Farsa democrática, por Laerte Braga
    Uma das características do neoliberalismo é romper com a estrutura tradicional de divisão das tarefas de governo em três poderes, hipoteticamente harmônicos e independentes entre si. Sobral Pinto, quando instado por um carcereiro militar a aceitar a “democracia a brasileira”, disse que “isso não existe. Democracia não é como peru, a califórnia, ou a moda. É democracia pura e simples”.

    Em quase onze meses de governo George Bush avançou de maneira desmesurada e deliberada sobre os direitos civis nos Estados Unidos. O caráter imperialista da maior potência do mundo, mais que nunca, está evidenciado. Os atentados de 11 de setembro apenas aceleraram o processo. O presidente já vinha dando mostras de pouco apreço a uma ordem institucional democrática, até porque produto da fraude eleitoral, o que torna lícito presumir que objetivos bem definidos estivessem na agulha.
    Não há a menor diferença entre a ação militar norte-americana no Afeganistão e outras em passado não tão distante assim. As diferenças situam-se no campo da informação. Vacinados desde a guerra do Vietnã, onde cometeram toda a sorte de atrocidades, os americanos perceberam que era preciso controlar a mídia e a mídia dos Estados Unidos e do mundo, de um modo quase que absoluto, aceitou o controle.
    Como questionar, agora, o avanço sobre os direitos civis, se foram cúmplices no processo de mentiras oficiais? Os bombardeios de alvos civis no Afeganistão só vieram a público na medida que uma pequena rede de televisão, no Catar, anunciou que os depósitos da Cruz Vermelha haviam sido atingidos. Ou que hospitais estavam sendo bombardeados. Sem a menor explicação, mas com toda a desfaçatez possível, a mídia ocidental acabou tendo que admitir que as tais bombas inteligentes não eram tanto assim, lembravam o próprio presidente Bush.
    A nova ordem norte-americana, em defesa da liberdade, da justiça, definidas e pontuadas por Bush, prevê desde detenções sem culpa formada e em caráter de incomunicabilidade, a julgamentos secretos, onde o acusado não pode sequer escolher o seu defensor.
    Retomamos aos campos de concentração onde eram colocados japoneses ou seus descendentes na Segunda Guerra Mundial. Só que, desta vez, muçulmanos, árabes de um modo geral, imigrantes no todo. A soberba dos poderosos. A presunção de povo eleito, ungido.
    Quando da realização das Olimpíadas de 1996, em Atlanta, no Estado da Geórgia, um jornalista da “Rede Bandeirantes” mostrando a cidade aos telespectadores do “Show do Esporte” e os locais onde seriam disputadas as provas olímpicas, os pontos considerados principais de Atlanta, entendeu de entrevistar moradores e ouvir deles opiniões sobre o evento.
    Ficou estarrecido ao perceber que mais da metade dos que ouviu opunha-se às Olimpíadas. Um desses entrevistados foi claro: “esses porcos chegam aqui fazem uma sujeirada terrível, não estamos acostumados com isso. Quebram a nossa tranqüilidade e ainda temos que sustentá-los.” O jornalista poderia ter dito que o mundo inteiro sustenta os Estados Unidos e somos os principais responsáveis pela prosperidade deles, construída à custa do mais deslavado imperialismo.  Seu objetivo, no entanto, era deixar claro que atletas negros, os de países árabes, asiáticos e africanos, seriam vítimas de preconceito e recomendou inclusive a brasileiros que lá estivessem que evitassem determinados lugares para não serem alvos de hostilidade contra estrangeiros.
    Há pouco mais de seis meses a Corte Suprema de Israel referendou uma decisão de alguns anos atrás permitindo a tortura em prisioneiros palestinos, “desde que no interesse da segurança do Estado”.
    O destrambelhamento do governador geral do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, que transformou o Congresso em mera secretaria legislativa do Executivo e pretende fazer o mesmo com Poder Judiciário, sobretudo agora, diante do impasse na greve dos professores universitários e dos servidores públicos, é outra ponta desse processo célere do pensamento único, da hegemonia perversa do capital.
    A verdade única, absoluta. Seja nas palavras de um sujeito que em campanha acreditava que Talibã fosse uma “banda de rock”, seja no fundamentalismo dos grupos que controlam o Estado de Israel. Seja na vocação ditatorial de FHC – o príncipe sem coroa. Ou seja na insanidade de Bin Laden, que aliás permeia a todos eles.
    A primeira decisão de Fujimori no Peru, logo depois do golpe, em seu primeiro mandato, foi a  de cercear as atribuições do Judiciário. Não existe, não importa quando aconteceram, se ontem, ou hoje, desde que estabelecido o chamado Consenso de Washington e implodida a União Soviética, acaso ou coincidência nessas atitudes. É parte de um processo. Por mais que haja obviedade em fazer tal afirmação, estamos diante do “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. A pílula da felicidade vem a cores, em aparelhos de 29 ou mais polegadas. O ideal capitalista neste momento é o de ressuscitar o que se dizia de Átila, o rei dos Hunos: “por onde passa o cavalo de Átila, não medra a grama”.
    São as bombas de Bush.
    As medidas provisórias e os decretos de FHC.
    O fundamentalismo de criminosos fanáticos como Ariel Sharon, como Bin Laden.
    A sórdida campanha de banqueiros, empresários, latifundiários contra Olívio Dutra.
    O desmonte do Estado democrático, com todas as implicações que isso significa, para dar lugar ao Estado privatizado e a serviço de um mundo cercado de muros e entupido de bombas.
    O papel do Poder Judiciário, nesse tipo de concepção, tem que ser o de uma secretaria judiciária do Executivo, onde implementa-se a “nova ordem econômica”, o mundo do pensamento único. Da verdade única. A deles.
    A resistência é para que possamos sobreviver.
    A idéia que determinada marca de calça jeans signifique liberdade. Ou que “Casa dos Artistas”, ou “No Limite” simbolizem modo de vida, faz parte desse processo. Transforma a todos nós em “coisas”. Objetos.
    Eu não me lembro agora o autor, mas há um romance extraordinário que conta a história de prisioneiros judeus num campo de concentração nazista. Um dos presos, desejoso de dispor de melhores condições de vida e diante da notícia que havia morrido o cachorro do comandante, oferece-se para substituí-lo.
    Lambe-lhe os pés. Como não sei, mas abana-lhe o rabo. Busca-lhe os chinelos. Dorme no tapete ao lado da cama do “dono”. Essas coisas que os cães fazem. Não hesita em ficar em duas “patas” para ganhar um torrão de açúcar e...
    ...Terminada a guerra, arrebentados os arames que cercavam os campos de concentração e libertos os judeus, percebeu que não conseguia ser outra coisa que não um cachorro.
    É o que querem que sejamos.

Laerte Braga


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