“Não
chores por mim” Brasil, por Laerte Braga
De um lado o Afeganistão. Devastado
por bombas da liberdade. De outro a Argentina. Devastada pelas bombas do
sistema financeiro internacional. São as duas formas que o mundo
globalitarizado, a partir dos interesses do maior império da história
da civilização (?), trata o que chamam de emergentes.
Os que cedem – e aí
não há julgamento sobre o mérito de ninguém
– mantêm seus prédios intactos, vão apenas encher as
cadeias em nome da ordem, da segurança, da democracia, do futuro.
Que futuro? Os que resistem, ou desafiam, definitivamente, conhecem o futuro
nos escombros de Cabul. Nos corpos palestinos, colombianos, mexicanos,
coreanos, brasileiros, estendidos nas ruas da miséria global. Ou
as mãos ávidas da bolsa escola que compra tudo, resolve tudo...
O capital não
precisa e nem quer gente. O império basta-se a si próprio.
É cínico,
porque poderoso, arrogante. Despreza a vida que não possa ser contabilizada
nos índices de Wall Street.
Ou no olhar insano
de George Bush.
Para os seus
propósitos conta com figuras repulsivas como Menem, Fernando Henrique
(chame-se ele Collor, Roseana, Ciro, Garotinho, ou Tasso). Ou fracos e
incapazes como De La Rúa. Carrascos implacáveis como Sharon.
Impiedosos, todos são.
A Argentina não
é hoje o Brasil de amanhã. Somos todos “argentinas”. O quadro
do país portenho é apenas questão de tempo. É
inevitável porque é deliberado. Como dizem os profetas da
nova ordem, gente como Malan, Armínio Fraga, burocratas de segunda
categoria, mas sempre prontos para oferendas no altar/vulcão da
insaciável sede dos deuses bancos.
Os sacrifícios
humanos, que antes eram atribuídos à barbárie, hoje
são globais. Diários. Em cada criança que morre de
fome. Em cada desempregado; em cada doente sem saúde ou perspectiva
de vir a tê-la;
A fome que se imaginava
existir em cada vulcão, existem em cada imponente sede de banco,
de grandes conglomerados, em Washington. São as águias sem
nenhuma beleza, mas carregadas de destruição, que representam
mais, muito mais que um World Trade Center por dia.
E nem mais o sentimento
de piedade. A máscara da piedade, que serviu para encobrir reais
objetivos durante bom tempo, desapareceu. São os olhos arregalados
de George Bush, a síntese da estupidez.
A primeira constatação
que qualquer pessoa faz, politizada ou não, é que entre os
argentinos que ocupavam supermercados, lojas, só homens e mulheres,
crianças, num respeito mútuo de solidariedade pela sobrevivência,
buscando humilhados e violentados em suas mais recônditas entranhas,
ar. Um pouco de ar. Ali não estavam marginais. Instinto puro de
sobrevivência. De medo. Nada a perder. Tudo já está
perdido.
E certamente a vergonha
de um povo valoroso e guerreiro, altivo, quebrado pela tortura do capital.
Há, como quê,
e os rostos argentinos revelam isso, uma certa perplexidade diante dos
fatos. A clássica pergunta de como foi possível chegar a
tanto. Mas pior, o medo de não saber como enfrentar as teias e as
aranhas carregadas de veneno e que por elas escorrem.
Essa perplexidade é
de todos nós. Nos vemos aqui apenas contando as horas, os dias para
a nossa “Argentina”.
É necessário
deixarmos de lado marcas do passado e enfrentarmos o desafio de retomarmos
a dignidade de cada de um de nós, os povos oprimidos, explorados
e estuprados pela barbárie capitalista. Não é um jogo
institucional de oposição e situação. É
como se estivéssemos numa arena romana, e estamos, prestes a sermos
devorados por leões. Somos os novos cristãos. Os devedores.
Não importamos aos credores, exceto no que temos que pagar.
Aqui, o governador
geral, um estranho entre nós, FHC, à revelia do Congresso
Nacional, executa as obras determinadas pelos “donos” em Alcântara.
Não importa que o projeto de acordo militar não tenha sido
aprovado. Sabe que compra a maioria. Ou se for o caso, passa por cima,
tranqüilamente.
O respeito, qualquer
que seja, desapareceu. Restam os interesses. E o peru no dia de Ação
de Graças. Martin Lutero resolveu a questão: é ganhar,
pedir perdão e pronto. Sharon mata na certeza que foi eleito para
isso. Que o Messias vai bater à sua porta e ungi-lo. Bush toca harpa
e volta suas bombas contra o Iraque. Amanhã, contra quem? Contra
o resto, inclusive nós.
E pouco importa que
Saddam seja um ditador cruel (e o é). Que os talibãs sejam
fanáticos pré históricos (e o são). Importa
que todos estejamos de joelhos. Saddam e talibãs são apenas
acidentes.
Argentina e Afeganistão
são as duas face da moeda capitalista. Se não percebermos
isso não restará uma só flor no jardim, como no poema.
A luta é pela vida. E não vejo como construi-la de outra
forma que não solidária e coletivamente. Mas para isso, primeiro,
vai ser preciso organizar e resistir.
O que enfrentamos e
assistimos é a um puro e simples extermínio do que chamam
de “emergentes”.
Somos nós. A
Argentina somos nós.
Talibãs são
eles.
Laerte
Braga
Consciência.Net