já perderam antes do gongo soar.

O mineiro Laerte Braga é jornalista e analista político.


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