Fernando Henrique,
o homem dos bancos, por Laerte Braga
Dados sobre o período
Fernando Henrique Cardoso mostram que o único setor de atividades
no Brasil que não sofreu “turbulências” nesses sete anos e
meio foram os bancos. Comércio e indústrias lascaram-se.
Levantamentos feitos pela
INESC – Instituto de Estudos Sócio Econômicos –, uma ONG voltada
para o estudo dos gastos públicos com políticas sociais,
mostra que FHC, em seu segundo mandato, vai gastar o equivalente ao orçamento
de um ano para pagar juros e amortizar a dívida externa do Brasil.
405 bilhões de reais serão pagos nesses quatro anos – 1999/2001
– sendo que, nos dois primeiros, 289 bilhões de reais.
A dotação
para saneamento básico no orçamento de 2001, o programa “Saneamento
é Vida”, era de ordem 72 milhões de reais, redondos, mas
nada foi gasto. Para o programa “Saúde do Trabalhador” estavam previstos
quase 8 milhões de reais, mas menos de 12% foram gastos.
E assim, todos os programas
sociais do governo FHC. Bancos foram e continuam sendo prioridade.
Um dos aspectos mais relevantes
da política de submissão total do governo FHC ao FMI e ao
Banco Mundial, para além da política econômica, é
o de que o princípio federativo – o Brasil seria uma república
federativa segundo a constituição de 88 – desapareceu. Estados
e municípios não têm autonomia senão em questões
mínimas.
A Lei de Responsabilidade
Fiscal, comum ao Brasil, Argentina, Bolívia, Equador, México,
Colômbia, etc, apresentada como fundamental para a moralização
dos gastos públicos e definição de responsabilidades
de governadores e prefeitos, na prática, amordaça-os e transforma-os
em prisioneiros da política econômica geral, a de Mr. Peter
Malan, delegado geral do FMI para o Brasil.
O governo FHC é
um prodígio de comunicação e marketing.
O controle de todo o sistema
de comunicações de massa no Brasil pelo capital, agora acentuado
com a abertura à participação do capital estrangeiro,
criou no brasileiro comum a sensação de que ruim com ele,
pior sem ele, se o estupro é inevitável, relaxe.
O brasileiro médio
planta diante da televisão para assistir programas de voyeurismo
explícito, como a versão nacional do holandês “Big
Brother”, ou o plágio disfarçado e chamado Casa dos Artistas,
na expectativa de assistir em canais de tevê aberta cenas de sexo
explícito – ainda não aconteceram – e pessoas comuns ou artistas
exporem suas vísceras, realizando e comprazendo-se nesse orgasmo/televisivo,
produzido e dirigido nos programas “pare, não pense, mas vote no
que a gente mandar”. Ou a sensação que, de repente,
o próprio vai poder estar lá disputando um prêmio em
dinheiro e sendo mostrado para todas as pessoas em todos os cantos.
É esse o clima
criado, é esse o imaginário vendido pelo PFL em relação
a Roseana Sarney. A idéia de uma mulher presidente da República
não passa pela luta das mulheres, mas por um produto pronto e acabado
de sugestões implícitas e explícitas de que, como
o messias judaico, ela pode bater à sua porta, sentar, tomar café
e, quem sabe ficar.
Tudo isso é a soma
da sociedade transformada em espetáculos diários, alguns
escatológicos, outro de tamanha vulgaridade, mas todos perpassando
a couraça do cidadão comum contra mediocridade, entrando
em nossas casas e ditando as regras: você morre de infarto aos 50,
mas faz parte do contexto, é um cidadão com número
em todo esse processo de despersonalização do ser.
O que isso tem a ver com
gastos sociais reduzidos? Com pagamento da dívida externa? Com a
possível eleição de Roseana Sarney? É como
marrom glacê cobrindo um prato de jiló. Acabou o marrom glacê,
fica amargo, muito amargo, mas o sujeito come, faz parte do jogo.
Não há ponto
sem nó, como diz um antigo ditado popular. É uma só
ação, um só objetivo. A disputa entre os grandes é
apenas para ver quem comanda saque ao botim, quem dita as regras, quem
assina o cheque, quem nomeia. E quem vem como acessório.
Gastos com políticas
sociais são ilusões criadas pelo governo no orçamento,
peça de ficção, exceto no que diz respeito aos bancos
internacionais, o que, normalmente, vem por debaixo dos panos, muitas vezes.
O Brasil de FHC é
um país dominado e gerenciado por bancos, a partir dos critérios
dos bancos. Fazem o que querem e, dentre o que querem, está não
terem nenhuma responsabilidade quando lesarem clientes (lesam o tempo todo),
cometerem erros.
São bancos e como
disse um professor universitário há cerca de dois anos: “a
arqueologia encontrou escolas como marco de civilizações
passadas. Entre as maravilhas do mundo estão obras de inesgotável
beleza, algumas delas preservadas. Os arqueólogos do futuro, em
suas escavações, acharão sedes requintadas e reluzentes
de bancos, a marca registrada dos nossos tempos”.
Bancos são como
aqueles vulcões da antigüidade em que sacrifícios eram
feitos para aplacar os deuses. O governo FHC não tem feito outra
coisa. E com uma diferença: o feiticeiro, como todos feiticeiros,
é o mais esperto.
O mineiro Laerte
Braga é jornalista e analista político.
Consciência.Net