O desafio
da comunicação, por Laerte Braga
A célebre frase de Andy
Wahrol, aquela que diz que “no futuro todos terão direito a 15 minutos
de fama”, tal e qual a foto de Guevara que corre o mundo, foi transformada
em lucro pelo capital. Calça jeans virou símbolo de liberdade.
Flávio Tavares,
um dos mais brilhantes jornalistas da história do jornalismo brasileiro,
em uma das oficinas do FSM – Fórum Social Mundial –, justamente
uma das muitas que trataram do tema comunicação (“A Informação
no Mundo Globalizado, da rede Praxis), disse com todas as letras que “nossos
filhos são educados pela televisão e nem mesmo os partidos
de esquerda sabem usar a televisão, senão como veículo
de propaganda rasteira e sem nenhum conteúdo de informação
e formação”.
A verdade é que
a televisão cumpre um papel fundamental no processo de coisificação
do ser, de transformação do sujeito em objeto. Consegue inclusive
convencer a cães e gatos que ração é melhor
que carne e pior, quem na verdade passa a crer nisso somos nós,
os que compramos. O carnaval é uma mostra disso. A mais popular
das festas brasileiras transformou-se num desfile de mulheres produzidas,
siliconadas, espécimes perfeitos de objeto sexual, onde o alvo,
além do sucesso, costuma ser o casamento com um “conde” italiano
e a perspectiva de retrato na “Caras”, com direito a tratamento de grande
dama. Uma pequena rede, só com fofocas dos bastidores, ameaçou
a audiência da “Globo”, que transmite ao vivo os dois dias de desfiles
no Rio de Janeiro.
“Falta alma a essas mulheres.
São só corpo”, definiu o notável escritor e autor
teatral Ariano Suassuna, homenageado, inclusive, por uma das escolas que
desfilou para Bárbara Bush no sambódromo daquela cidade.
Disse assim, ao pedir menos nu e mais emoção na passagem
do Império Serrano, uma das mais tradicionais agremiações
carnavalescas do Rio. O capital soube apropriar-se dos meios de comunicação
com eficácia impressionante. E esses souberam e sabem transformar
o ser humano em coisa. O robô/humano reage à ordem de aplaudir,
ou a de chorar, em questão de segundos.
A idéia que o “povão”
gosta é disso é equivocada. Ao “povão” é impingida
essa realidade, pois presta-se às novas formas de escravidão,
onde o trabalhador acredita, piamente, que saber apertar parafuso ou com
a mão direita, ou com a mão esquerda, leva-o aos píncaros
da glória, do sucesso. É como o dono de uma quitanda, um
pequeno negócio, mas que acredita-se “empresário” e passa
a raciocinar segundo a ótica de um banqueiro. A “revolução
hoje passa pela palavra e não pelas metralhadoras”, nunca é
demais lembrar a frase de Plínio de Arruda Sampaio, um dos fundadores
do PT.
O Brasil vive a perspectiva
do capital estrangeiro no setor. Vedado até hoje, por obra e graça
do poder desses veículos e da pusilanimidade do Congresso, dentro
em pouco estaremos submetidos ao processo “halloween”. Vai poder,
o capital estrangeiro, participar das empresas de comunicação.
Aqui, como em qualquer parte do mundo, as rádios ainda são
um importante veículo de comunicação. A experiência
de rádios comunitárias, num determinado momento e em casos
isolados, hoje, ameaçou romper o monopólio das grandes redes.
O governo tratou logo de regulamentar e criar mecanismos para impedir que
isso acontecesse, ou aconteça.
Pimenta da Veiga, um obscuro
deputado federal, levado ao Ministério das Comunicações
por conta de sua capacidade de adaptar-se ao “meio”, tratou de “coordenar”
o setor e o que sobra do espírito que alimentou o sonho de rádios
comunitárias, é pouco, muito pouco. As novas “rádios”
só são legalizadas quando veiculam a mensagem oficial. No
caso do ministro, em seu Estado, Minas Gerais, montou uma rede de supostas
rádios e tevês comunitárias para vários amigos
e trabalha sua candidatura ao governo estadual. Bem ao seu estilo corrupto.
Mas eficiente.
A rede mundial de computadores
já está sofrendo os ataques do capital. Programas como o
“echelon” tratam de vigiar o tráfego de informações
e identificar aquelas que são contrárias aos interesses do
Império e do capital, o que, no fundo, são a mesma coisa.
A perspectiva de informações sem controle e sem a prestimosidade
dos grandes veículos de comunicação de massas assusta
os donos do mundo, até pelo crescimento constante do número
de pessoas, em todo o mundo, com acesso à “net”.
Uma geração
está crescendo sob o fascínio do novo mundo da informática
e qualquer criança, hoje, na maioria dos países ocidentais,
fala a linguagem das máquinas, pois começa cedo a aprendê-la
em suas escolas. O grande desafio das forças populares, no mundo
de um imperador insano, doentio, George Calígula Bush, é
o de vencer as dificuldades da comunicação. Criar mecanismos
para romper o poder dos grandes grupos, da mídia associada ao capital
e seus interesses e trabalhar, basicamente, informação e
formação. Cidadania.
A rede mundial de computadores
pode cumprir um papel relevante e decisivo nessa luta. É preciso,
no entanto, começar a caminhada. De uma vez. Pois já perceberam
isso. Lançam, com o extraordinário poder que dispõem,
seus tentáculos para neutralizar qualquer sonho de uma comunicação
livre, formadora, capaz de permitir seres humanos e não robôs.
As novas formas de escravidão
passam por fazer o sujeito crer, populações inteiras, que
determinada marca de sabão lava mais branco; que determinado produto
remove gorduras, emagrece; que determinada pessoa é e será
o melhor governante porque tem estampa e tanto lava melhor, como emagrece.
Só através da comunicação.
A batalha da liberdade
está na palavra. Na comunicação. Na capacidade de
fazer o ser despertar, olhar à sua volta e preferir caminhar pela
vida como tal, nunca como número. Esse é o maior desafio
das forças populares. Se não formos capazes de vencê-lo...
...Vencê-lo começa
pela consciência e pelo debate. Por romper os limites e os interesses
da corporação, refiro-me aos jornalistas. Foi isso que Saramago
quis dizer, para todas as lideranças sindicais de todas as categorias
de trabalhadores, em sua mensagem lida no encerramento do FSM.
Ou como diz Millôr
Fernandes, nunca é demais repetir: “imprensa é oposição.
O resto é armazém de secos e molhados”. Hoje, tem que ser
muito mais que oposição. Mas trincheira de resistência.
O mineiro Laerte
Braga é jornalista e analista político.
Consciência.Net