Insanidade,
por Laerte Braga
A decisão do primeiro ministro
Ariel Sharon de confinar Yasser Arafat aos territórios Palestinos,
impedindo-o de sair e se sair, de retornar, é um ato de terrorismo,
pura insanidade, viola todos os princípios de direito e exige que
a ONU e as nações de todo o mundo tomem providências
para acabar com a violência e a barbárie sistemáticas
de Israel contra os Palestinos.
É claro que
isso não vai acontecer, pois a insanidade estende-se a Washington
e Sharon age com o aval de George Bush.
Se examinarmos os fundamentos
com que os Estados Unidos definem Osama Bin Laden como terrorista e os
aplicarmos a Ariel Sharon, não existe diferença alguma. Ou
por outra: a lógica do mais forte. Osama é inimigo das liberdades
compreendidas nos limites do “american way life” e Sharon apenas as defende.
A sensação
e a certeza que Ariel Sharon é um assassino e pratica crime de genocídio
contra o povo Palestino é algo que permeia boa parte da opinião
pública mundial e mesmo setores normalmente favoráveis a
Israel começam a entender que os exageros são inaceitáveis.
Dentro de Israel vários grupos defendem o fim dos assassinatos oficiais
e a retomada dos diálogos para a paz.
E nem Sharon e nem
Bush estão aí para isso, acreditam piamente, como todo louco,
ou como todo idiota, no caso de Bush, que têm tarefas e missões
divinas a cumprir.
Por detrás de
toda essa crueldade a disputa pelo petróleo, entre outras coisas.
São governantes a soldo de interesses econômicos, representam
grupos e o resto...
O resto... Dane-se!
Entre nós o
“Jornal Nacional” encarrega-se de montar todo um noticiário com
efeitos especiais e transforma as cavernas afegãs em fato principal.
E tem “jornal nacional” no mundo inteiro.
O jornalista João
Saldanha costumava dizer que os times que jogam sem pontas – houve uma
tendência assim no futebol numa determinada época, falta de
jogadas pelas laterais – simplesmente “abrem mão de um espaço
do campo, enviesam o campo que, de tal forma tromba um com o outro, ficam
iguais à baratas tontas, todo mundo no mesmo espaço”. É
mais ou menos como deixar de enxergar a realidade, todo o conjunto de fatos
que ocorrem nos dias de hoje e vai significar que, quando acordamos, os
mariners, sem qualquer exagero, estarão às nossas portas
determinando o que é bom, ou o que é ruim. Em nosso caso
temos um presidente alienígena. Mero executor de ordens do capital.
Sem pudor e, a essa altura do campeonato, sem qualquer preocupação
em dissimular seu papel, seus objetivos. Se olharmos para toda a extensão
do campo, iremos concluir, como Saldanha, na crônica que alerta para
a falta de pontas: “o adversário come o mingau pelas beiradas”.
O noticiário
de hoje dá conta de uma base militar norte-americana em território
argentino. Aqui, passam batido pelo Congresso Nacional, com firulas de
modificações para garantir nossa soberania (sic), a entrega
da base de lançamentos de Alcântara et por cause do controle
da Região Amazônica, tanto quanto abrem perspectivas para
ações militares contra a Colômbia. Denúncia,
aliás, que o brigadeiro Ivan Frota fez de forma explícita
numa entrevista que concedeu a um programa de televisão. O jogo,
no entanto, na mídia, corre pelo meio, embolado, deliberadamente
embolado. O “x” de todas as questões é quem ganhou de quem
no domingo, Faustão ou Gugu, “Casa dos Artistas” ou “Fantástico”.
Quem costumava espantar-se
com os filmes de Bruce Willys, em que o ator encarnando um policial, ou
um justiceiro, destruía meia cidade, cidade inteira, para capturar
um serial killer, tudo em nome da ordem, da lei, deve estar perguntando-se
sobre a bomba de sete toneladas contra uma montanha/caverna do Afeganistão.
Deve ler o artigo de Robert Fisk, em vários jornais brasileiros
[Nota do editor: também no Consciência.Net]], sobre a agressão
que sofreu de refugiados afegãos.
Há uma ofensiva
insana e de crueldade nunca vista contra todos os povos do mundo e praticada
pelo governo norte-americano e suas principais províncias, Inglaterra,
Itália e outras menores. Bush (sobretudo, claro, o que ele representa)
quer consolidar a hegemonia do império e de tal forma que toda e
qualquer resistência se torne impossível, inócua. Os
americanos bloquearam um acordo que impediria o desenvolvimento de armas
químicas e biológicas, notícia de hoje, pois atrapalharia
seus programas para tanto, ou como afirmou o jornalista Ricardo Boechat,
“quando se trata dos seus interesses Tio Sam chama antraz de meu louro”.
É a hipocrisia
típica do capital, dos donos do mundo. São umbelicalmente
ligados: violência, barbárie e hipocrisia. Completam-se e
são essenciais para o terror maior, o terror norte-americano. A
imagem do prefeito de Nova Iorque, Giulianni, ao lado de Sharon, cumprimentando,
num hospital, vítimas do “terror” palestino dá a dimensão
disso. E as vítimas palestinas? No último atentado do governo
de Israel duas crianças morreram.
Bin Laden foi só
o pretexto para um idiota inconseqüente e arrogante como Bush deflagrar
um processo de dominação total de todo o mundo. Montado num
poderio militar fantástico e na convicção bárbara
que basta agradecer no dia de “Ação de Graças”. Que
“Deus está comigo”. É curioso esse “deus” que elege um povo
e exclui dos demais.
É, literalmente,
aquela velha história contada por Darcy Ribeiro, sobre a origem
do “Estado”: “o mais inteligente chamou o mais esperto e combinaram que
um seria o rei e outro o sacerdote, interpretando com exclusividade os
sinais dos céus. Por via das dúvidas chamaram o mais forte
para descer a borduna em quem se metesse a discordar”. De tal forma esse
“Estado” foi aperfeiçoado que até um Bush pode governar.
Estamos diante do mesmo
dilema daquela sobrevivente de Hiroshima: “a saída, onde fica a
saída? ”. É uma luta de resistência, para que possamos
sobreviver. É a definição clara e precisa de Rosa
de Luxemburgo: “ou socialismo, ou a barbárie”.
Laerte
Braga
Consciência.Net