Montes de estrume, por Laerte Braga
    Nikita Kruschev lambeu as botas de Stalin durante todo o período em que aquele governou a União Soviética. No filme que tenta biografar o governante soviético há um momento, logo após os generais terem comunicado a Stalin que a Alemanha havia invadido a Rússia, que o dito entra num violento processo de depressão/perplexidade, seja por não saber o que fazer, seja por não querer acreditar que o pacto Ribentropp-Molotov houvesse sido rompido.

    Stalin refugia-se num dos seus apartamentos no Kremlin, por lá fica com algumas prostitutas e muitas garrafas de vodca e a URSS pára. Dias depois, atônitos e sem direção, os integrantes do governo, Kruschev à frente, batem na porta e perguntam a Stalin o que fazer, “a mãe Rússia está à espera de seu líder”.
    Bêbado, não tanto que o impedisse de entender a situação, Stalin chama Kruschev de “monte de estrume”, pergunta por que não o mataram se o temem e o odeiam tanto e estica as pernas, os pés na direção ao "camarada", determinando que ele calce-lhe as botas. Kruschev calça. Stalin saiu dali e ganhou a guerra. Não importa que os comandantes tenham sido Zukov ou Bulganine. E outros. Stalin ganhou a guerra. Anos depois Nikita Kruschev, secretário geral do PCUS – Partido Comunista da União Soviética – exorcizou o demônio. Os males enfrentados pela URSS decorriam dos erros e da estupidez de Stalin, era preciso corrigir os rumos. Uma das providências foi o traslado do corpo do governante – morto em 1953 – para fora dos muros do Kremlin.
    Lambe botas existem em todo o mundo. Maiores ou menores. Chamem-se Tony Blair, ou Fernando Henrique Cardoso. Desde o fim da União Soviética e do advento do que chamam “Nova Ordem” reverenciam a um único senhor: o presidente dos Estados Unidos e, lógico, o que ele simboliza e representa.
    A célebre reunião de Blair, FHC e Clinton, em um fim de semana em Londres, aconteceu num momento que as operações militares tinham resultados incertos, apresentavam alguns fracassos e surgiam as notícias de Bush fora, realmente, produto de uma fraude eleitoral.
    O discurso de FHC na Assembléia Francesa foi por conta desse encontro serviria para dar início a uma ofensiva anti-Bush, até porque, publicamente, era u’a mudança na política externa da província brasileira, um arroubo do governador geral do Brasil, num esquema para enfraquecer o presidente norte-americano.
    Tudo acertado, às vésperas da Assembléia Geral das Nações Unidas, o que ensejaria mais um discurso crítico, mas esqueceram de combinar com o Talibã, com a Aliança do Norte, os grupos tribais do Afeganistão e Bush ganhou a guerra e é até possível que encontre Osama Bin Laden, uma espécie de escalpo que vai exibir ao mundo em nome da “Liberdade Infinita”.
    Menino de recados por força da situação de total dependência de seu país, hoje província do império dos Estados Unidos, mais que tropas, dinheiro, Blair andou pelo mundo fechando acordos com governantes refratários a alianças com o presidente Bush e em suas viagens prometeu a Arafat apoio ao Estado Palestino, censurou o criminoso de guerra que ocupa o governo de Israel, buscou dar a impressão que era algo mais que mero lambe botas. Queria parecer parceiro de Bush.
    A destruição do Afeganistão sepultou a notícia da fraude eleitoral. Bush tem prestígio alto e apelou para o que mais sensibiliza os norte-americanos: patriotismo, misturado com basquete, Hollywood e “coca cola”, transformando o país numa grande Brodway. E com tal competência (é um mero robô, não pensa, mas é bem programado, cumpre tudo direitinho) que a articulação de Clinton, pelo menos por enquanto, fez água. O candidato democrata, favorito nas eleições para prefeito de Nova York, um exemplo, acabou derrotado por um milionário fascista, bem ao estilo dos novos tempos, tempos texanos.
    FHC mal foi recebido por Bush, fez um pronunciamento esvaziado nas Nações Unidas, atropelado pelos fatos e recolheu-se à condição de governador geral de uma província, voltou ao “faremos tudo que o mestre mandar” (está aí a mudança na CLT determinada pelo FMI) e agora... Bem! E agora, estão todos estupefatos com o grau de boçalidade de Bush. Com sua estupidez genética, temerosos que sinta-se uma espécie de general Patton e saia pelo mundo afora bombardeando  tudo o que lhe desagrade, principalmente, destronando Saddam Hussein, para pagar promessa ao pai Bush  (Bush não se conforma de ter perdido as eleições para Clinton e Saddam estar no poder até hoje – Bush  pai). Isso é definitivo sobre as “características” da família (muito bem tratada num artigo de frei Beto).
    Blair, FHC, Chirac, são secretários que costumam lavar as mãos antes de comer. Conhecem vinhos; apreciam charutos eventualmente (Clinton entende mais do “ramo”); não são chegados a hamburguer, àquelas parafernálias vendidas em máquinas em todo o território norte-americano, enfim prestam-se a qualquer papel, mas gostam de estar arrumados como se valessem alguma coisa no cenário mundial, pelo menos dar a impressão, principalmente em seus países, pois lá disputam eleição e “ganham o pão”. E que pão, com direito a vôo para o Caribe, Jersey, etc.
    Bush autorizou o massacre genocida de palestinos. Bush quer invadir o Iraque. Bush que invadir a Somália. Bush quer ações militares contra a Colômbia e para isso quer a base de Alcântara, quer completar o domínio político, econômico sobre o Brasil, estendendo-o ao territorial. E os caras?
    Olha, com perdão da palavra, como disse Stalin para Kruschev: “um monte de estrume”.

Laerte Braga


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