E a Ford? ACM vai fazer o quê?, por Laerte Braga
    Há no mínimo 18 anos atrás o programa “Globo Repórter” mostrou um hipotético congestionamento absoluto. O palco foi a cidade de New York, todos os carros saíram num determinado momento de vários pontos da cidade e, num determinado ponto, começaram a não mais ter onde ir, ou como voltar.

    A simulação, à época, pareceu meio catastrófica, algo bem ao desagrado da indústria automobilística, mas causou algum impacto, tanto nos Estados Unidos, onde foi exibida originalmente (daí a “Globo” ter comprado o programa), como no estado além mar da Grã Bretanha e, lógico, aqui.
    O automóvel ganhou a dimensão de parte integrante do ser. Se não era possível voar com asas como Ícaro desejou, tornou-se real dirigir um veículo a 120, 130 quilômetros por hora. Vem daí voar no chão. O pasmo com que algumas pessoas, muitas aliás, plantam-se diante de um aparelho de televisão (outro ícone) para assistir a provas automobilísticas. Quando os bólidos costumam ultrapassar a 300 quilômetros horários.
    O poder da indústria automobilística, em todo o mundo, resulta menos do que o automóvel representou como conquista para encurtar distâncias, permitir acesso onde d. Pedro ia a cavalo e levava uma, duas semanas.
    É o imaginário das pessoas, construído pacientemente, na lógica cruel do capitalismo, fazendo crer que um “rabo de peixe”, os antigos conversíveis, seriam capazes de fazer com que Marilyn Monroe desse um passeio em “seu” carro.
    Força igual só a dos bancos, do rádio e a da televisão.
    Eu me recordo de uma definição precisa de um falecido trovador que, ao observar o desdém com que um amigo tratava sua mulher, belíssima e a atenção dispensada a um velho “buick”: “Você bota o carro na cama e a sua mulher na garagem”. Representou o fim de uma velha amizade.
    Anos depois, bem depois, já mortos os dois protagonistas dessa historinha, uma das fábricas de automóveis, no Brasil, lança um comercial no qual a mulher aparece dirigindo um determinado carro, em manobras arrojadas, altas velocidades, até chegar à sua casa e o marido aflito passa por ela e um buquê de flores, para conferir se tudo estava certo no carro, nenhum amassadinho.
    Eu, até hoje, impressiono-me quando vejo um daqueles automóveis equipados com um potente sistema de som, que todos, num raio de uns cinqüenta metros são obrigados a ouvir. Soa-me como um avestruz impotente teimando em executar a dança do acasalamento. A música, geralmente horrível, da pior qualidade, assume a proporção de falo. Substitui. Uma outra fábrica até mostrou um carro que tem tudo, mas o cara não tem nada.
    No Brasil não é diferente. O sujeito acredita piamente no “deus” automóvel.
    Acompanhei, por força até de trabalho, as negociações para a vinda de uma fábrica de Mercedes Benz, para minha cidade, Juiz de Fora. Espantava-me a subserviência de homens de governo, os rapapés para dirigentes alemães da empresa e o volume de delírios perpetrados em entrevistas a jornais locais e, dada a dimensão do investimento, estaduais e nacionais.
    Milhares de empregos diretos, outro tanto indiretos, mais arrecadação para investimentos em saúde, educação, etc. Benefícios incontáveis. O custo da Mercedes é pago pelo cidadão. Cada carro produzido na cidade custa mais de 1 mil reais aos cofres públicos estaduais e mais de 250 aos cofres públicos municipais, logo, ao contribuinte.
    Os empregos? Menos de ¼ dos prometidos. Os impostos? Não há a mínima idéia real, já que toda a sorte de incentivos e privilégios foram concedidos para que a empresa viesse a instalar-se na cidade. Os tais altos salários? Ficção.
    Já foram gastas páginas e páginas para mostrar que a opção pelo transporte rodoviário no Brasil, em detrimento do ferroviário, foi, acima de tudo, incapacidade e corrupção por parte dos governantes.
    Em 1962, em pleno governo Goulart, logo após o reatamento de relações diplomáticas e comerciais com a União Soviética, uma exposição de produtos soviéticos e do mundo comunista foi montada no Pavilhão de São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro. Foi transformada em entronização do demônio entre nós. A direita deitou e rolou e uma das observações críticas da grande imprensa foi, exatamente, sobre os carros expostos. Os especialistas criticaram a falta de bom gosto no design; carros pesados; falta de maior potência, poucas opções de cores e, sobretudo, um único modelo de carro de passeio. Houve um que usasse a velha expressão “mundo cinzento, sem cadillac”.
    Em nenhum momento deram a menor atenção ao significado do automóvel no mundo socialista: transporte, veículo para tal. Feito para durar muitos anos, nada dessa compulsão de modelos novos a cada ano, diferentes, o que se vê por aqui. Existem muitas implicações nessas diferenças, mas não são o caso aqui. Pelo menos uma análise mais detida.
    A história é outra.
    O governador Olívio Dutra cometeu o “crime” aos olhos do capital de desprezar a “Ford”, justo a empresa que leva o nome do inventor do automóvel. Não quis bancar, com dinheiro público, a instalação da empresa em seu Estado.
    Foi execrado, apontado como atrasado, o de sempre. E a “Ford” foi para a Bahia, a terra de Antônio Carlos Magalhães. Há duas ou três semanas atrás, um evento em Salvador, foi marcado por faixas que diziam: “ACM é a Ford”; ou “A Ford é ACM”.
    A “Ford”, como a Mercedes aqui, não representou e nem vai representar a transformação das terras baianas em um novo Eldorado (já o são desde que “criadas”. A “Ford”, antes, destrói). Pelo contrário. Não gerou os empregos anunciados. Não significam os recursos gerados a partir de impostos pagos e cantados em prosa e verso para os cofres públicos e...
    ...A “Ford” mundial não vê lucros há cinco anos. Toda a diretoria da empresa mudou neste ano de 2002. O novo presidente anunciou a demissão de 35 mil trabalhadores em todo o mundo (8 mil nos Estados Unidos) e o fechamento de algumas fábricas. Tudo isso para que os lucros voltem a engordar seus cofres e num prazo máximo de dois anos. A “Ford” baiana dificilmente será uma das fábricas fechadas. A máfia que dirige a associação de indústrias automotivas no Brasil, como de resto em todo o mundo, já descobriu que a mão de obra paulista é mais cara que a baiana; a mineira; etc, etc.
    É mais ou menos como a “Reebock”, ou a “Nike” fizeram no Timor e, certamente, fazem em outras partes do mundo. Lá, com o beneplácito de uma ditadura podre, já derrubada, a de Suharto (líder anticomunista). Aqui, historicamente, com a convicção de nossos governantes que estávamos como quê na idade das diligências e a indústria automobilística significaria o ingresso no mundo civilizado. E o por fora, evidente.
    Tudo indica, pelo menos até agora, que a “Ford” possa terminar suas atividades no Estado de São Paulo, transferi-las para a fábrica da Bahia, onde os custos são bem mais baixos, em todos os sentidos. Mão de obra barata e as vantagens que, na prática, decorrem do Estado privatizado, a serviço dos grandes grupos econômicos. Paga o cidadão. Paga a conta da “Ford”, como a “Ford”, é claro, vai pagar as campanhas de ACM.
    É a primeira decisão tomada no âmbito da empresa com relação ao Brasil. Se der certo, tudo bem. Mesmo porque existem implicações políticas nisso tudo. Já imaginaram fechar fábricas de automóveis no ano da mexicanização do Brasil? Quer dizer, da eleição de Serra a qualquer preço e com qualquer fraude? O nosso PRI – Partido Revolucionário Institucional?
    Não vai demorar muito e teremos filmes magníficos em todos os sentidos, mostrando o “Ford” baiano. Vão tentar associá-lo ao que de fato é a Bahia. Mostrá-lo como parte integrante da “baianidade”.  Transformá-lo em realização do povo baiano.
    É por aí que a coisa vai rolar. Se não der certo...
    Fábrica hoje o sujeito monta aqui, desmonta ali, são vários segmentos produzindo as várias partes do produto final (uma lógica para destruir a identidade do trabalhador) e se precisar, se necessário for, passadas as eleições, fecha, transfere.
    Uma indústria dessas, quando instala-se numa cidade, num Estado, num País e, a soma de indústrias assim, assume também o controle dessas cidades, desses estados e do País. Vamos continuar a achar que um automóvel traz de brinde a Sharon Stone. Que a calça “Lee” liberta. Que a “Globo” informa. E a esperar o jornal de segunda-feira para ver se Sílvio Santos ganhou ou perdeu o festival de baixarias da televisão brasileira. É questão crucial. O próprio capital cria e estimula essa forma de compensação de vencer o mais forte através do mais fraco, o mais esperto. A realização que acontece no outro. É o ápice da perversidade. Da dominação.
    E viva a “Ford”.

O mineiro Laerte Braga é jornalista e analista político.


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