“Globo”: uma
história de fraudes, mentiras e poder, por Laerte Braga
Os principais jornais do Brasil,
hoje, dão destaque a operação montada pelo BNDES –
Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social –, uma empresa
pública, para salvar o “Sistema Globo de Comunicações”,
a maior e mais poderosa empresa do setor no País. São 800
milhões de dólares, oriundos do FAT – Fundo de Ampara ao
Trabalhador –, para evitar que a “Globo” afunde mais ainda. Dessa vez por
conta da aventura da “Globo Cabo”, um dos mais retumbantes fracassos do
grupo Marinho.
A história da “Globo”
começa com “O Globo”, fundado há 77 anos por Irineu Marinho
e até hoje comandado por seu filho Roberto Marinho, um nonagenário
cujo poder já foi comparado ao do personagem norte-americano que
inspirou Orson Welles a escrever e dirigir aquele que é considerado
o maior filme de todos os tempos: “Cidadão Kane”.
“O Globo” é o principal
jornal do grupo e foi por volta de 1962 que o grupo começou a cogitar
de televisão, um negócio ainda incipiente no Brasil e dominado
pela cadeia “Diários Associados”, de Assis Chateaubriand, outro
que foi equiparado a “Kane”.
Em 1962 o governador do
Rio Grande Sul, Leonel Brizola, denuncia que grupos norte-americanos começam
a investir em comunicações no Brasil, sobretudo no mundo
da televisão e que a empresa de Roberto Marinho é a principal
beneficiária desse esquema a que chama de “estranho apetite do capital
estrangeiro”. “Se é estranho, é lógico que tem alguma
coisa por trás”, completava seu raciocínio o governador,
então candidato a deputado federal no antigo Estado da Guanabara
– hoje Estado do Rio – e que era, nada mais, nada menos que a antiga capital
do Brasil, a cidade do Rio de Janeiro.
Em 1964, João Calmon,
senador capixaba e presidente do condomínio dos “Diários
e Emissoras Associados”, herdeiro de Assis Chateaubriand, na inusitada
forma de legar seus bens adotada pelo empresário nordestino, denuncia
que nova “Tevê Globo” vem com o dinheiro do grupo Time-Life (hoje
Time/Warner) e constitui-se uma agressão ao Brasil.
Calmon, que era um homem de
direita, começa a perceber que o barco “Associado” está afundando
e que a nova rede nada em recursos. A essa altura Brizola já estava
no exílio e o principal aliado do senador e empresário é
o deputado de extrema direita Amaral Neto, conhecido como “Amoral Nato”,
também já falecido. O golpe militar já havia acontecido.
A primeira rede nacional, se assim se pode dizer, de televisão,
era a Tupi, dirigida por Calmon. Amaral Neto, anos depois, com o patrocínio
da ditadura, ganha um programa patriótico para mostrar o “milagre
brasileiro”.
Programas especiais são
feitos para denunciar a derrama de dólares na “Globo” e nada disso
adiantou. Os militares, afinados com a política norte-americana
e necessitando de uma rede nacional de televisão para propagar o
golpe e a “nova ordem” anticomunista, não tomam conhecimento das
denúncias, aceitam a “Globo” e nasce aí um império
que associou um dos períodos fascistas da história do Brasil,
a ditadura de 64 e uma nova rede de comunicação, que fez
da fraude e da mentira, os alicerces de seu poder.
Dessa época para
cá a “Globo” só fez crescer e o poder de Roberto Marinho
contrapôs se aos dos seus patrões brasileiros, de tal forma,
que muitos diziam que a sede do governo era na sede do “Globo”, à
rua Irineu Marinho, no Rio de Janeiro. O impedimento de Collor de Mello,
por exemplo, que arrastava-se no Congresso por conta dos receios em relação
ao vice Itamar Franco, só foi deslanchado e consumado depois que
o mineiro visitou Marinho em sua casa, no bairro Cosme Velho, levado pelo
senador e ex-presidente José Sarney.
O “sistema” hoje tem várias
emissoras e afiliadas por todo o País, cobre literalmente todo o
território nacional. Vários jornais em diversos estados,
uma cadeia nacional de emissoras de rádio, opera fora do setor de
comunicações e, em larga escala, mas começa a sentir
os efeitos das fraudes e mentiras construídas ao longo de todos
esses anos.
O “Cidadão Kane”
brasileiro, na prática hoje presidente nominal do grupo, dá
sinais de decadência, de perda de poder e o império ameaça
ruir. Dívidas geradas por empréstimos no exterior, portanto
em dólar, desatinos administrativos (na verdade, monopólio,
tinha a prática de comprar programas, promoções e
eventos que pudessem atrapalhar sua audiência para, simplesmente,
impedir os concorrentes de fazê-lo, com freqüência no
mundo dos esportes), toda a sorte de falcatruas de um poder absoluto, odiado
e temido ao mesmo tempo.
As outras três
principais redes de televisão do Brasil (Sistema Brasileiro de Comunicações
– SBT – controlada pelo ex-camelô Sílvio Santos; Bandeirantes
e Record, essa da “quadrilha evangélica”), reagiram de formas diferentes,
mas todas estupefatas com a anunciada “operação salva Globo”.
O mais explícito foi o vice-presidente da Rede Bandeirantes, Antônio
Telles que, efetivamente, denunciou a “negociata”. Telles chegou a dizer
ao jornal “Folha de São Paulo” que “meses atrás havíamos
consultado o BNDES sobre um empréstimo e a resposta foi negativa,
sob o argumento que não “operamos com empresas de mídia”.
O calvário da “Globo”
começou a ficar visível com o sistema de tevê a cabo.
Tem hoje cerca de 35 mil quilômetros de cabos instalados no País
e 1,5 milhão de assinantes, a metade do que supunha viria a ter,
quando do início das operações. Confiando no
dinheiro público e na trajetória de liderança, de
poder absoluto, a “Globo” acabou atropelada pelo que Antônio
Telles chama de “erros empresariais”, para concluir que “o País
estaria pagando a conta desses erros”. Isso na hipótese de vir a
ser confirmada a operação.
Os últimos dias
foram pródigos em manobras da rede no sentido de colocar o governo
contra a parede, mesmo não tendo o poder de anos atrás, sobretudo
quando da época dos governos militares. E no velho estilo de extorsão,
usado sempre que necessário.
Uma das manobras finais
na tentativa de salvar a empresa da debacle, chegaram a admitir vender
parte do controle acionário e até perder esse controle, no
caso do sistema de tevê a cabo, começou com um dos seus campeões
de audiência: a novela o “Clone”, aliás, maior audiência
da televisão brasileira.
Amigos de Sarney, dono
da retransmissora da “Globo” no Maranhão, pegaram um bom dinheiro
com a governadora Roseana Sarney e realizaram uma série de filmagens
que normalmente seriam feitas no Saara, no Marrocos, na região dos
chamados Lençóis Maranhenses, uma impressionante formação
natural, de beleza e esplendor quase que inigualáveis e que Roseana
sugeriu que fosse resultado de seu governo.
Os Marinhos e o PFL, partido
dos principais banqueiros que operam no País, transformaram a governadora
em mais forte candidata da direita. Isso tanto significava que se FHC quisesse
o apoio da “Globo” para José Serra teria que pagar e pagar bem,
como que Roseana eleita estariam terminados os problemas do grupo.
Registre que quando
presidente da República, José Sarney tinha como ministro
das Comunicações o baiano Antônio Carlos Magalhães,
dono da retransmissora da “Globo” no seu Estado. Um festival de concessões
de canais de tevê e rádio a amigos/políticos do governo
e, principalmente, da “Globo”, consolidou o domínio da empresa.
Para se ter uma idéia desse poder, os programas de horário
nobre da “Globo” chegavam a alcançar índices superiores a
60% dos aparelhos ligados contra 5 ou 6% da Segunda colocada.
Parte do complexo de dominação
das elites brasileiras, a “Globo”, todo o sistema, viveu da fraude, sustentada
pelo dinheiro público – vive ainda – e vendendo mentiras e ilusões
aos brasileiros. Num determinado momento chegou a aventurar-se na tentativa
de uma rede européia, mas naufragou. Seu único produto de
exportação continuam a ser as novelas, xaropadas onde coloca
as “verdades” que deseja, tanto quanto desinforma. E, para ser justos,
algumas delas de valor indiscutível, como as do falecido teatrólogo
Dias Gomes.
O “Jornal Nacional”, transmitido
diariamente pouco depois das 8 horas da noite, é o veículo
oficial das elites brasileiras, dos interesses de bancos, transnacionais,
latifundiários. A notícia não é uma preocupação,
mas a versão que interessa a essas elites.
Ignorou a campanha das
diretas até que recebeu sinal verde de grupos ligados ao ex-presidente
Ernesto Geisel e que apoiavam Tancredo Neves. Comícios realizados
pelo Brasil afora eram ignorados, então, o fato jornalístico
de maior importância no País.
O impedimento de Collor
foi outro momento vergonhoso do noticiário global: quando milhões
de brasileiros saiam às ruas pedindo que o presidente inventado
e eleito pela “Globo” – proprietário da retransmissora no Estado
de Alagoas –, a rede ignorava o fato em seu principal jornal televisivo.
Só noticiou depois das garantias que Itamar Franco, o vice, assegurou
a Roberto Marinho, na conversa em sua casa no Rio, pelas mãos de
Sarney.
O episódio Roseana
é um caso clássico de extorsão, chantagem. Levou a
candidata a altos índices nas pesquisas de intenção
de votos e crucificou a candidata, sem a menor contemplação,
depois que FHC mandou o BNDES “salvar” o grupo. E sempre no “Jornal Nacional”,
o noticiário de maior alcance da tevê brasileira, hoje ainda,
com audiência média de 38%.
Outro pesadelo que a rede
vive é o crescimento de duas outras redes: O SBT, que derrota a
“Globo” em vários horários e começa a roubar importantes
patrocinadores e a Rede Recorde, ligada ao bispo Edir Macedo e sua quadrilha
evangélica. Sílvio Santos, um animador de televisão,
ex-camelô, está sendo sondado pelo PFL para substituir Roseana
Sarney como candidato do partido contra José Serra. A Recorde
apoia Garotinho, governador do Rio. Sonha com um estado teocrático,
embute no candidato o projeto de “aiatolá” brasileiro, mas com uma
diferença: a corrupção praticada em larga escala em
nome de Deus.
A “Globo” deve 1,8 bilhão
de reais, quase todo esse valor atrelado ao dólar. O BNDES tem
5% do capital da “Globo Cabo” e a operação está sendo
montada com aval do Banco do Brasil – uma das últimas estatais brasileiras
– a pretexto de aporte de capital por parte dos sócios. Só
que o minoritário, com dinheiro público, paga os mais altos
custos, pois entra com a maior parte do dinheiro, lógico, a fundo
perdido.
Um aspecto que chama a
atenção nesse momento é que, pela primeira vez, a
“Globo” depende de estender o chapéu e implorar o dinheiro. Não
tem mais o poder que tinha, não pode impor. As denúncias
em torno da negociata podem atrapalhar o processo, inviabilizar, até
porque o ano é eleitoral e FHC, que tem o hábito de mastigar
e cuspir seus aliados, quando transformados em bagaço, ao contrário
dos outros presidentes, pode complicar a vida de Roberto Marinho.
Se vai correr o risco,
a rede ainda tem muito poder, ainda é a líder em audiência,
mesmo desmoralizada, é outra história. Mas, se tiver certeza
que sai ganhando, manda a “Globo” às favas e livra-se de um problema.
Vai depender de como Sílvio
Santos vai ficar na história (com Serra ou contra Serra, candidato
ou não) e se Garotinho desiste e a Recorde contenta-se com o que
recebe atualmente do esquema de poder no Brasil.
Os investimentos de
2 bilhões na “Globo Cabo” só trouxeram prejuízos,
sem falar nos outros “negócios”. Pagou mais de 200 milhões
de dólares pelos direitos de transmissão dos jogos da copa
do mundo de maio/junho e não conseguiu nem revender a outras redes,
como imaginava e nem os patrocinadores que sonhava. É um retrato
do Brasil nos tempos de FHC: corrupção, um cheiro fétido
de coisas podres.
Um fato definitivo sobre
a “Globo”: quando da morte do cantor Agostinho dos Santos, num desastre
aéreo com um avião da VARIG (empresa brasileira), na cabeceira
do aeroporto de Orly, em Paris, o diretor de jornalismo da rede, em São
Paulo, montou um esquema para a repórter do “Jornal Nacional” chegar
junto com a notícia da morte, na casa da família do cantor,
possível isso pelo fuso horário. Transmitiu ao vivo a reação
da filha de Agostinho dos Santos. A repórter, uma iniciante – sempre
usam gente assim para esses expedientes – sabia da morte do cantor, fez
parte de um script revoltante.
A “Globo” é isso
e muito mais. Como quando editou o debate presidencial de 1989, ao saber
que Lula passara Collor de Mello nas pesquisas, nos dois últimos
dias antes das eleições. Virou o jogo com mentiras.
Ah! Ia me esquecendo:
RBS, uma rede do Sul do País ligada às elites e contrária
ao governador do Rio Grande, Olívio Dutra, é uma das sócias
da Globo Cabo. A Microsoft é outra, além do BNDES.
O mineiro Laerte
Braga é jornalista e analista político.
Consciência.Net