Copolla teria
inveja. Marlon Brando? Nem pensar, por Laerte Braga
A prisão de Jáder
Barbalho foi decidida em Brasília, bem como a operação
“sigilosa” que levou o ex-senador algemado para um cárcere
da Polícia Federal. “Sigilosa”, a pretexto de evitar fugas, mas
lá estavam a “Globo” e outras redes, todas avisadas previamente
do que aconteceria. O objetivo foi um só: diminuir o preço
do apoio da parte de Jáder no PMDB ao candidato José Serra
e evitar alguns inconvenientes com eventuais associações
de um com outro.
É preciso notar
que há dois dias atrás os jornais divulgaram pesquisas de
opinião onde Collor e ACM aparecem com absoluto domínio no
eleitorado de seus estados, Alagoas e Bahia. Jáder aparece em terceiro
lugar na disputa para o Senado, no Pará. Seria, ou será,
quem sabe, no máximo, candidato a deputado federal. Queria pagamento
do preço de tabela de senador para apoiar Serra. Detém votos
preciosos no PMDB e controla o partido no seu estado.
Vai sair da cadeia, claro,
ficar “pianinho” e receber na tabela de deputado federal. Jáder
Barbalho foi o principal articulador do desmonte da CPI da corrupção.
Era um dos signatários do requerimento do PT – Partido dos Trabalhadores
– para apurar toda a sorte de banditismo praticado pelo cappo de tutti
cappi, Fernando Henrique Cardoso. Passou a madrugada no Palácio,
na véspera da votação. Era presidente do Congresso
e foi o responsável por uma convocação extraordinária,
às pressas, em cima da hora, com o intuito de esvaziar, além
da manobra de criar um prazo para quem quisesse retirar a assinatura do
requerimento. Salvou FHC de ter expostas vísceras podres de seu
governo corrupto.
Jáder Barbalho
tem estatura de anão no mundo dos “negócios”, mas pensa que
é gigante e paga o preço disso. De superestimar-se como líder.
Nem ele e nem Antônio Carlos Magalhães, o vice-rei da Bahia,
perceberam que eram os aliados mais incômodos de FHC. Além
de caros, queriam mandar mais do que deviam. No momento exato Fernando
Henrique como quê colocou-os numa arena, brigaram e ganhou apenas
o chefão. Estreparam-se os dois. Perderam os mandatos e tiveram
seus campos limitados a seus estados, Pará e Bahia. São típicos
de máfia esses ajustes, sobretudo nos momentos decisivos, quando
está em jogo o principal botim, ou o filão dos “negócios”,
no caso a sucessão presidencial. Tanto a quadrilha que detém
o poder quer mantê-lo, como as quadrilhas que gravitam à sua
volta querem espaços maiores.
A candidatura de Roseana
Sarney, mafiosa, filha de mafioso, garantiu ao PFL, claro, partido de banqueiros,
o preço mais alto nessa história. As negociações
correm soltas e, de repente, Serra acaba saindo do páreo e Roseana
correndo com apoio do Planalto. Contra a vontade, mas aquela história
de ceder os anéis para salvar os dedos.
O PMDB é o partido
dos anões com mania de gigantes. Assim que se livrou de Jáder
FHC incensou Michel Temer, deputado paulista sem nenhum escrúpulo,
exatamente para evitar que a influência do paraense continuasse nas
bancadas federais, Senado e Câmara.
No meio do caminho uma
pedra, ou melhor, duas: Geddel Vieira e Renan Calheiros. Um deputado e
um senador. Dois apetites pantagruélicos para “negócios”,
“bocas”, “fraudes”, esse tipo de coisas. Servem a quem paga mais. De quebra
um senador hermafrodita, Pedro Simon: de dia é oposição,
na calada da noite é governo. E um ministro da Justiça (onde?)
pusilânime.
Por fora, à margem
dos bandidos, o governador de Minas Itamar Franco, principal desafeto de
FHC e pretendente a candidatura presidencial. É o único sujeito
sério nessa história toda. E os únicos, ele e o senador
Requião, os que se opõem aos anões que enxergam tudo
com lentes de aumento. Com lupa.
Ajustar todos esses esquemas,
calcular o preço certo de cada um dos bandidos, é tarefa
que FHC exerce com competência invejável. É só
pagar a metade do que cada um pensa que vale. Foi para isso que Jáder
foi preso e mostrado algemado no informativo oficial das 8 horas, o “Jornal
Nacional”.
Dá a impressão
que as coisas funcionam, que os corruptos vão para a cadeia, que
FHC não quer apoio dessa gente e, por baixo dos panos, ajustam apoios
aqui, áreas de influência ali, acertam preços, o que
toda máfia faz. No caso das forças que formam o governo geral
do Brasil, as várias máfias. Desde o partido do governador
geral, o PSDB, o PFL, o PMDB, o PPB, o PTB e meia dúzia de menos
votados.
Marlon Brando não
conseguiria o papel principal nesse filme. Al Pacino ficara atônito
com tamanha podridão e com toda a certeza ia passar a acreditar
que a máfia americana, ou napolitana, qualquer uma delas, não
sobreviveria a um dia de guerra com essa gente de Brasília. Exportam
know how. Diferem dos mafiosos clássicos porque, se preciso, vendem
a mãe.
É a velha história
do que parece que é, mas não é. Ou uma coisa é
uma coisa e outra coisa é outra coisa. A imagem de Jáder
algemado baixou, no mínimo, em 90% o valor de suas “ações”
no condomínio do crime (epa!), o PMDB. De quebra, a turma pára
de falar na dengue (a doença retornou ao Brasil no governo Sarney,
prosperou agora no governo FHC, com Serra ministro da Saúde, e virou
disputa entre César Maia e o projeto de “aiatolá” brasileiro,
Anthony Garotinho, governador do Estado do Rio). Não demora muito
Jáder vai estar falando de injustiça, essas coisas todas.
Falta prender, no Pará,
os responsáveis pelo massacre de Eldorado dos Carajás; o
governador pastel/corrupto Almir Gabriel. E, no resto do país: Malan,
Armínio Fraga, Eduardo Jorge, Fernando Henrique Cardoso, o ex-genro,
o contra-sogro, o filho, Temer, os Sarney, um monte de gente, uma lista
que começa em “a” e termina em “z”, se é que “z” ainda é
a última letra do alfabeto. Se tiverem criado outras cabe também.
Tem bandido para alfabeto chinês ou japonês.
E um último detalhe:
Se Jáder, por hipótese, abrisse a boca, o mundo cairia, o
mundo de Brasília. Isso tanto é sua garantia, como é
seu túmulo. Não pode, enquanto tiver certeza que fica com
os bens e o dinheiro que roubou, ou por outra, não vai fazê-lo,
falar, pois segue a lei do silêncio. Se...
...Ah! Se verificar que
está perdido, que não tem jeito, que a vaca vai para brejo...
Aí a coisa muda de figura. Põe a boca no trombone. Até
porque, mesmo com ares de chefão, não passa de pistoleiro.
O mineiro Laerte
Braga é jornalista e analista político.
Consciência.Net