“Nada pior que ex”, por Laerte Braga
    Marlene Dietrich e May West, duas extraordinárias mulheres e atrizes, manifestaram, quase que com as mesmas palavras, suas respectivas repulsas aos “ex”. A opinião de ambas era definitiva: “nada pior que ex”.  May West, sempre que perguntada por um ex sobre “relembrar os velhos tempos”, respondia “por que não os esquecer?” Dietrich era mais incisiva: “de tão velhos perdi-os na memória”.

    São raros os ex com senso de ex. Via de regra voltam-se contra o passado, negam o que fizeram, alguns como FHC pedem para que “esqueçam o que escrevi”.
    Raul Jungman, ministro da Reforma Agrária (onde?) é um deles.
    Ex-comunista, o cara virou direita brava, pior, pau para toda a obra, desde que os patrões sejam latifundiários, banqueiros, os donos  do governo (governo? Que governo? Ah! O deles).
    Virar ou deixar de virar; ser ou não ser, isso é problema de cada um. O interessante é que a maior parte dos que viram, deixam de ser, passa pelo “dilema” de pegar ou largar. Ou seja: o confronto da convicção com o interesse pessoal mais deslavado e podre. Aquela história de 40 dias no deserto que, no caso dos nossos ex, não passa de um dia, o demônio não precisa fazer tanta força e de quebra, sabe que o terreno é fértil.
    Raul Jungman, candidato a deputado (naturalmente que será uma das campanhas mais ricas, claro, o latifúndio está aí para isso, assegurar seus privilégios), em entrevista ao “Jornal do Brasil”, edição de 30 de novembro, faz críticas ao MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra –, o que é legítimo desde que a sério.
    O ministro prefere enveredar pelo terreno da mentira, da desqualificação, faz coro ao discurso do latifúndio e acusa o movimento de radicalismos inconseqüentes, que teriam levado-o ao rompimento com a Igreja e pisa num terreno complicado, quando fala em malversação de recursos públicos.
    É difícil para um sujeito que saiu da compreensão do mundo pelo “nós” e passou para o “eu”, absorvendo como tal um “eu” maior, o do latifúndio, é difícil entender um movimento que funda-se na ação coletiva.
    Mas é cretina a afirmação do ministro, desonesta, daquele tipo de recado mandado para os patrões, os que pagam, mais ou menos assim: “estão vendo, podem confiar que eu sou capaz de qualquer negócio para ter o apoio de vocês. Vendo a mãe se preciso for. E preciso de tanto para ser deputado”.
    Refiro-me a acusação de “malversação de recursos públicos”. São pródigos em afirmações deste jaez os membros do governo. Todo mundo que é contra ou não presta, ou não sabe, via de regra está metendo a mão. Ou é caipira, não entende os altos desígnios tucanos.
    E não foi o MST quem ficou uma noite inteira no Palácio do Planalto, com Jáder Barbalho, discutindo como evitar a CPI da Corrupção. E nem é o MST que tem lideranças padrão deputado Inocêncio de Oliveira (o homem dos dez reais).
    A reforma agrária como processo de desapropriação de terras e assentamento de camponeses, isso, é pura e simplesmente uma prática do capital. Foi feita no Japão pelo general Douglas McArthur, que tinha fama de fascista, como forma de quebrar o poder dos barões mais atrasados daquele país (mas bem menos atrasados que os nossos. A diferença está na esperteza dos daqui).
    Só que a questão envolve outras coisas mais, bem mais significativas que aquelas duas ações: desapropriação e assentamento.
    É preciso recuperar alguns fatos para melhor entendimento.
    O primeiro deles, a célebre visita de FHC a países da Europa, ainda no primeiro mandato, quando afirmou que “os brasileiros resistem às mudanças, pois é um povo caipira”. Cobrado por alguns setores do capital internacional, quis na prática tanto quanto rotular o brasileiro de “atrasado”, resistente ao “progresso”, tentar desqualificar junto a determinados governos e organismos europeus movimentos populares que por lá encontravam e encontram apoios claros e expressos (afinal na Europa ainda se come comida, o hambúrguer não virou pão nosso de cada dia).
    O MST é um dos movimentos populares, aliás o com maior prestígio, que mais apoio recebe de várias organizações e setores de governos da Europa, sobretudo os voltados para os direitos humanos. Estarrece a qualquer cidadão com princípios mínimos de direitos humanos a situação do camponês brasileiro.
    E além disso, o governador geral – já havia assumido a opção –, deixava claro também que caipira ele não era e poderiam ficar, o que aliás mostrou-se verdade padrão Monteiro Lobato – “batalolina de Bayer” – , descansados – os donos –, que tudo ficaria como “acertado”.
    Ao receber a notícia que policiais do Pará haviam massacrado camponeses em Eldorado dos Carajás, o governador geral Fernando Henrique foi claro e enfático aos jornalistas que tiveram acesso a ele: “quem procura acha”.
    Horas depois, ao tomar conhecimento da gravidade do caso, com o cinismo e a sem vergonhice que lhe são peculiares, falou em “providências enérgicas”, “direitos humanos”, temeroso, principalmente, da repercussão dos crimes na opinião pública internacional (é o que mais preocupa a ele, afinal é um deles plantado aqui).
    O professor Gilberto Felisberto Vasconcelos, em entrevista que concedeu a este jornalista, em 1999, publicada pelo “Correio da Cidadania”, fala da importância do MST como instrumento de resistência à transformação da Amazônia em área internacional. E vai fundo, quando diz “que os americanos querem a Amazônia sem gente, pois querem a biodiversidade da região, a energia do futuro que lá está, a biomassa. O MST quer a Amazônia e o Brasil inteiro com gente, pois existe para a gente brasileira e não para o capital internacional”.
    Há dias circulou pela rede mundial de computadores um e-mail dirigido a milhares de internautas (chegou a merecer reportagens em jornais impressos) sobre um suposto livro didático de autor norte-americano, onde o mapa do Brasil aparece sem a Amazônia, apontada como “região internacionalizada”.
    Atribuiu-se a brincadeira a radicais de esquerda, a fanáticos, malucos, o de sempre. Em momento algum pensou-se que aquilo não poderia vir a ser mais uma das trapalhadas dos órgãos de inteligência, exatamente com o objetivo de desqualificar o debate que se trava em torno da cessão da base de lançamentos de Alcântara, num acordo militar com os Estados Unidos.
    Levar na brincadeira, transformar em piada uma ameaça real, clara e cada dia maior.
    A quem servia o tal mapa? A quem servia, serve, desacreditar uma realidade, transformá-la em “fantasia”?
    O advogado Roberto Magellan foi um dos primeiros e analisar o e-mail e a mostrar uma série de pontos capazes de justificar essa hipótese, ou mesmo essa afirmação.
    Fantasia  que dizem as línguas oficiais. Coisa de gente que não aceita o progresso, o futuro, que quer ver o Brasil preso a estruturas arcaicas. As críticas do ministro Jungman têm esse objetivo. Prestam a isso: transformar o MST, aos olhos da opinião pública, em movimento onde a corrupção é prática (julga por ele mesmo e pelo governo que integra), onde o atraso é o objetivo. E na exata medida que sua entrevista serve a todo esse conjunto de ações destinadas a transformar o Brasil em mera província do capital norte-americano, prestar-se aos objetivos expansionistas dos Estados Unidos, ainda mais agora, sob o governo de um maluco montado num monte de bombas e foguetes, dirigido pelo mais violento setor do capital, os tais “falcões”.
    O que há é um processo e Jungman quando fala o que falou, busca o seu espaço nesse contexto entreguista, busca assegurar sua permanência no esquema, o governo está terminando.
    A lembrança dos fatos acima serve apenas para ilustrar e deixar claro isso: um processo de desmanche e privatização do Brasil. E assim é preciso enfrentar aqueles que, verdadeiramente, constituem-se focos de resistência. O MST é o principal.
    O resto fica fácil: o binômio dinheiro/informação (denunciado pelo sociólogo Mílton Santos) encarrega-se de bombardear o brasileiro com “Casa dos Artistas”, “Gugu”, “Faustão” e num espaço entre uma novela e outra, o “Jornal Nacional” cumpre o seu papel de “hora do Brasil” na televisão.
    O MST vira o grande satã. Jungman sai do deserto, na sua condição de ex-comunista, tendo resistido e vencido as tentações. Posta-se como anjo da guarda da democracia, da moralidade no trato da coisa pública e vira deputado com apoio do latifúndio.
    Enquanto isso, no Planalto, continua o filme “O Dia que o Hambúrguer Substituiu o Feijão com Arroz para Sempre”. Como se o trabalhador brasileiro ainda tivesse arroz e feijão.
    Mudar de opinião é um direito de qualquer um. Legítimo e muitas vezes saudável. Mas mudar de opinião é outra coisa no caso Jungman. Não é uma descoberta de novos caminhos. É uma questão de salário, de ganhos. A corrupção não é no MST.

Laerte Braga


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