A pesquisa da “Folha” e as mudanças na CLT, por Laerte Braga
    Ari Toledo, anos atrás, bota anos atrás nisso, na esteira do sucesso do comedor de “gilete” numa letra notável de Vinícius de Moraes para bem caracterizar o preconceito contra o nordestino, costumava apresentar-se em espetáculos onde a esquerda era presença certa, com a música sobre a descoberta do Brasil.

    Ironizava os portugueses – a frota de Cabral:  “.. então a caravela encalhou/e Cabral mandou descer para empurrar/desceram 440 marinheiros que morreram afogados/por não saber nadar...” Contava a odisséia da descoberta e ao final falava da independência. Só que acentuava a forma de cantar para repetir o seguinte: “ind’é/pendente”.
    O Brasil continua “ind’é/pendente”.
    É por aí que passam as mudanças propostas pelo governo na CLT – Consolidação das Leis do Trabalho: recursos para a campanha do candidato governista e exigência/imposição do FMI, como aconteceu na Coréia e na Argentina, com resultados desastrosos. É por conta dessa premente necessidade, a de recolher dinheiro para a campanha e cumprir a ordem dos feitores, que entrou o esquema de regime de urgência: a forma de evitar o debate e prolongar a luta dos trabalhadores pela manutenção de seus direitos. Ou seja, goela abaixo.
    O que a oposição, num primeiro debate, deseja é, exatamente, a retirada do regime de urgência. Isso possibilitaria um debate amplo sobre as propostas do governo, permitiria uma avaliação mais precisa e democrática da própria CLT, enfim, o que nunca houve no governo geral de FHC: consulta aos interesses do povo brasileiro. Até agora, só interesses de banqueiros, empresários, os que contribuem para a eleição de tucanos, pefelistas, a turma da quadrilha do PMDB, do PPB e do PTB, além de outros menores.
    O compromisso do governo é o de aprovar a proposta o mais rápido possível, para que isso signifique mais recursos na campanha do ano que vem. Vários jornais e vários jornalistas tocaram no assunto, sugeriram claramente a manobra.
    É só colocar a matéria no contexto geral das ações de FHC e fica fácil perceber que insere-se no conjunto de manobras para garantir a continuidade do regime de governadoria geral da província Brasil. O cara não tem um pingo de escrúpulos.
    O jornal “Folha de São Paulo”, um dos melhores do País, mas governista envergonhado (exceto evidente seu primeiro time de colunistas/redatores, senão virara um “Globo” da vida, onde só sobra Veríssimo), traz na primeira página de sua edição de hoje, 2 de dezembro, a manchete que o assunto divide o paulistano. E funda-se, para tanto, numa pesquisa do Instituto Data Folha, do próprio grupo.
    E como sempre, entre a manchete e a pesquisa, o fato, existe um abismo. Começa assim a matéria, na “Folha Dinheiro”, primeira página: “A maioria dos paulistanos – 61% – está mal informada ou nem tomou conhecimento do projeto lei que muda a legislação trabalhista...” O fato principal, então, é o de que a maioria dos entrevistados não tinha condições de opinar sobre o assunto, pois estava mal informado. Elementar.
    E não a manchete da primeira página, que fala em divisão e não esclarece que essa divisão restringe-se a 39% dos paulistanos entrevistados.
    Qual o objetivo disso? Outra vez, meu caro Watson, elementar: ajudar o governo a ter argumentos. Tucano, especialista em dizer que vermelho é verde, tira de letra na mídia, sempre favorável, esse tipo de dado. Vai como rolo compressor e ainda conta com a ajuda de gente como Inocêncio de Oliveira – uma vergonha um sujeito desse num Parlamento.
    Outro dado importante: os jornais, todos de um modo geral, ressaltam que os técnicos encarregados da perícia no painel eletrônico da Câmara dos Deputados constataram que o governo venceria. Ao liberar uma informação dessas é preciso prová-la, já que foram dados números de quem votou a favor e quem votou contra, assim, é fácil saber e divulgar os nomes dos deputados e seus respectivos votos. Do contrário permanece a suspeita de fraude, até porque quem assistia a transmissão da sessão pelo canal de tevê da própria Câmara, inclusive era isso que passam os deputados governistas, tinha a nítida sensação que o governo perderia (muita gente acreditou na brincadeirinha do deputado Geddel Vieira – o que deve ter faturado não está no gibi – de ser contra).
    Um ou dois minutos após o deputado Walter Pinheiro, líder do PT, em questão de ordem, deu a impressão de quem acordava diante da manobra governista para evitar que o painel revelasse o voto e tratou de garantir a votação nominal, ante um Aécio que queria esperar, acabou não tendo jeito.
    A sensação que fica, ainda mais depois da afirmação dos técnicos que o governo havia ganho a votação, é que tudo não passa de tremenda armação, arapuca muito bem montada, seja para impedir a derrota, seja para ganhar tempo e acabar de comprar o que faltava ser comprado no PMDB (além do PL, partido dos pastores evangélicos – são poucos mas custam caro), como para evitar que gente sem o menor pudor se escondesse no voto no painel e não se visse forçado a proclamar de viva voz seu voto.
    O corrupto Inocêncio Oliveira chegou a afirmar que isso era um retrocesso. A Inglaterra então, um dos principais estados norte-americanos na Europa, está liquidada de vez. Os votos dos deputados na Câmara dos Comuns, com quinhentos anos de existência, são dados nominalmente.
    A pesquisa da “Folha” soma-se a isso. Dá a sensação que a opinião pública está dividida e tenta passar a impressão que o trabalhador quer é garantir o emprego, aceitando ceder direitos. Sobre isso publica uma frase do ex-ministro e banqueiro Tápias qualquer coisa, onde afirma que o trabalhador prefere exatamente isso. Como se fosse um trabalhador e não um sanguessuga. Um explorador. Um privilegiado. Um dono de uma fatia do Estado privatizado no Brasil.
    E um detalhe: na pesquisa e na matéria da “Folha”, está afirmado com todas as letras que “os mais bem informados sobre o projeto de lei do governo, entre os moradores de São Paulo, são os mais bem pagos e os mais instruídos.” O próprio fato da pesquisa cingir-se a São Paulo, o Estado mais rico da Federação (Federação? Onde? De futebol?) é surpreendente, pois o Data Folha tem estrutura e meios para alcançar todo o País em espaço de tempo mínimo.
    Está tudo sendo muito bem encadeado, as peças ajustando-se como quer o governo geral, inclusive já liquidado o problema PMDB, o principal entrave ao projeto de lei. Não havia aceito a proposta do governo, quis mais e conseguiu, claro. Não são eles que pagam, são os trabalhadores. Ah! Outro detalhe: parece que não tem nada a ver com o fato, mas tem e muito: Roseana declara hoje que quer ser chamada, caso venha a ser eleita, de "presidenta". E já começou o bombardeio sobre a pefelista, vindo do próprio PSDB e parte do PFL que está assustado com a governadora. Votada a matéria, mudança da CLT, é só esperar para ver onde a dita vai parar.
    Os tucanos, FHC à frente, são prodigiosos nesse negócio de mentira, rasteira, punhalada pelas costas, contas no estrangeiro, comprar carro e disfarçar que está alugando, rapapé para banqueiros, leis para tomar dinheiro de empresários e garantir a campanha, etc, etc, etc. E o Lula acha que o negócio é parecer com eles um pouco, sendo diferente outro pouco, resultando em um muito desastroso.

Laerte Braga


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